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COLUNA
PE. FERNANDO STEFFENS E PE. RAUL kESTRING

Dona Lola (Maria Rosa Zimmermann)

Pe. Fernando Steffens

Quando a máxima atenção te deixa distraído,

o sequestrador te pega

e diferente daqui

conhecerás o lugar

onde quem desperta repousa.

(Adélia Prado)

Talvez se explique o fato de deixarmos para depois da partida os elogios a alguém, pelas seguintes razões: consolação à tristeza, homenagem e gratidão, necessidade humana de fazê-lo, desejo de que algo permaneça, uma coragem antes barrada por qualquer coisa que nem sabemos ao certo, uma espécie de desabafo ou alívio ou catarse... e outras mais. Realmente, parece que a morte traz à tona a força de algumas verdades que antes, devido ao ordinário da vida e seus rotineiros costumes, passavam despercebidas. E dá a impressão de que agora é tarde demais, porém, não é.

E não o é pelo simples fato de não ser a quem se foi que falamos, é a nós mesmos, é à presença de um amor que fica - "O amor é mais forte que a morte", diz o Cântico dos Cânticos -, é para que a vida continue, aqui e lá, é porque algumas verdades encontram nessa hora o momento de sua revelação. E neste instante de confissão e lágrimas, a distância, a ausência, o vazio, de alguma forma, desaparecem, pois só há lugar para a vida.

Hoje meu coração fala de uma das tantas Marias que Deus fez vir ao mundo, mas única enquanto Dona Lola. De jeito simples, de olhar miúdo, de sorriso típico de quem leva a vida a sério, dona de uma discrição solene e, igualmente, dona de si, Dona Lola sempre teve o dom de deixar saudades na alma de quem a conheceu. Ao menos é o que experimento. Morei três anos em Gaspar e, depois de lá, meu coração criou nela - e nos seus - uma raiz que se alimenta de saudades e recordações. Lembro que no dia em que seu Osnir, o esposo, faleceu, após os funerais, realizado debaixo de céu chuvoso, ofereci minha mão para que nela Dona Lola se apoiasse e caminhasse, a passos lentos e difíceis, até o carro. Foi aquele abraço demorado e forte, oferecido por amor, no qual lágrimas e chuva se misturavam, que depois ela confessou ter sido tão importante, tão consolador, tão amigo, tão sacerdotal, abraço que minha lembrança carrega consigo até hoje.

Quando se chega ao fim, inexplicavelmente a vida se reveste de tanta brevidade, que é como se tudo tivesse acontecido ontem. Mas foram setenta e cinco anos de uma história única e sagrada, bela e verdadeira, santa e pecadora, mais florida do que árida, e que permanece nas saudades, na memória, nas digitais deixadas em tudo o que tocou. Também quero que fique nestas palavras, porque eu sei que nunca é tarde.

Pe. Fernando Steffens