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AUTISMO

Valorizar as aptidões faz a diferença

Educação. O desenvolvimento das múltiplas inteligências no caminho para melhorar a inclusão e a qualidade de vida


A escola Angélica Costa é referência na inclusão de pessoas com Transtorno Espectro Autista (TEA) em Gaspar / Foto: Daiele Tusi/jornal metas

CONHECIMENTO. Eis a palavra de ordem para o entendimento sobre as diferentes situações da vida. E esta palavra também é guia para a compreensão do Transtorno Espectro Autista (TEA). Ele se refere a uma série de condições caracterizadas por algum grau de comprometimento no comportamento social, na comunicação e na linguagem, e por uma gama estreita de interesses e atividades que são únicas para o indivíduo e realizadas de forma repetitiva.

Os transtornos do espectro autista começam na infância e tendem a persistir na adolescência e na idade adulta. Na maioria do casos, as condições são aparentes durante os primeiros cinco anos de vida. Embora algumas pessoas com transtorno do espectro autista possam viver de forma independente, outras têm graves incapacidades e necessitam de cuidados e apoio ao longo da vida.

No dia 2 de abril é celebrado o Dia de Conscientização do Autismo. As pessoas com este transtorno são frequentemente sujeitas à estigmatização, discriminação e violações de direitos humanos. O acesso aos serviços e apoio para essas pessoas, muitas vezes é inadequado. E foi com o entendimento de que todos os indivíduos - com transtorno, síndromes, deficiências ou não, possuem suas particularidades, dificuldades e aptidões, que um grupo de pais de autistas começou a fazer reuniões constantes com a motivação de prmover fortalecimento e apoio às famílias. Essas reuniões se tornnaram cada vez mais frequentes e com mais integrantes. Foi então que se formou a Associação de Pais e Amigos do Autista (AMA) de Gaspar.

Há quatro anos, a entidade desenvolve trabalhos que possam aumentar a qualidade de vida das pessoas com TEA. A busca e a troca de conhecimento é constante. Conforme a presidente da Associação, Eliane Salgado, mais de 100 famílias já fazem parte da AMA e a evolução na questão inclusiva se tornou visível na cidade de Gaspar a partir daí, "com a presença de palestrantes transmitindo conhecimento, com o entendimento por parte das autoridades sobre a necessidade de os autistas estarem inseridos na sociedade, tudo melhorou".


Eliane, o esposo e os filhos João Vitor, Marco e Mateus da Silva / Foto Arquivo Pessoal

Eliane é casada, mãe de três crianças com autismo e conta que a maior dificuldade que ela teve foi a de tomar a decisão de manter o filho mais velho, Marco Antônio da Silva, somente na APAE ou então na escola de ensino regular. Essa decisão precisou ser tomada quando ele completou seis anos de idade. Ele é autista não verbal (não fala) e hoje possui apenas atendimento neurológico na APAE. "É uma crueldade ter que tomar uma decisão dessas, porque saindo da APAE ele perde parte do atendimento especializado que havia lá", explica. Mas os pais optaram por ter o filho na escola, pois acreditam que esta é uma das formas de mantê-lo inserido na sociedade: "Mesmo com todas as dificuldades, é gratificante saber que estamos conseguindo proporcionar isso a ele", salienta Eliane.

Inclusão Escolar

Conforme dados da Organização Mundial da Saúde, Uma em cada 160 crianças tem transtorno do espectro autista (TEA). Em Gaspar, na rede municipal de ensino, 308 alunos possuem Atendimento Especializado nas escolas. Destes, 186 são autistas.

Este é um dado considerado significativo em relação ao Atendimento Especializado, e que reforça cada vez mais a necessidade das escolas se adequarem às diferenças e trabalharem de forma que todos estejam incluídos nas atividades que fazem parte de uma instituição educacional. "Nós sempre buscamos entender cada vez mais as dificuldades de cada um. E cada autista possui suas particularidades, assim como cada um de nós que não tem o diagnóstico de Espectro", explica a diretora da Escola de Educação Básica Angélica Costa, Mareli Spengler.

