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MEMÓRIA

Há 13 anos, o Vale do Itajaí enfrentava a sua pior tragédia climática

Oficialmente 135 pessoas morreram e mais de 1,5 milhão foi impactada

Texto Alexandre Melo / FOTOS Ivan Luchtemberg e Marco Gamborgi


O local da primeira explosão do gasoduto: BR-470

Não tem como esquecer, na verdade, não se deve esquecer. Há 13 anos, o Vale do Itajaí enfrentava um de seus piores momentos: a tragédia climática de 22 e 23 de novembro de 2008. Em Gaspar, oficialmente 19 pessoas morreram e uma segue desaparecida; outras 300 sofreram algum tipo de ferimento. Na Praça Getúlio Vargas, um Memorial, com o nome das vítimas, incluindo aquela cujo corpo nunca foi encontrado, estão gravados numa pedra para que jamais esqueçamos do drama que a população do Médio Vale do Itajaí e Foz do Itajaí-Açu vivenciaram naquele fatídico final de semana. Nunca choveu tanto num período tão curto, e como descreveu, na época, o governador Luiz Henrique da Silveira (in memoriam), "os morros derretem iguais sorvete".

Mesmo depois de mais de uma década, as marcas da tragédia continuam presentes. Seja na memória de quem a vivenciou ou nas paisagens e cenários alterados pela natureza. Não tem como não lembrarmos daqueles momentos de desespero. E aqueles que perderam amigos e familiares, nesta época do ano se unem a eles em orações em alguma outra dimensão.


A escola Angélica Costa, no Sertão Verde, foi completamente destruída

O começo

A tragédia climática iniciou na madrugada do dia 22 de novembro, um sábado, quando o cenário tomou contornos que ninguém poderia imaginar ou prever. O Vale do Itajaí, acostumado a enfrentar cheias e enxurradas, estava diante de uma situação atípica. Os morros cederam e as avalanches de terra foram levando tudo o que encontravam pela frente, soterrando, residências, empresas, indústrias, ruas, plantações e tirando mais de uma centena de vidas. As duas explosões do gasoduto foram os momentos de maior tensão e de desespero, pois numa delas, a noite virou dia e o morro do Alto Baú cedeu. Aliás, a pequena Ilhota foi o epicentro da tragédia.

Treze anos depois, praticamente a vida voltou ao normal - se é que se pode afirmar, com absoluta certeza, de que ainda habitamos uma região segura. Mas, enfim, como se diz no popular, a vida segue... Porém, na medida que se avança pelas estradas do interior de Gaspar e Ilhota, boa parte delas ainda de terra, o filme recomeça.

Mesmo que a paisagem exuberante e verdejante tenha apagado as cicatrizes deixadas nos morros, os corações do povo do Vale do Itajaí ainda carregam o luto, as lembranças são inevitáveis e se acentuam a cada novembro. Quem viveu a tragédia sabe o quanto foi sofrido e desesperador. Perdeu-se aquilo que se construiu uma vida inteira somado ao sofrimento maior da morte de pessoas queridas e amadas.

Numa região com histórico de enchentes e enxurradas, este poderia ter sido mais um evento climático como tantos outros que já se enfrentou ao longo do nosso quase bicentenário povoamento. Mas, definitivamente não foi. A maior tragédia climática de Santa Catarina deixou transparecer a fragilidade das nossas defesas diante da mãe natureza. Foi preciso repensar tudo o que não havia sido feito - e era muita coisa. Hoje, com certeza, estamos bem melhor preparados para enfrentar uma calamidade pública de tamanha envergadura como a de 2008, principalmente do ponto de vista da prevenção com a Defesa Civil do Estado e dos municípios equipadas tecnologicamente com sistemas de alerta e profissionais altamente treinados. Aliás, já passamos por outros eventos climáticos e o tempo de resposta foi satisfatório. A imprevisibilidade não parece ser mais o maior inimigo.

