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(Fotos: Jornal Metas)
Guarim e Erico são dois personagens da história de Gaspar
Há algumas gerações, os hábitos das pessoas eram outros. Não havia as facilidades de hoje. Profissões que hoje estão quase em extinção, eram muito valorizadas. Como Gaspar era uma cidade pequena, esses profissionais ganharam notabilidade pela qualidade dos seus serviços. O sapateiro Érico Foppa e o barbeiro Guarim Liberato Martins são bons exemplos de profissionais que adquiriram respeito pelo trabalho que realizam. Eles se tornaram personagens da história do Centro da cidade de Gaspar. Hoje, aos 80 anos, Érico já não trabalha tanto, ensinou ao filho o ofício e ainda deixou para ele a sapataria, no início da Rua Itajaí (próxima a Celesc) e a clientela.
Já Guarim, o barbeiro, continua na ativa. Ele fez a vida cortando cabelo e barba. Também transmitiu a tradição para a família. Há 30 anos em Gaspar, Guarim e os filhos possuem hoje cinco salões espalhados em diferentes bairros da cidade. Mas tudo começou em um pequeno salão no centro da cidade, em frente à prefeitura, que comprou do conhecido Osvaldo Barbeiro. Depois de tempo, já com uma boa clientela, ele mudou-se para a sala atual, em frente à Sociedade Alvorada, onde permanece há quinze anos.
Guarim, 65 anos, aprendeu a profissão em um curso que fez em São Paulo, quando tinha 21 anos. “Sempre quis ter uma profissão, escolhi essa a partir de um anúncio de jornal”, conta. Quando começou a trabalhar em Gaspar, havia apenas três barbearias na cidade. Segundo Guarim, naquele tempo os homens preferiam fazer a barba no salão, frequentavam o barbeiro mais do que hoje.
Além disso, todo o pessoal dos bairros vinha para a cidade, pois não havia salões nos bairros, muito diferente de hoje. “Houve um tempo em que eu conhecia todos os moradores do Gasparinho, casa por casa, porque eram todos meus clientes. Hoje já não sei mais”, revela o barbeiro.
O salão de seu Guarim era também ponto de encontro para os homens da cidade conversar sobre vários assuntos, porém quase sempre a política terminava sendo o prato principal.
Dom
Para seu Guarim, cortar cabelo é um dom. Ele conta que já chegou a cortar o cabelo de cinqüenta clientes em um único dia. Mas, normalmente ele atende de 15 a 20 pessoas por dia. O tempo de um corte depende do que o cliente pede. “Tem cliente que tem mais cabelo e quer um corte mais cuidadoso, aí demora mais. Quando é só passar a máquina vai mais rápido”, explica o barbeiro. Uma barba leva de 10 a 15 minutos. Já cabelo é preciso de um pouco mais de tempo: de 20 a 30 minutos.
Seu Guarim ensinou a profissão para vários dos seus nove filhos e hoje um deles, Davi, trabalha no salão da Aristiliano Ramos. Outros três já abriram seus próprios salões. “Chegava a tirar um salário mínimo em um dia de trabalho no salão. Foi assim que criei todos os filhos e acho que isso foi um fator que os estimulou a seguir minha profissão”, comenta o barbeiro.
Mesmo aposentado, Guarim não deixou de lado o salão. Continua no batente. “Trabalho porque gosto. Não consigo me imaginar parado. Assim revejo os amigos e o tempo passa mais rápido”, revela. O Salão Guarim Liberato Cabelo e Barba funciona de segunda a sábado, em horário comercial. Ele atende sem hora marcada. “É só chegar e pegar a senha”, diz o barbeiro.
Seu Guarim viu muito garoto gasparense crescer e muito homem envelhecer na cadeira do seu salão. Um de seus clientes mais antigos é Celso Scheiter, o popular Cação. “Quando ele começou a cortar cabelo comigo ainda era um rapaz, hoje já está até com alguns fios de cabelo branco”, brinca o barbeiro. Outro cliente de longa data é Pedro Santos, que viu os filhos de Guarim crescerem no salão e hoje corta o cabelo com um deles. “Assim como eles, tem muitos outros clientes fiéis”, revela, com orgulho, seu Guarim.
