Valtrudes reconstruiu a casa em um local mais seguro
Valtrudes reconstruiu a casa em um local mais seguro
O último registro fotográfico da casa de Valtrudes Deschamps dos Santos, 78 anos, foi feita pela equipe do Metas nos Bairros em abril de 2008. A reportagem, que contava a sua história de vida no Arraial abria com a frase “Ela nasceu e cresceu em meio à natureza”. Pois essa natureza exuberante que Valtrudes se vangloriava de viver tão perto na rua Pedro Paulo dos Santos, no Arraial, quase lhe tirou a vida. A casa que ela viveu por 54 anos foi invadida, em minutos, pelas águas que transbordaram do até então inofensivo ribeirão que passa em frente. Junto veio muita lama, paus e pedras. “O pior já passou”, diz Valtrudes.
A residência só não foi arrancada da terra porque o caminhão do filho estava estacionado em frente e serviu de barreira para os entulhos. “Enchente igual a esta nunca vi, o ribeirão virou um rio”, relembra. Ela e os dois filhos conseguiram escapar pelos fundos da casa, com água pela cintura, e se abrigaram na mata até serem resgatados pelos vizinhos. Passaram-se seis meses para que Valtrudes tivesse novamente a sua casa. Os filhos desmancharam a antiga residência e a reconstruíram em um local mais seguro. Neste período ela ficou morando na casa de um sobrinho do outro lado do ribeirão. O dinheiro para reconstruir a casa veio do abono recebido do governo, da sua aposentadoria e do salário dos filhos.
Valtrudes está novamente feliz. “Só a cozinha ficou menor”, compara. Ela lamenta que a bela figueira que havia próxima morreu. Outras árvores também sumiram. O lugar ainda preserva parte da exuberante paisagem, mas longe do que era antes de novembro de 2008.
Para aproveitar o presente que a natureza lhes deu, os filhos mantinham uma área de lazer de onde tiravam o sustento da família. O Parque Aquático Recanto Bem-Bem é o único de Gaspar a permanecer fechado um ano depois da tragédia, e pode nem reabrir mais, segundo Valtrudes. “Está tudo destruído no parque”, lamenta. O filho e gerente do parque, Honório dos Santos, arrumou um emprego de eletricista na cidade. Apesar do susto, Valtrudes nem pensa em ir embora da terra onde viveu por toda a vida. “A minha nora queria sair daqui, mas se a gente for para outro lugar também corre risco. Enchente acontece em todo lugar. A gente não pode fugir de Deus”, finaliza.
Agricultora desde sete anos de vida
Descendente de família alemã, Valtrudes é uma ex-agricultora. Abandonou a atividade por problemas de saúde. “Trabalhei na lavoura e no engenho desde os sete anos de idade”, conta. Os pais plantavam mandioca para fabricar farinha e cana-de-açúcar para transformar em cachaça e açúcar mascavo.
A produção garantia alimentação e roupas para toda a família. No Arraial, a única escola que existia ensinava somente até à 4ª série. Depois de concluir o primário, Valtrudes abandonou os estudos. A estrada era uma pequena passagem de chão para carroças e homens a cavalo.
Aos 23 anos, ela casou na igreja Matriz com Pedro Paulo dos Santos. Para chegar até lá era precisou atravessar o Itajaí-Açu em uma bateira. O caminho até a margem foi percorrido em uma carroça. O marido e seus irmãos instalaram uma serraria, impulsionada à roda d’água. “O ribeirão tinha muita água, mas com o tempo se tornou escassa”, conta Valtrudes.
De tão longe, as terras da família acabaram preservadas, assim como o velho galpão onde funcionou o engenho e a serraria da família. A enxurrada de novembro acabou levando embora um pouco desta história.
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