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Reconhecimento

Professor de Gaspar é destaque

Marco Aurélio Souza, especialista em dança educacional, será homenageado em festival internacional

Foto: Foto: Divulgação
Marco Aurelio conquista reconhecimento pela contribuição dada como pesquisador do universo da dança


Foto: Divulgação/Marco Aurelio conquista reconhecimento pela contribuição dada como pesquisador do universo da dança

Coordenador do curso de licenciatura em dança da Universidade Regional de Blumenau (Furb), o primeiro nesta área em Santa Catarina, Marco Aurelio da Cruz Souza é o homenageado do 11º Múltipla Dança - Festival Internacional de Dança Contemporânea que ocorrerá inteiramente on-line entre 24 e 30 de maio. Nascido e ainda morador de Gaspar, ele é doutor em motricidade humana, mestre em performance artística - ambos os estudos voltados à dança, especializado em dança educacional e integrante de grupos de pesquisa em diferentes Estados do Brasil. Autor e organizador de livros, escreveu inúmeros artigos científicos, dirigiu espetáculos, recebeu prêmios por suas coreografias, entre elas, "Respeito: Sou Mulher, Sou Negra, Sou Brasileira", "Saudação a Iemanjá", Ye "Ye Iberi Dshum", "Singkill", "África Tribal", "Cúmbia, Ritmo Colombiano" e "Oktoberfest, Jeden Tag ist Ein Fest". Consultor do currículo do novo ensino médio de Santa Catarina e membro do coletivo de artes para criação dos insumos para PNLD 2019, MEC, integra o conselho científico e fiscal da Associação Nacional dos Pesquisadores em Dança (Anda) e atua como vice-presidente da Associação Profissional de Dança do Estado de Santa Catarina (Aprodança). Nesta entrevista ele reflete sobre o Múltipla Dança, sobre o reconhecimento de sua trajetória, pensa a própria atuação e a importância da arte em tempos sombrios. "Ver a arte na universidade me enche de esperança, pois além de possibilitar uma formação mais sensível, enaltece o conhecimento, mesmo que ainda não esteja em pé de igualdade com as demais áreas", diz recebe o tributo no dia 25, às 18 horas, quando também participa de uma live pelo Instagram para dialogar e partilhar experiências no universo da dança.


Como recebe o tributo do 11º Múltipla Dança? Como é estar num rol de homenageados expressivos, como Alejandro Ahmed, Diana Gilardenghi, Ana Luiza Ciscato e Ida Mara Freire que foram destacados em outras edições?

Marco Aurelio da Cruz Souza - É incrível. Fiquei muito feliz quando a Jussara Xavier me comunicou. São todos profissionais que admiro muito por suas trajetórias artísticas. Nem sei se mereço tal honraria, mas recebo com o coração transbordando de alegria. É o reconhecimento de anos de luta pela dança. Luta que passa por várias instâncias: ultrapassar o preconceito de meninos na dança, falta de valorização da área, busca pela profissionalização, entendimento da dança como área de conhecimento, participação de associação de classe em minha cidade para dar oportunidades a crianças e adolescentes em vulnerabilidade social, aulas de qualidade e de forma gratuita, participação de eventos, criação de espaços para que a dança tivesse maior visibilidade no Vale do Itajaí, para além dos espaços tradicionais como o teatro, e mais recentemente a criação do curso de licenciatura em dança na Furb, no qual estou como professor e coordenador, e consultoria na criação do currículo do novo ensino médio de Santa Catarina.


Foto: Divulgação/Com um grupo de alunos da Escola do Teatro Bolshoi do Brasil, em Joinville, onde deu aula de danças populares



Como avalia o Múltipla Dança?

Marco Aurelio - É um grande evento. Ocupa um lugar importante no cenário da dança no Sul do Brasil por apresentar perspectivas profissionais para a área da dança, possibilita a apreciação estética e artística de trabalhos de companhias e artistas profissionais da dança dos contextos nacional e internacional, abre espaço para o diálogo entre artistas, pesquisadores, professores e o público, bem como oferta de oficinas, palestras, formação de plateia e outras ações que compõem a programação, além de um olhar atento para a dança catarinense.