Arte para os pés
Seu Erico veio de Brusque para cá em 1958. “Foi quando um senhor abriu uma sapataria em Gaspar e queria um bom sapateiro para trabalhar com ele. Então ele foi lá me buscar”, conta. Na época, seu Érico estava casado, tinha uma filha e a esposa, Gerci, estava grávida do segundo. Depois de certo tempo, ele acabou comprando a loja do patrão. A tal sapataria ficava no mesmo terreno de hoje, em frente à Celesc, na Rua Itajaí. Ali também Erico construiu sua residência.
Na época, só havia ele e outro sapateiro em Gaspar. A única loja que vendia sapatos prontos era a do comerciante Júlio Schramm. Segundo Erico, não era comum comprar sapatos prontos, e a moda também era outra. “Os homens usavam sapatos de salto argentino, andavam de terno, eram mais elegantes. Agora todo mundo anda de jeans e tênis”, compara. Hoje, aos 80 anos, ele é o sapateiro mais antigo em atividade em Gaspar, fazendo apenas sapatos para si e, às vezes, ajudando o filho Elias quando o serviço acumula.
Antigamente os sapatos eram só feitos com couro verdadeiro, e as pessoas não tinham muitos pares diferentes. “Fiz muito sapato em Gaspar, muito sapato de casamento, de todo tipo. Até tênis eu cheguei a fazer, quando surgiu”, recorda o sapateiro. Hoje, ele conta que muitos sapatos vendidos por couro são, na verdade, de plástico trabalhado como tal.
A sapataria foi o rumo que seu Erico escolheu por incentivo da mãe. Ele estudou somente o primário, “porque não tinha vocação para o estudo”, como prefere justificar. Como um irmão seu produzia saltos de madeira, a mãe o levou para aprender o ofício. Desde então, Erico nunca mais parou. Todos os sapatos que ele usa são feitos por suas próprias mãos. O filho, Elias, segue no mesmo passo. “Só não faço muito sapato para as mulheres da família porque senão, não dou conta”, brinca.
Para o sapateiro, sua profissão aos poucos vai deixar de existir, seguindo o mesmo caminho da alfaiataria. “Hoje quase não se encontra alfaiate e com os sapateiros é a mesma coisa, pois nunca vamos pode competir com as fábricas”, comenta. A vantagem, segundo ele, de ser sapateiro é que os trabalhadores de fábrica nunca saberão fazer um sapato do começo ao fim, como ele.
A vantagem dos tempos modernos é que os sapatos ficaram mais confortáveis. “Antigamente o couro era muito duro, hoje está mais macio”, compara. Mas, para ele, a arte de se fazer sapato ficou com os antigos. E muitos de seus clientes ainda pensam assim. Seu Érico tem clientes que há mais de 30 anos encomendam sapatos com ele. “Tenho um cliente de Joinville que nunca comprou sapato em loja, só usa sapatos feitos aqui”, conta.
Mesmo assim, depois de cinqüenta anos de trabalho, seu Erico e o filho precisaram colocar, pela primeira vez, uma placa anunciando que ali trabalha um sapateiro. “Antes todo mundo sabia onde tinha um sapateiro e vinha por conta própria”, diz. Hoje, o forte da sapataria de pai e filho é fazer sapatos sob medida para pessoas com deficiência, tamanhos grandes, de número 46 a 48, e também consertos.
Como se faz
Do salto à forração, todo o processo de fabricação do sapato passa pelas mãos de seu Erico. O couro é a única coisa que ele compra pronto. Até os moldes é ele quem faz. “Já fiz jaqueta, cinto, bolsa. Fazia muito sapato de mulher, mas hoje faço só de homem”, diz.
Como trabalham somente com couro, um sapato pode sair entre R$200 a R$300 reais. “Mas o couro verdadeiro dura para o resto da vida”, afirma. A fabricação é toda manual, por isso ele e o filho só produzem 2 a 3 pares cada um por dia.
Para fazer o sapato, primeiro ele identifica o molde que retrata o pé do cliente e o formato do sapato desejado.
Então, com os cortes do couro ele monta o sapato ao redor do molde, que depois vai para a banca receber o solado. “Para ficar mais duro, usamos um contraforte no calcanhar e na frente uma biqueira”, explica o sapateiro. Os saltos são feitos por ele também, de madeira.
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