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Memória.

O Bendini que ergueu uma escola

Augusto Bendini ainda indicou a filha Sueli para lecionar aos filhos dos agricultores do Alto Minas

Foto: Foto; Alexandre Melo/Jornal Metas
A professora Sueli, seus pais, Augusto e Maria Quintino, e o avô, João Bendini


Foto; Alexandre Melo/Jornal Metas/A professora Sueli, seus pais, Augusto e Maria Quintino, e o avô, João Bendini

Augusto Bendini é mais um personagem da história de Gaspar. De família tradicional de imigrantes italianos, seus pais, João e Clara Bendini, eram donos de muitas terras em Alto Minas, localidade de Ilhota próxima ao limite com Gaspar. João era criador de gado e, para não fugir à tradição dos Bendini, comprador de muitas propriedades. As terras eram divididas entre os filhos na medida que eles iam casando. Foi o que aconteceu com Augusto, que subiu ao altar com Maria Quintino Bendini.

O casal formou numerosa família de 15 filhos. Embora as terras da família ficassem em Ilhota, os Bendini se tornaram conhecidos no Óleo Grande pela religiososidade. Augusto e Maria eram membros ativos da comunidade católica Santa Catarina, cuja capela ajudaram a erguer. Ao contrário do pai, Augusto optou pela agricultura, que na época se mostrava rentável com imensas áreas plantadas de mandioca. Além do aipim, o agricultor plantava cana-de-açúcar. As matérias-primas eram beneficiadas em dois engenhos: um de farinha e outro de cana, ambos movidos a boi. Os produtos eram vendidos em toda a região.

Mas os legados dos Bendini não foram apenas os da religiosidade e do trabalho em comunidade. Augusto também construiu, em suas terras, uma escola para que seus filhos e de outras famílias da região pudessem iniciar os estudos. Sueli Terezinha Bendini Schmitt, a quinta filha do casal e seus irmãos estudaram na Escola Estadual Desdobrada. O detalhe é que Sueli acabou lecionando no pequeno educandário. Hoje, aos 78 anos, ela conta que não queria ser professora, foi uma imposição do pai e, naquela época, o que ele dizia não se questionava, se cumpria. "O prefeito de Ilhota foi até a nossa casa e perguntou se meu pai não tinha uma filha que podia dar aulas na escola, ele então me indicou; eu chorei muito porque não queria dar aulas por ter vergonha de ensinar as crianças que ainda brincavam comigo. Na época, Sueli havia completado 16 anos. Ela cursou ainda dois anos do chamado Ensino Complementar na escola Marcos Konder, no Centro de Ilhota. "Eu gostava mais de trabalhar na roça do que dar aulas", assinala.


Foto; Alexandre Melo/Jornal Metas/Pedro e Sueli: 59 anos juntos



Pedido do prefeito

A construção da escola, conta a professora aposentada, foi um pedido dos moradores, com autorização do Governo do Estado. "Meu pai recebia certa quantia pelo aluguel do terreno; no começo, as professoras vinham de Florianópolis e se hospedavam na nossa casa", revela Sueli. A pequena escola funcionou até 1964. Dois anos antes, Sueli se casou com Pedo Schmitt, de família tradicional do bairro Macuco. "Depois de casada, eu ainda fiquei seis meses lecionando na escola", diz a professora aposentada.

Já morando em terras da família Schmitt, Sueli voltou a dar aulas. Em frente à sua residência havia a escola Augusto Schramm (desativada em 2016). Ela passou então a ser professora do município de Gaspar, inclusive dando aulas para seus filhos. A pequena escola tinha outra professora, Maria Lúcia (já falecida), irmã mais velha de Sueli. Assim, durante quase 25 anos, as duas irmãs se revezaram na educação de milhares de crianças. "Minha irmã dava aulas pela manhã, para a 3ª e 4ª série, eu à tarde, para a 1ª e 2ª série", explica Sueli, que também lecionou como substituta na Escola do Óleo Grande, onde a titular era a professora Valéria Cadore.


"O prefeito de Ilhota foi até a nossa casa e perguntou se meu pai não tinha uma filha que podia dar aulas na escola,"
Sueli Bendini Schmitt


Ela admite que a profissão que não queria exercer, acabou se tornando uma paixão. "Eu passei a gostar de alfabetizar as crianças", justifica. Sueli conta que, a maioria dos alunos era filho de agricultores e, portanto, criados na roça. "Eles chegavam à escola sem saber pegar no lápis", revela. Sueli lembra que as crianças faltavam bastante às aulas porque precisavam ajudar o pai a puxar o boi na arrozeira ou substituir a mãe no cuidado com os irmãos menores. "Eles mal aprendiam a ler e escrever e já paravam de frequentar a escola porque tinham que trabalhar na lavoura".

A escola Augusto Schramm não tinha diretora, por isso as duas irmãs não eram apenas professoras. Elas executavam multi tarefas como cuidar da horta e preparar a merenda escolar. Sueli ainda hoje encontra muitos ex-alunos e as recordações são inevitáveis.

A exemplo dos pais, ela também se tornou bastante religiosa. Foi catequista na Capela Santo Agostinho, no Macuco, e seu marido, conhecido popularmente por Pedro Macuco, é o diácono da comunidade. O casal ajudou a erguer a capela em terras doadas pelo pai de Pedro. "Sempre fomos bastante envolvidos na comunidade do Macuco, tanto na escola quanto na igreja", afirma Pedro. Ele era dono de um caminhão que fez muito sucesso entre os moradores do Macuco porque realizava fretes. "Perdi a conta das mudanças que fiz aqui no bairro", diz Pedro.

Sobre os ensinamentos dos pais, Sueli afirma que vem da religião. "Lembro de toda a noite, após o jantar, meu pai colocar todos os 15 filhos sentados contra a parede para rezar. Este tipo de exemplo, nós também passamos para os nossos filhos, que hoje são muito ligados à igreja", finaliza Sueli. 


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