Cerca de 180 alunos fazem parte da Instituição em Gaspar. Destes, seis têm autismo. Ela é considerada modelo em Inclusão na cidade devido os projetos e oficinas que nela são realizados. E na construção de toda essa estrutura tem a participação da professora Ane Caroline Sinhuk. "Ela é bastante perfeccionista, detalhista, inteligente, nos ajudou e ajuda muito, especialmente na construção do projeto de robótica.

Em 2020, segue explicando a diretora, "também foi um ano atípico e fomos privilegiados por ter uma profissional como ela, além dos projetos que ela desenvolve na escola, Ane também nos ajudou em todo o sistema online de trabalho com os alunos".

Ane foi aprovada em vários concursos. Hoje, ela trabalha na Escola de Educação Básica Angélica Costa, em Gaspar, onde já auxiliou na produção de vários projetos e oficinas que enriquecem o dia a dia dos alunos e também profissionais que fazem parte da instituição. "Eu me sinto privilegiada por ter uma equipe inclusiva, que me dá espaço de fala, que me compreende, que me valoriza. Então hoje eu me sinto muito satisfeita em estar aqui", diz a professora.

Ane tem autismo e sempre buscou desenvolver sua maior paixão: a informática. Ela relata que já enfrentou muitas dificuldades, especialmente quando era aluna, mas buscou superá-las e desenvolver suas aptidões. "Na minha época, década de 90, pouco se falava sobre autismo e muitas pessoas da mesma geração sequer recebiam diagnóstico quando apresentavam alguns comportamentos específicos ou então recebiam diagnóstico errado. Ainda não se falava em escola inclusiva. Saí da escola em 2008 e ainda não se tinha esta perspectiva", relata.

Seu maior medo, quando jovem, era o de não encontrar espaço no mercado de trabalho, devido algumas limitações que Ane diz ter. Entre elas a dificuldade de realizar tarefas executivas, trabalhar sob pressão e desenvolver atividades manuais. "Muitos autistas têm essa dificuldade de cumprir horários e entender as regras sociais do trabalho", observa.


Professora Ane (à esquerda) ministra aula para todas as turmas da escola / Foto: Daiele Tusi/Jornal Metas/

Mas Ane sempre teve um gosto especial pela aprendizagem tecnológica. E foi desenvolvendo esta habilidade que ela se tornou professora de informática. Aos 17 anos de idade, logo no primeiro ano de faculdade, já começou a abraçar as primeiras oportunidades de trabalho. Entre elas a de ministrar oficinas, o que a levou a concluir o bacharelado e, em seguida, cursar licenciatura.

A facilidade em trabalhar neste ramo, segundo Ane, já era perceptível desde a infância, mas transferir esse conhecimento e esta aptidão a outras pessoas foi algo que ela descobriu com o passar dos anos. "Desde criança sempre gostei de computador, descobrir, pesquisar. A minha inclinação era pra esta área. Foi algo que aconteceu em minha vida e foram surgindo oportunidades. Eu me adaptei bem a este tipo de trabalho", afirma.

Para ela, adquirir conhecimento sobre os mais diferentes tipos de dificuldades e buscar desenvolver as múltiplas inteligências é o caminho para melhorar cada vez mais a inclusão na sociedade e no ambiente escolar. "Tanto o autista, quanto o deficiente intelectual ou aluno típico, pode desenvolver aptidões diferentes. Nas minhas aulas de robótica eu tenho uma inclusão quase que 100%. É muito legal ver todos participando", afirma Ane.

Na Escola, todas as adaptações feitas, bem como a criação de cada novo projeto, partiram de estudos detalhados sobre as particularidades de todos os alunos. Para a coordenadora pedagógica da Angélica Costa, Elaine Alves, falar de inclusão é proporcionar um ambiente que atenda às necessidades de todos os que compõem o ambiente escolar: alunos, professores e servidores. Por isso até mesmo o cardápio da escola foi estudado junto a profissionais especializados para atender às particularidades dos alunos e ter a certeza de que a qualidade de vida está sendo mantida também na escola. "Se paramos para pensar, todos nós temos algumas particularidades, alguns comportamentos que também são diferentes. Então, é importante pensarmos e agirmos com a maior naturalidade possível dentro dessas diferenças. Somos todos iguais", finaliza.


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