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PASSADO

O casal Lana e seus onze filhos no Bateias

Os dois mais jovens, Iris e Nelson, abrem o livro de história de Fioravante e Luisa


foto: Alexandre melo/jornal metas/Iris e Nelson falam com saudades de um tempo de dificuldades, mas também de muita união

"O Bateias é um lugar abençoado, tem muitas empresas e hoje está tudo mais prático". A frase é de Iris Lana, 73 anos, antiga moradora do lugar. Mas, nem sempre foi assim. Relembrar a história da família Lana, ao lado do seu irmão Nelson, de 77 anos, é voltar num tempo de dificuldades, mas também de muita união da comunidade. Seus pais, Fioravante Lana e Luísa, que nasceu com sobrenome Barbieri, trabalharam duro na roça para criar seus onze filhos. O primogênito, Mário (falecido), nasceu no dia do aniversário da mãe: 25 de julho. Aliás, Mário teve uma profissão que só os mais idosos conheceram: boleeiro, ou condutor de carroça. "Ele chegava a conduzir uma carroça com quatro cavalos", relembra Nelson. Depois de Mário, o casal Lana teve outros dez filhos. Iris é a mais jovem, Nelson o penúltimo. Outros dois irmãos ainda estão vivos: Olindina e José Altair. Mas, onze filhos é pouco diante da quantidade de irmãos de Fioravante. Dificilmente alguém em Gaspar vai superar a marca de 24 de um único pai. Nono Luiz, o Bidio, pai de Fioravante, casou duas vezes. Com a primeira mulher, Angelina, teve 19 filhos; entre eles Fioravante. Já no segundo casamento, com Florinda, foram outros seis filhos.

A primeira residência dos Lana foi no Barracão, próximo à pedreira. Lá, a família fabricava cachaça e outros derivados da cana que eram trocados por alimentos na "venda" do seu João Barbieri, irmão de Luísa. Fioravante e Luísa moraram pouco tempo na propriedade dos Lana. A família se mudou para a Rua José Rangel, no Bateias, em terras que os pais de Luísa deixaram para ela como herança. Ali nasceram praticamente todos os filhos do casal. "Meu pai plantava mandioca, fumo, verduras e melancia", conta Iris.

Ela gostava de estudar, mas não teve a oportunidade de ir muito adiante. Os onze filhos dois Lana estudaram pouco, pois a necessidade obrigava que todos ajudassem na lavoura. Essa era a regra na maioria das famílias da época. O mingau de farinha e água e a cama de palha de milho ainda estão bem vivos nas lembranças dos irmãos Lana. A pobreza era condição da maioria das famílias moradoras do Barracão e Bateias. "Meu falecido sogro dizia, a gente precisa se acostumar com a pobreza, porque a riqueza é fácil", diz Nelson.

Havia um apego forte à religião. Na casa dos Lana não era diferente, as orações diárias eram um pedido a Deus por saúde e dias melhores. A presença nas missas e procissões era quase obrigatória. "Ir à igreja e procissões era nosso lazer de fim de semana", acrescenta Iris, que lamenta que a falta de religiosidade tem separado muitas famílias nos dias atuais.

Aos nove anos, Iris deixou a casa dos pais, não por vontade própria, mas porque eles decidiram que ela iria morar com um irmão, já casado, em Blumenau, para cuidar dos sobrinhos. "Naquele tempo não tinha escolha, era o que os pais decidiam", observa. A jovem sentia muita falta dos pais e dos irmãos. "Quando minha mãe ia nos visitar, eu me agarrava na saia dela e chorava para voltar para casa. Minha mãe me trazia, mas na semana seguinte meu irmão ou minha cunhada vinham me buscar". Quando completou 14 anos, Iris arranjou emprego na Industrial Garcia (ex-Artex), onde aprendeu a costurar, mas continuou sendo a cuidadora dos sobrinhos. Ela só retornou para Gaspar três anos depois e por um bom motivo. Conheceu Francisco Zuchi e aceitou o pedido de casamento. Com 17 anos, Iris subiu ao altar para dizer sim ao matrimônio. Seu pai, porém, não a viu casar. Fioravante faleceu dois anos antes, aos 63 anos.

Depois da morte do patriarca, os filhos abandonaram de vez a lavoura. Nelson admite que nunca gostou da roça, pois via as dificuldades que seus pais enfrentavam. "Num ano a gente comprava uma vaquinha de leite e dois novilhos, no ano seguinte tinha que vender a vaca para pagar as dívidas", revela.

Nelson fez de tudo um pouco. Trabalhou de vendedor de leite, padeiro, recepcionista de hotel, motorista de ônibus e até em uma distribuidora de bebidas, mas foi no Café Beduschi, em Gaspar, que ele ficou mais tempo: 40 anos. Francisco, marido de Iris, também não ficou por muito tempo na agricultura. Ele até tentou plantar arroz na terra que herdou dos pais, na Rodovia Ivo Silveira, no Bateias, próximo à localidade conhecida como Arraial dos Claudinos, mas dona Iris conta que um dia Francisco recebeu proposta para trabalhar num açougue e aceitou.

Costura

Dona Iris também voltou trabalhar de costureira. Ela abriu uma facção há 26 anos. Depois que ficou viúva, há oito anos, passou a se dedicar ainda mais à empresa da família, instalada nos fundos de casa, junto com seus dois filhos e a nora. A facção já chegou a ter 14 empregados, mas hoje é apenas a família que toca o negócio. Nos últimos tempos, por causa da COVID-19, Iris se afastou do trabalho. "Ainda não sei se volto", afirma. Embora as dificuldades da infância, Iris e Nelson dizem que valeu a pena. "A gente teve altos e baixos, como toda a família, mas ninguém morreu de fome e minha mãe ainda ajudava as pessoas que tinham menos que nós", revela Nelson. "E não tinha ninguém de nariz empinado naquele tempo", acrescenta Iris. Os irmãos Lana teriam muitas histórias para contar. "Se puxar lá de trás vira um rosário", brinca Nelson.


Dona Luisa...



... e seu Fioravante em meio à plantação de fumo


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