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COLUNA
PE. FERNANDO STEFFENS E PE. RAUL kESTRING

Primavera para além das flores


Olhai como crescem os lírios do campo... (Mt 6,28)

O tempo e suas estações, a vida e seus ciclos, a natureza e sua dinâmica. Para muito além de opacos tons de cinza, há muita beleza, muito colorido, uma vivacidade constante à nossa volta, desde que o olhar não seja superficial, mas alcance a poesia dos fatos.

Dia desses tive a feliz oportunidade de revisitar alguns amigos. Enquanto passeava por aquelas ruas, dei-me conta de que os lugares por onde já passamos um dia, nos quais já fincamos nossos pés por mais tempo, os pampas que habitamos outrora, contêm um pouco de terra prometida - fazendo uma analogia bíblica. Há mais que lembranças, há mais que saudades. Há mais... Duas coisas, no entanto, são necessárias para que tudo seja contemplado dessa forma: a intensidade dos momentos ali vividos, quer tenham sido leves, quer exigentes, e o olhar retrospectivo carregado de poesia, verdadeiro memorial litúrgico, que torna novamente tudo tão vivo, tão real, tão divino.

Cora Coralina, em Minha cidade, transforma em poesia as ruas, os muros, as árvores e tudo mais o que há e diz ser ela mesma tudo isso: Eu sou estas casas encostadas cochichando umas com as outras. Parece-me que ela olhou os lírios do seu campo e encontrou mais do que esperava. O convite que o Senhor faz no Evangelho revela mais do que possamos imaginar, mira mais longe, alberga possibilidades que o dinheiro não compra, traz à vista uma sempre primavera que temos aqui dentro, por vezes esquecida, abandonada, descuidada.

Se, em certos momentos, a vida se torna pesada, a rotina cansativa, os momentos parecem não ter mais brilho, o sentido de tudo se esvai, será que não é por termos esquecido de olhar os lírios do campo? Deus nos fez com a incrível capacidade de cultivarmos memórias e recordações, como um movimento poético da alma, para que tudo de que precisarmos esteja ao nosso alcance, esteja dentro de nós mesmos. Pois é como diz o poeta: Em certos dias, nem sabemos porquê sentimo-nos estranhamente perto daquelas coisas que buscamos muito e continuam, no entanto, perdidas dentro da nossa casa (Tolentino Mendonça).