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Dincha é uma antiga moradora do Santa Terezinha
Em se tratando de preservar a história com precisão de dados, a historiadora gasparense Leda Maria Baptista tem a quem puxar, como diz o dito popular, “filho de peixe, peixinho é”. Sua mãe é memória viva de boa parte do desenvolvimento do bairro Santa Terezinha. Aos 83 anos, Claudia Pamplona, ou “dona Dintcha”, como é conhecida, lembra-se, com detalhes, de como era o bairro na sua infância.
Filha de Arthur Schneider, um dos primeiros habitantes da localidade, Claudia sempre morou no bairro. A casa que tem hoje, construída pelo marido quando casaram, fica em frente ao terreno da residência onde nasceu e viveu boa parte de seus dias. “Só saímos dali quando veio o cemitério. Então, meu pai decidiu ir para o sítio, porque não queria morar perto dali”, conta. O sítio a que se refere ficava nas redondezas de onde hoje é a Cohab.
Segundo dona Dintcha, a parte baixa da casa de seu pai continua de pé, fica na esquina das ruas Barão do Rio Branco e Rodolfo Vieira Pamplona. O prédio abriga uma panificadora. Antigamente, Arthur Schneider possuía ali uma venda para atender aos moradores da comunidade. “Não tinha muita gente. Para encontrar um vizinho, andávamos bastante. Sempre que meu pai precisava chamar alguém para pedir ajuda, mandava um dos nossos empregados levar o recado. Não era como hoje, que temos vizinhos”, compara.
Dona Claudia, que ganhou o apelido de Dintcha da mãe e ficou conhecida em toda a comunidade assim, casou aos 23 anos com José Pamplona. Com ele, teve apenas a conhecida historiadora de Gaspar, Leda Baptista. Ao lado de casa, os dois tinham uma oficina de máquinas agrícolas. “Eu ajudava meu marido, conhecia todas as peças. Era eu quem abria as máquinas e limpava, para ele fazer o conserto”, recorda Dincha.
Durante seis anos ela se ausentou da oficina para lecionar na Escola Aninha Pamplona Rosa. Na época, a escola era multiseriada, e Claudia lecionava para alunos do 1º, 2º, 3º, e 4º todos em uma mesma sala de aula. “Comecei dando aula para 60 alunos”, lembra ela. E quando o assunto é educação, dona Claudia conta que foi uma das primeiras alunas do Colégio Estadual Honório Miranda. Estudou até o curso complementar. “Íamos a pé até o centro da cidade”, relembra Dintcha, demonstrando o quão diferente era a vida naqueles tempos.
A Rua Barão do Rio Branco era conhecida antigamente como Rua das Cuias. Segundo dona Dintcha, seu pai foi o responsável pelo surgimento desse nome. “Naquele tempo, havia um catuteiro (espécie de planta) num terreno em frente de onde hoje fica a escola Zenaide Schmitt Costa. O pessoal colhia os catutos para secar e fazer cuia”, explica. Quando as pessoas de fora perguntavam para seu Arthur onde ficava o catuteiro, ele dizia: “lá na rua das cuias!”, conta a filha.
Seu pai também trabalhou muito abrindo estradas para a prefeitura. “Nas décadas de 1930, 1940, a prefeitura não tinha tantos funcionários. Então, eles pagavam alguns moradores para realizarem o trabalho nas estradas. O meu pai cuidava de um trecho da Rua Brusque”, revela.
Outra história muito viva na memória de Dincha foi o primeiro sepultamento no cemitério municipal, ao lado da casa da sua família. Até então, o cemitério ficava no morro da atual matriz e, após o primeiro enterro, foi transferido para o novo terreno, para dar espaço à construção da nova igreja.
“Eu devia ter uns 10 ou 13 anos. Lembro que estávamos com minha mãe no pasto, quando vimos um senhor fazendo um buraco no terreno do cemitério. Então ela perguntou o que era aquilo e ele explicou que, logo mais, haveria o enterro de um soldado”. O soldado, segundo ela, era filho de Heliodoro dos Santos, morador do Arraial. Ele servia no batalhão de Blumenau e faleceu após a extração de um dente. “De repente começou a vir a cavalaria, muitos soldados e carros do exército. E o caixão foi carregado pelos soldados de lá do morro até aqui”, relembra Dintcha.
Durante a cerimônia, ouviram-se muitos cantos, hinos e também tiros de despedida. “Logo em seguida já teve outro e não parou mais de vir gente ser enterrada ali”, finaliza Dincha.
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