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NO ALTO DO PÓDIO

Negakeniana é tri na Cassino Ultra Race

Corredora de Gaspar ainda bateu o seu próprio recorde, com 38h50min de prova

Alexandre Melo


Cleusa Negakeniana Varella comemora a terceira conquista na Cassino Ultra Race / FOTOS DIVULGAÇÃO

A atleta de Gaspar, Cleusa Varella, a Negakeniana, é tricampeã da Cassino Ultra Race. Por volta das 9 horas da manhã de sábado (25), ela cruzou a linha de chegada depois de 38 horas e 50 minutos - novo recorde - da prova feminina. Cleusa é a primeira mulher a vencer três vezes consecutivas o ultra desafio do Cassino, uma das mais difíceis provas de resistência do mundo. E foi uma vitória para ficar na história, pois ela cruzou a linha de chegada ao lado do primeiro colocado do masculino, o atleta Jorge Cerqueira. "Nos encontramos num momento difícil da prova e decidimos seguir juntos até o final, um 'puxando' o outro", conta Cleusa.

A ultramaratona Cassino Ultra Race foi disputada entre as cidades do Chuí, no Extremo Sul do Brasil, divisa com o Uruguai, e Rio Grande, totalizando 230 quilômetros. Todo o trajeto foi na Praia do Cassino, considerada a maior do mundo em faixa de areia. De volta a Gaspar, na noite de domingo (26), Cleusa conversou com a reportagem do Jornal Metas. Ela classificou a prova como "sinistra". "Quando você vai para uma prova dessas, espera que vai acontecer de tudo e, de fato, acontece e você precisa estar preparado", observou a atleta. A largada, por volta das 15 horas de sexta-feira (24), foi com muita chuva e frio, mas quando veio a noite o tempo firmou e a lua até apareceu, porém, a sensação térmica continuou na casa dos três graus negativos e ventos que chegaram a 80km/h durante toda a prova. Cleusa usou a estratégia de caminhar mais do que correr no primeiro dia, poupando energias para a reta final da prova. E, mais uma vez, a estratégia deu certo.

A Negakeniana foi, de base em base, encurtando o tempo. Na primeira "perna" da prova, por exemplo, ela conseguiu fazer 54km em seis horas, quando o limite eram 12 horas. O dia amanheceu com sol e a temperatura um pouco mais elevada. "Um dia perfeito para os atletas, eu me hidratei, me alimentei e corri bastante", conta Cleusa. Novamente, a corredora de Gaspar reduziu pela metade o tempo limite até a terceira base. "Eu uso da estratégia, quem está atrás de mim não vai me alcançar, e quem está na frente eu vou buscar. É dessa forma que eu me concentro no objetivo maior que é completar a prova", explica a atleta.


Com o apoio do corredor Jorge: "um puxando o outro"

Arroios

As dificuldades começaram a aparecer no segundo dia, quando Cleusa simplesmente "mergulhou" num dos muitos arroios (pequenas correntes de água que saem do oceano para a praia e abrem fendas na terra) existentes ao longo do percurso. "Eu não sabia nem a profundidade que eu havia caído, porque estava tudo escuro, era madrugada, as ondas começarem a bater no meu corpo, como eu não sei nadar, tive muito medo de morrer afogada", recorda a corredora. Daí para frente, faltando poucos menos de 100km para a chegada, Cleusa admite que passou a sentir muito medo, pois haviam muitos arroios pela frente. Sozinha, no meio "do nada", a Negakeniana se apegou nas orações. "Acho que tanto pedir a Deus que me protegesse, Ele me protegeu". Completamente encharcada e enfrentando frio abaixo de zero, Cleusa seguiu no seu objetivo. Mais adiante, ela encontrou dois corredores masculinos: Hector Rivero e Jorge Cerqueira. "O Hector estava com princípio de hipotermina, prestamos os primeiros socorros e fomos atrás de ajuda, mas nós também precisávamos voltar para a prova porque logo atrás vinham outros atletas", relata Cleusa.

Não demorou e o carro da organização da prova chegou para prestar atendimento ao corredor. "Eu continuava com medo, foi então que eu e o Jorge decidimos seguir juntos até a linha de chegada, um puxando o outro", diz Cleusa, ainda emocionada com o momento delicado vivido na prova. E foi assim, com muita tensão, que os dois viram o dia amanhecer e entraram na reta final da Ultra Race. Por volta das 9 horas da manhã, Cleusa e Jorge cruzaram a linha de chegada. " Foram situações difíceis e o primeiro objetivo havia sido cumprido, que era completar a prova. O pódio foi consequência de todo o esforço e dedicação aos muitos dias de treinos. Cleusa admite que as 38h50min a surpreendeu, já que na edição de 2019 ela completou a prova em 43 horas. "A cada prova é um aprendizado, a meta era abaixar o tempo, fiquei muito feliz que eu consegui", observa. A atleta lembrou das dificuldades enfrentadas para disputar a Cassino Ultra Race e o apoio e carinho que recebeu de muitas pessoas. "Quando eu ergo a bandeira de Gaspar no pódio, faço  mas por cada cidadão de Gaspar que represento", emociona-se novamente. "Eu posso dizer que fiz o meu melhor, pois eu amo correr e vou continuar correndo independente de apoio", desabafou a corredora.


A chegada com escolta policial



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