Hildegard vive com seus três gatos e duas vacas
Os gatos Mano, Bia e Borboletinha passeiam tranquilamente pela propriedade localizada próximo a uma das mais movimentadas e perigosas rodovias da região: a BR-470, no bairro Margem Esquerda. Ariscos, escondem-se sob o assoalho da modesta casa de madeira diante da chegada de visitas.
Os bichanos são companheiros inseperáveis de Hildegard Muller, 75 anos, assim como as vacas Fany e Beca que ajudam a reforçar o orçamento doméstico, com uma produção diária de 10 litros de leite. Outro simpático morador é a galinha Cantalice que quando não está botando ovo gosta de ciscar próximo da porta de casa. Assim, entre gatos, galinhas, vacas e outros animais domésticos vive Hildegard há mais de 20 anos na propriedade vizinha à capela São Sebastião. “Não troco este pedaço terra por nada deste mundo”, garante. Ela só fica triste quando recorda de Teodoro, que faleceu no início deste ano aos 92 anos de idade.
Teodoro era seu irmão, mas não de sangue, porque Hildergard foi adotada pelo casal Alfredo e Gertrudes Muller antes de completar dez anos de idade. Ela nunca casou, e não sabe explicar o porquê dessa decisão. Aliás, todos os seus seis irmãos adotivos eram solteiros. A opção de Hildegard foi trabalhar na agricultura, pois certamente não conseguiria conciliar a lida na roça com a de esposa e mãe. “Tenho muito amor à terra”, admite.
Ainda hoje, ela dá conta sozinha de todas as atividades na propriedade, inclusive a de capinar que ela admite gostar muito. Hildegard também tira leite das vacas duas vezes por dia, corta e carrega os feixes de cana, cuida da horta e limpa o curral. Para dar conta do serviço, acorda às 4h30 da manhã e só para no cair da tarde.
Ela frequentou pouco a escola - só até a 3ª série do primário - mas o suficiente para aprender a ler e escrever. Os livros passaram então a ser a sua segunda paixão. “Eu e o Teodoro liamos muito”. Os primeiros livros eram em alemão, língua que Hildegard aprendeu aos 9 anos de idade ouvindo os pais e irmãos conversarem em casa. Porém, veio a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e o governo brasileiro proibiu que se falasse o idioma alemão. Para Hildegard, que já sabia se comunicar no idioma português, não foi difícil, porém para outros descendentes de imigrantes as dificuldades foram enormes. “Lembro de uma senhora que por não saber falar o português, rezava nas missas com um lenço na boca”, conta a falante senhora.
Enchente
Antes de se mudar para o atual endereço, Hildegard morou próximo à margem do Itajaí-Açu. Foi lá que uma de suas irmãs adotivas, Cecília, doou um pedaço de terra para a construção da primeira capela, no início da década de 1980. A obra nem chegou a ser concluída. Depois das duas grandes enchentes (1983 e 1984), seguida da dragagem do rio, o terreno da família e de outros vizinhos acabaram engolidos pelo rio. As família foram indenizadas e se mudaram para o outro lado da rodovia. O fato não foi impedimento para que a igreja inacabada fosse construída em terreno desta vez doado pelo seu irmão Vandelino do outro lado da rodovia, em um local mais seguro.
Isto mostra a grande identificação da família Muller com a religião. Hildegard foi catequista. “Quando ainda não havia a capela São Sebastião, a família seguia a pé até a Igreja Matriz para assistir à missa dominical. Ainda hoje, ela é presença certa nas celebrações da atual capela. “Peço a Deus para me dar forças para continuar a fazer o que mais gosto, trabalhar na agricultura”. Hildegard não se queixa da vida, mas acha que no passado era melhor. “Antigamente a vida era mais bonita, as pessoas se visitavam mais”, observa.
Muitos dos livros que Hildegard guarda em casa são verdadeiras relíquias, com valor histórico inestimável. Porém, o sentimental pesa mais, por isso ela os guarda com carinho na estante de casa. De lá, ela só retira para mostrar às visitas. Uma destas preciosidades tem 146 anos e foi escrito em alemão. Trata-se de um livro religioso com várias orações, que traduzido para o português significa. “Tende misericórdia de nós”. O livro ela ganhou de presente da irmã Miriam Köening, uma grande amiga que trouxe o exemplar da Suiça. Outro livro religioso raro em poder de Hildegard foi editado em 1911.
Deixe seu comentário