O Vale sempre em alerta

16 Dezembro 2015 09:02:45

Enchente não é novidade, o problema é que elas somam cada vez mais prejuízos

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Um olho no céu e o outro no Itajaí-Açu e seus afluentes. Assim vive quem escolheu morar nas cidades da Bacia do Itajaí. É comum o rio sair de seu leito e invadir ruas, residências e comércios, destruindo tudo o que as famílias construíram com muito trabalho e suor. Em algumas enchentes, o Itajaí-Açu também leva embora vidas. Assim, o mesmo rio que traz esperança e desenvolvimento ao Vale do Itajaí abre feridas que custam a sarar no emocional dos moradores do Vale. Por isso é que se diz: “No Vale do Itajaí, os moradores estão sempre em estado de alerta”. 

Enchente não é novidade na região. Existem relatos de navegadores antes mesmo da chegada dos primeiros imigrantes europeus à região. Porém, os registros oficiais datam de 1852 – apenas dois anos após a fundação da colônia Blumenau. O formato da bacia e seu relevo acidentado contribuem para que o nível do rio suba rapidamente após intensas chuvas. No entanto, as enchentes - fenômenos naturais comuns no Vale – se agravaram com o passar dos anos e viraram verdadeiros desastres ambientais. Isto porque as construções não param de avançar sobre as áreas verdes e ribeirinhas. No passado, a elevação do rio em 11, 12 ou 13 metros não seria motivo de alarme, hoje leva os moradores ao desespero.

A maior enchente registrada no Vale do Itajaí é a de 1880, quando o rio chegou a incrível marca de 17,10 metros, o equivalente a um prédio de quase seis andares. Em 1911, os moradores viram o Itajaí-Açu novamente transbordar e chegar a 16,90 metros. Foi então que a comunidade passou a cobrar das autoridades obras estruturais que amenizassem o problema. Porém, nada foi feito até 1957, quando quatro novas enchentes atingiram a região no intervalo de um ano. Além do transbordamento do rio, surgiu uma nova preocupação: a erosão das margens do Itajaí-Açu e seus afluentes por conta do desmatamento acelerado. Havia a necessidade de se adotar medidas para gerenciar as cheias. Foi assim que surgiu a S/A Contra Enchentes, iniciativa do engenheiroOtto Rohkoht, cônsul da Alemanha em Blumenau. A ideia, porém, só vingou 72 anos mais tarde com a criação do Comitê do Itajaí, em 1997.  

Antes disso, o presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, baixou um decreto, em 1957, nomeando um grupo para estudar a situação da Bacia do Itajaí e propor medidas de proteção contra as cheias. Os estudos resultaram na retificação do Itajaí-Mirim, em Brusque, e na construção de três barragens. A Barragem Oeste, em Taió, inaugurada em 1973, com capacidade de reter 110 milhões de m³ de água; a Barragem Sul, em Ituporanga, em operação desde 1975, com capacidade de reter 85 milhões de m³ de água; e a Barragem Norte, em José Boiteux, a maior delas, com capacidade para reter 357 milhões de m³ de água, que entrou em operação em 1992. 

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Ceops controla o nível do rio em 17 estações

Mesmo com as barragens, o Vale do Itajaí continua a ser castigado pelas cheias. A mais trágica delas, em 1983, elevou o nível do rio a 15,34 metros. Durante 10 dias, a população sofreu com falta de energia elétrica, água potável e alimentos. A enchente deixou 150 mil pessoas desalojadas e prejuízos que ultrapassaram a R$ 1 bilhão. 

No ano seguinte, percebendo a necessidade de se prever e alertar a comunidade para as cheias, o Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica (DNAEE) instalou uma rede telemétrica em cinco estações, nos municípios de Blumenau, Apiúna, Ituporanga, Taió e Ibirama. Além disso, a Universidade Regional de Blumenau (Furb) foi contratada para implantar o Sistema de Alerta. A central foi instalada na própria universidade, onde funciona até hoje. A Furb já havia criado, em 1983, o “Projeto Crise”, com o objetivo de desenvolver estudos para entender melhor o problema das cheias. 

Hoje, o Centro de Operações do Sistema de Alerta (Ceops) é a única referência oficial para a previsão de cheias na Bacia do Itajaí. Ao longo dos anos, o Ceops recebeu investimentos que modernizaram o monitoramento, tornando-o mais ágil e preciso. Hoje, o sistema opera com 17 estações nas cidades de Apiúna, Benedito Novo, Blumenau, Brusque, Botuverá, Gaspar, Ibirama, Ilhota, Indaial, Ituporanga, Rio do Oeste, Rio do Sul, Rio dos Cedros, Taió, Timbó, Trombudo Central e Vidal Ramos. O coordenador do Ceops, Dirceu Luis Severo, explica que as informações, como o nível do rio e a precipitação de chuva, são coletadas a cada15 minutos nas estações e atualizadas no sistema de hora em hora, via telefonia móvel, para a central, em Blumenau. “Para medir o volume da chuva, são utilizados pluviômetros. Já o nível do rio é indicado por sensores, que estão nas réguas instaladas dentro dele”, acrescenta o coordenador. O Ceops conta ainda com a ajuda de “observadores”, pessoas que residem próximas das réguas, que verificam e informam os dados. Segundo Severo, o monitoramento divide-se em quatro estágios: Normal: 4 metros acima do nível); Atenção (4 a 6 metros acima do nível); Alerta (6 a 8 metros acima do nível); e Emergência (acima de 8 metros). 
As medições começam quando o Itajaí-Açu atinge, em Blumenau, o estado de alerta. “A previsão de onde e qual vai ser o seu máximo é feita com oito horas de antecedência”, revela Severo. Apesar de sua importância, até hoje, apenas as cidades de Blumenau, Brusque e Timbó possuem a carta com a cota oficial de enchente. Os demais municípios, inclusive Gaspar, baseiam-se nos dados registrados na última cheia. 

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