O grande inimigo continua sendo nós mesmos. A tragédia de 2008 foi fruto dos nossos erros, com a exploração equivocada dos recursos naturais, e parece que não aprendemos a lição. Tecnicamente já está comprovado que mais de 80% dos deslizamentos de terra foram consequências da ação do homem, por meio do desmatamento e ocupação de áreas que deveriam ser de preservação permanente. Infelizmente, essa lição não foi aprendida nestes 13 anos. É preciso fazer mais, caso contrário em uma década não haverá condições seguras de vida em algumas regiões hoje habitadas do Vale do Itajaí e Litoral Norte. O efeito estufa continua agindo sobre o planeta, as mudanças climáticas são inevitáveis e traz, como consequências, mais eventos como o de 2008.

O alerta já foi feito por especialistas, que não veem outra saída senão a educação ambiental e leis mais protetivas, para que os impactos da devastação sejam minimizados e natureza possa recuperar o muito que dela tiraram. As crianças de hoje devem ser os adultos conscientes de amanhã. Por isso, educar e reeducar são fundamentais. É urgente que se faça isso, pois a natureza não avisa e quando se manifesta cobra de maneira cruel. Que este seja mais um novembro de homenagens, mas também de reflexão sobre o futuro, pois é para lá que nossos filhos, netos e bisnetos caminharão.


Casa soterrada em Gaspar
Os fatores climáticos

A tragédia de novembro de 2008 foi a junção de uma série de fatores climáticos fora dos padrões até então comprovados por pesquisadores e institutos meteorológicos. Choveu acima da média para o mês de novembro. Aliás, outubro de 2008 já havia sido de muita chuva, assim como os meses anteriores. Em novembro, a situação só piorou: a Epagri/Ciram tem o registro de 21 dias de chuva. Os totais mensais superaram os 600mm, chegando próximo a 1000mm em Blumenau, Gaspar e Luiz Alves, quando a média normal de chuva, de acordo com o histórico da Epagri/Ciram, é de 150mm. Ou seja, choveu em novembro de 2008, entre 350 e 400% acima do normal. A imprevisibilidade dos volumes de chuva em apenas quatro dias foi  decisivo para as perdas.

De acordo com a Epagri, entre 21 e 24 de novembro a chuva atingiu entre 500mm e 600mm em Blumenau, Gaspar e Luiz Alves, firmando-se como o de maior volume histórico no Estado. Em Blumenau, os 1.002mm anotados naquele mês superaram de longe os recordes de mais de 500mm registrados em julho de 1983 e janeiro de 1989. Em Joinville, o recorde de precipitação anterior era de 831,9 mm, registrado em fevereiro de 1995 e superado pelos 968,8mm de novembro de 2008. Não houve, na verdade, uma enchente, embora o rio Itajaí-Açu tenha passado de 11 metros, mas de fato uma enorme enxurrada que pegou a todos de surpresa.

Os prejuízos materiais foram enormes, tanto nas residências quanto nas indústrias, comércios e lavouras. As famílias levaram muito tempo para se recuperar, algumas até hoje lutam com dificuldade. A incapacidade de prever uma tragédia se refletiu no elevado número de vítimas. Em Gaspar, foram 19 vidas perdidas e uma pessoa ainda segue desaparecida. O município teve ainda 300 feridos, mais de 7 mil pessoas desalojados e 4,3 mil desabrigadas. O número de residências afetadas pela catástrofe passou de 6 mil, sendo que 758 foram completamente destruídas.


Equipe de resgate retira corpo no Morro do Baú, em Ilhota
Ilhota

Oficialmente, 135 pessoas perderam a vida em 2008. Em Ilhota, epicentro da tragédia, o número de mortos chegou a 31 e uma pessoa segue desparecida. Todos os mortos viviam na pacata região dos Baús, na margem esquerda do Itajaí-Açu, que se transformou, do dia para noite, em uma terra arrasada. Em Blumenau, 24 pessoas morreram.

Em todo o Estado, mais de 78 mil pessoas ficaram desalojadas ou desabrigadas. Foram cerca de 60 municípios afetados e mais de 1,5 milhão impactados diretamente, principalmente no Litoral Norte, Vale do Itajaí e Grande Florianópolis.

Imagens



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