Como faz a escolha pela dança?

Marco Aurelio - No final do ensino médio. Depois da apresentação de um espetáculo da academia de minha irmã, fui chamado para trabalhar na própria escola particular em que estudava. No terceirão de manhã e, à tarde, dava aulas para as crianças pequenas de até dez anos. Aí aconteceu a escolha por cursar educação física, uma vez que em Santa Catarina não tínhamos curso superior em dança, e era o que eu queria fazer profissionalmente, pois já estava ganhando dinheiro com isso. Trabalhava sem formação alguma. Só curiosidade mesmo. Eu não parava, passei a fazer muitos cursos de dança e educação. Saia de casa às 6 da manhã para estudar e raramente chegava antes das 22h, por conta de tudo o que eu fazia (vôlei, ginástica, danças, aula de violão, trabalho). Sempre foi assim. E não é diferente hoje, só que com outras atribuições. Sempre soube que queria ser professor e coreógrafo, nunca tive vontade de ser bailarino/artista da dança.


O que é dominante no percurso e no fazer artístico: a criação propriamente dita, a educação, o pensador/pesquisador? O que mais mobiliza?

Marco Aurelio - Em todo processo formativo em dança, realizado de forma consciente, o ato educativo se faz presente, e para ser um bom professor necessariamente o ato investigativo será acessado.


Como tem sido a sua experiência como coordenador do curso de licenciatura em dança na Furb? O que é mais difícil nesta atuação, tendo em vista o caráter inédito de sua criação no Estado?

Marco Aurelio - Encaro como mais um grande desafio, mas que me dá muito orgulho em poder fazer parte. Os desafios são inúmeros e constantes. O curso é pago, e perante a crise econômica e política que temos atravessado nos últimos anos, período em que o curso foi criado, acaba dificultando a captação de novos alunos e manutenção dos que temos, mesmo com a oportunidade de muitas bolsas pela universidade e principalmente do governo do Estado; a situação de toda equipe de professores (que é incrível) ser substituto, ou seja, não ter estabilidade, a não regulamentação da profissão da dança, hoje qualquer pessoa sem formação pode atuar como professor, a predominância da formação da área da educação física, o não entendimento da dança como arte...mercado de trabalho, desvalorização da profissão. Mas, ao mesmo tempo, com todas as dificuldades, os resultados com os estudantes nos enchem de alegria. Temos conseguido no Vale do Itajaí ampliar o diálogo com as prefeituras e conscientizá-los na criação de concursos públicos específicos para o professor de dança, e ainda, possibilitar que os licenciados em dança possam assumir as vagas de professor de arte nas escolas, conforme o Parecer CNE n° 22/2005 e Lei Federal 13.278/2016. Este ano conseguimos ampliar para as escolas estaduais também que já recebem nossos estudantes. É um grande passo.


Pautas emergentes, novas plataformas discursivas, a revitalização dos movimentos femininos e decoloniais. Como tudo isso opera na dança de Santa Catarina e do Brasil?

Marco Aurelio - Acredito que ainda de forma muito tímida, estas pautas começam a ocupar espaço nos currículos de cursos superiores de dança e teatro, nos quais os processos compositivos que valorizam o trabalho corporal passam a dialogar com conhecimentos necessários à formação do professor e que são garantidos por força de lei como: direitos humanos, meio ambiente, cultura afro-brasileira, africana, indígena. Metodologias e pensamento decoloniais passam a ser mais valorizadas nas aulas, os corpos e suas subjetividades ganham centralidade nos processos. Ver a arte na universidade me enche de esperança, pois além de possibilitar uma formação mais sensível, enaltece esta área de conhecimento, mesmo que ainda não esteja em pé de igualdade com as demais áreas. Poderia dizer que alguns coletivos que trabalham com a dança contemporânea muitas vezes desenvolvem seus trabalhos discutindo as pautas urgentes. Obviamente que nos espaços não-formais, isso ainda está muito distante, pois os modelos metodológicos do Norte ainda são predominantes na forma de ensinar dança.


Foto: Divulgação/




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