Fonte de lucro

14 Dezembro 2015 17:45:42

O exemplo de como a qualidade da água pode virar um grande negócio

cascata carolina luiz_1.jpgHá quem afirme que a água da região do Belchior, em Gaspar, purifica o corpo e a mente. Proprietário desde 1959 de uma grande extensão de terras na Rua João Thais (a conhecida Estrada da Carolina), no Belchior Alto, AlbanoThais nem imaginava que vivia em cima de uma verdadeira mina de ouro. Até então, o líquido que jorrava em abundância na propriedade era usado apenas para irrigar a lavoura. “A gente cavava sete metros e já vinha água”, recorda seu Albano, que aos 82 anos não perde o bom hábito de cultivar hortaliças frescas no quintal de casa. Desde 1984, a família Thais é dona do Parque Aquático Cascata Carolina.

Tudo começou a mudar quando um dos filhos, Alcides Thais, na época estudante de Ciências Biológicas na Universidade Regional de Blumenau (Furb), levou amostras de água para análise em laboratório. Iniciou-se, então, um longo, rigoroso e oneroso processo de reconhecimento do parque como de água hidromineral junto ao Departamento Nacional de Produção Mineral, órgão do governo federal. O relatório contém estudos técnicos da composição química da água, tipo de solo, de rocha entre outras exigências. Em 2001, enfim veio o reconhecimento e o Cascata Carolina tornou-se o único parque aquático de Santa Catarina com piscinas de água mineral. Desde então, a família Thais detém todos os direitos de uso e exploração da água existente no subsolo das suas terras. A licença é renovada periodicamente. 

Aquarol explora potencial
Em 2002, empresários de Treze Tílias, no meio-oeste catarinense, também andaram pelo Belchior Alto bebendo da água do poço artesiano da família Thais. A ideia era instalar uma envasadora de água mineral na região. Antes, porém, amostras da água foram enviadas para um laboratório na Alemanha e o resultado surpreendeu: “A água não é boa, é excelente”, avaliaram os alemães. Os empresários adquiriram da família Thais uma área de 45 mil m² e, a partir de 2009, a  Água Mineral Aquarol passou a operar. 

IMG_5906.jpgRomeu Luis Rabuske, sócio administrador, conta que o processo de liberação, pelo DNPM, levou quase cinco anos. Paralelamente, a envasadora foi construída com a melhor tecnologia e equipamentos disponíveis no mercado. O poço, de 90 metros de profundidade, fica no meio da mata, distante 630 metros da envasadora, de onde são extraídos 9 mil litros de água por hora. A água é envasada e comercializada com a marca Acqua 10, em garrafas de 500ml, 1,5, 10 e 20 litros. Romeu explica que a qualidade da água está no tipo de rocha de onde ela é extraída. “No caso do Belchior, a rocha é própria para isso”. A Aquarol segue padrões rigorosos de controle de qualidade, embora a água extraída da rocha não contenha nenhum tipo de contaminação. “As três filtragens que fazemos antes do envase é para identificar a presença de algum ‘objeto estranho’ da natureza”, explica Rabuske. A empresa sofre permanente fiscalização do DNPM, que recolhe amostras que são analisadas pelo Lamin – Laboratório de Análises Minerais. A Aquarol também mantém seu próprio laboratório de onde são realizadas análises a cada lote. Segundo o administrador, a afirmação de que a água não tem cheiro, sabor e cor não é bem verdade. “Existem diferenças entre uma água e outra que são facilmente perceptíveis pelas informações contidas nos rótulos. O consumidor mais atento vai perceber que existem águas com mais acidez, outras com elevada alcalinidade”, explica. Ele afirma ainda que a água do Belchior é uma das melhores do estado, porém, lamenta que os manancias estejam sendo contaminados rapidamente. “Água sempre existirá na natureza, a grande incerteza é se teremos ela potável no futuro; hoje, água é uma riqueza para quem tem, mas será cada vez mais um bem valioso para a humanidade”, preconiza.

Destino correto para os resíduos
Dono de jornal no interior do Rio Grande do Sul, Sinélio Vargas trocou o mundo das notícias pelo do meio ambiente. Em Gaspar, no Belchior Baixo, ele instalou, em 2009, a Preserve Ambiental. A empresa atua em duas áreas. A primeira tem foco na coleta, transporte e tratamento de resíduos da indústria, comércio, condomínios e residências. Os resíduos sólidos viram adubo (compostagem orgânica) e o líquido é reaproveitado em diversas atividades, como jardinagem, lavação de ruas e concretagem. A Preserve também faz a manutenção de estação de tratamento de efluentes de terceiros e de sistemas hidráulicos industriais, comerciais e residenciais. A outra divisão atua no controle de pragas urbanas. 

Sinélio diz que o Brasil avançou muito nas últimas décadas na questão dos resíduos, saindo dos lixões para os aterros sanitários e criando leis mais rígidas. A indústria, entende ele, está se adequando à nova Política Nacional de Resíduos sólidos, embora existam empresários resistentes a aceitar o destino do resíduo no seu custo operacional. Para isso, observa o empresário, é preciso que haja uma quebra de paradigmas a partir da educação nas escolas. “Não apenas apanhados genéricos das questões ambientais, mas uma ampla discussão sobre o meio ambiente, pois é preciso primeiro discutir para depois recuperar”.

Sinélio vê ainda muita resistência da sociedade a empreendimentos como a Preserve, mesmo que seja um negócio que protege o meio ambiente. “O governo, por sua vez, deveria fazer concessões para este tipo de negócio”, acrescenta. Para o empresário, o país peca muito em não buscar alternativas para transformar os resíduos em energia, o que já é comum nos países do Primeiro Mundo. 

Sobre os resíduos líquidos, ele diz que a Política Nacional de Resíduos Sólidos não contempla essa área e faz um alerta: “Não podemos ficar dependendo da água para gerar energia, devemos buscar novas fontes de energia limpa, mas é preciso criar uma legislação específica para cada caso”. O empresário acredita muito mais na mobilização da sociedade do que nos governos para um uso mais racional da água. “Vejo que há preocupação de várias entidades com a Bacia do Itajaí e a médio prazo acredito até numa despoluição do rio, por outro lado olho com preocupação para um processo de escassez de água no mundo. No futuro, a água vai valer mais que qualquer outro combustível, precisamos investir na sua preservação e reuso”, finaliza.


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