| ASSINE | ANUNCIE
| | | |
CAUSA ANIMAL

Agapa ameaça encerrar suas atividades

Em comunicado nas redes sociais, entidade gasparense cobra mais engajamento do Poder Público

Alexandre Melo


A defesa de animais que sofreram maus-tratos ou foram abandonados sensibiliza a sociedade, mas não o suficiente para que a Associação Gasparense de Amparo e Proteção aos Animais (Agapa) mantenha o trabalho. De acordo com o atual presidente da entidade, Rafael Araújo de Freitas, se não houver uma união maior de esforços a Agapa deverá ser desativada no final deste ano. "Essa é a decisão mais difícil que já tivemos que tomar", escreveu a diretoria em comunicado publicado nas redes sociais na última sexta-feira (1º). A decisão ocorreu em reunião no dia 27 de setembro. Por ora, a Agapa vai atender somente casos de emergência. A medida segue válida pelos próximos 90 dias, ou seja, até o final do ano. Após este período, existe grande possibilidade de paralisação total do serviço da Ong. Entre os motivos, a Agapa alega falta de protagonismo do poder público na defesa da causa animal. "Perante a lei, é (poder público) que tem a obrigação de fornecer suporte para a causa, porém, muito pouco (ou quase nada) é feito". Outro alvo da associação é a Câmara de Vereadores que, de acordo com a entidade, não adota uma postura rígida para ajudar a cobrar o poder público das suas obrigações. A diretoria lembra, ainda, que o Poder Judiciário, Ministério Público e a Polícia Civil acionam a entidade constantemente para casos de denúncia de maus-tratos, porém, observa que a Agapa é uma organização não-governamental (Ong), ou seja, é formada apenas por voluntários e não um órgão público que tem servidores à disposição sempre que necessário. "Nossos voluntários, além de sobrecarregados com tantas demandas, são constantemente ameaçados e constrangidos, principalmente nas redes sociais", acentua a diretoria.

Para Rafael, este tipo de atitude parte de pessoas que são alvo de casos de denúncia ou que não tem a mínima ideia sobre o funcionamento de uma Ong. Ele esclarece que as doações recebidas são destinadas exclusivamente ao atendimento dos animais, despesas como combustível para deslocamento de atendimento saem do bolso dos voluntários que tem emprego, família e problemas como qualquer pessoa. "E são esses mesmos voluntários que são ridicularizados e atacados por pessoas que só sabem criticar ao invés de arregaçar as mangas e colaborar".

Os próximos 90 dias, diz Rafael, serão um teste de fogo para a Agapa. "Esta situação é muito triste, mas se faz necessária, pois as demandas estão cada vez mais altas, as despesas aumentam mês a mês e as arrecadações não são suficientes para manter o trabalho, se não houver o aporte do poder público e aumento nas doações da iniciativa privada fica praticamente inviável continuarmos", assegura. Rafael garantiu a realização de mais uma "Feirinha de Adoções", prevista para este mês, porém, alerta que poderá ser última da Agapa.

O presidente admite que a pandemia agravou a situação, porque muitas pessoas acabaram perdendo o emprego, o que reduziu o volume de doações, além da impossibilidade da realização de eventos beneficentes, como a Macarronada e Pedágio da Agapa. "Isto acabou atrapalhando a arrecadação, porém, continuamos trabalhando durante a pandemia com o saldo positivo de caixa, mas este saldo está próximo de zerar", explicou Rafael. Segundo ele, se alguém liga para a Prefeitura para fazer uma denúncia de maus-tratos de animais eles mandam ligar para a Agapa. "Assim fica muito complicado, não dá mais para admitir esta situação", acrescenta. Rafael antecipou que a Agapa vai encaminhar ofício à Prefeitura, Câmara de Vereadores, Ministério Público, Polícia Militar e Polícia Civil a fim de informar da decisão e cobrar uma postura diferente dos órgãos. "Se a Agapa fechar, a situação dos animais abandonados em Gaspar vai virar um caos, pois a prefeitura não tem hoje um departamento específico para cuidar dos animais". Ele também lembrou que os três abrigos da cidade, que somam cerca de 500 cães, estão passando necessidade. "A Prefeitura dá ração para dez dias e os outros 20 eles precisam correr atrás de doação. Isto é uma vergonha", dispara o presidente. Por fim, a Agapa apela à comunidade e aos órgãos públicos para que façam doações à causa animal. "O nosso trabalho é por amor aos bichinhos, mas sem dinheiro isto não é possível... junte-se a nós para cobrar mais atitudes do poder público", conclama Rafael.

O que diz a Prefeitura

Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Gaspar respondeu, por intermédio de email, ter recebido com estranheza a notícia de que a Agapa poderá encerrar as atividades. "A defesa e proteção animal é uma causa justa e séria, que demanda tempo, recursos e cuidado, por isso, a Prefeitura tem estudado formas de agir com ainda mais afinco também nessa área", diz a nota. A Prefeitura esclarece que existe uma parceria com a Agapa há cerca de 4 anos e que rigorosas normas de cooperação público privada (Lei Federal 13.019) são seguidas desde 2018. "A administração municipal auxilia com aproximadamente 15 toneladas de ração ao ano para a Ong e abrigos da cidade, um investimento aproximado de R$ 60 mil todos os anos".

A Prefeitura cita, também, que neste período já foram realizadas cerca de 600 castrações solidárias, que auxiliam no controle populacional de animais de rua e a pessoas de baixa renda que não têm condições de castrar seus pets. Destaca ainda que, recentemente Prefeitura e Câmara de Vereadores fizeram a doação de um veículo para Agapa, que também foi agraciada com uma sala, estrutura e um estagiário para atendimento da associação. A Prefeitura finaliza a nota lamentando a notícia do possível encerramento das atividades, e reforça que todos os esforços vêm sendo empreendidos e todos os compromissos assumidos por parte da administração estão sendo cumpridos. "O Governo Municipal reconhece o importante serviço prestado pela Agapa e segue trabalhando na implantação de políticas públicas ainda mais abrangentes e eficientes para o bem-estar animal".

O que diz a Câmara Municipal

Citada também no comunicado da Agapa, o presidente do Poder Legislativo, vereador Francisco Solano Anhaia (MDB), também recebeu com surpresa as críticas, pois, segundo ele, em nenhum momento a diretoria da Agapa o procurou para uma conversa em busca de apoio para a causa animal, que ele considera muito importante para a cidade. "Estou quase no fim do meu mandato à frente da Mesa Diretora e jamais recebi qualquer pedido de ajuda". No entanto, Anhaia esclareceu que já fez vários pronunciamentos na tribuna pedindo um melhor atendimento aos animais abandonados na cidade. Disse que a Câmara fez a doação de um automóvel à Agapa e, recentemente, por iniciativa do vereador Giovano Borges (PSD), realizou uma audiência pública para discutir o assunto. Anhaia colocou a Câmara Municipal à disposição da associação para se tentar buscar uma solução para que a entidade continue ativa. Questionado se as "sobras financeiras" do orçamento do Legislativo Municipal, que todo ano ocorre, poderiam ser destinadas para a Agapa, o presidente acredita ser bastante difícil, pois trata-se de uma Ong. "Eu não conheço a fundo a legislação, mas o processo é muito complexo, exige vários documentos. Além disso, o dinheiro das despesas do legislativo, quando sobra no final do ano, é devolvido para o Executivo.



LEIA TAMBÉM