As lições de 2008

16 Dezembro 2015 09:07:59

Depois do desastre climático da sua história, o Vale despertou para medidas de prevenção

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Milhares de famílias do Vale do Itajaí jamais esquecerão o novembro de 2008. Entre os dias 20 e 23 choveu o equivalente ao esperado para quatro meses. Desta vez, porém, a fúria da natureza foi muito além das inundações e deixou um rastro de destruição em vários municípios. Mais de 130 pessoas morreram naquela que foi considerada a pior catástrofe climática já registrada em Santa Catarina. Além das águas que insistiam em invadir as residências, a comunidade viu diante de si uma ameaça ainda mais devastadora: os deslizamentos de terras que soterraram vidas e colocaram um ponto final em muitos  sonhos.

A tragédia não deixou dúvidas: novas medidas preventivas e obras estruturais precisavam ser planejadas e executadas para minimizar os efeitos das chuvas no Vale do Itajaí, reduzindo o impacto das cheias. 

Foi então que o Governo do Estado voltou a consultar a Agência Japonesa de Cooperação Internacional (Jica) – que já havia visitado a região após a enchente de 1983. Na ocasião, porém, a falta de verbas impediu que o estudo fosse levado adiante pela agência. 

Em 2009, técnicos da Jica voltaram ao estado e a visita resultou na proposta de elaboração de um novo plano diretor de prevenção de desastres para a Bacia do Itajaí. Após os trabalhos de campo, os japoneses entregaram o estudo ao governo do estado em novembro de 2011. 

Segundo informações da Defesa Civil de Santa Catarina, no relatório produzido pela Jica foram apresentadas diversas ações de mitigação, como a construção de diques e barragens; e melhoramentos fluviais, como obras de alargamento, aprofundamento e desobstrução de rios que cortam o Vale. 

PACTO DE DEFESA CIVIL
As obras, algumas revistas e repensadas por técnicos já contratados pelo estado, estão reunidas no Pacto de Defesa Civil, e representam um investimento de aproximadamente R$1 bilhão. Parte dos trabalhos serão custeados com recursos federais e outra parte pelo governo do estado, por meio de financiamentos públicos. 

A expectativa da Defesa Civil é concluir a maior parte dos projetos até 2018. No entanto, admite o órgão, o andamento dos trabalhos irá depender das questões burocráticas, licitações e da captação de recursos em Brasília. 

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Estado e população divergem sobre barragens 

Além dos trabalhos seguirem lentos, o Governo do Estado ainda precisa convencer  a população de que a construção das barragens é a principal medida para conter as cheias no Vale. Os ambientalistas dizem que só reter a água não será eficaz, pois as áreas alagáveis também precisam ser preservadas. Em Pouso Redondo, os moradores criaram até uma comissão Anti-Barragens. A Defesa Civil anuncia a construção de duas barragens no município. Um abaixo-assinado, com mais de seis mil assinaturas, pedindo o cancelamento da obra foi entregue ao à Secretaria de Estado da Defesa Civil. 

Os moradores alegam que as barragens estão planejadas muito próximas uma das outras e distante apenas 2,7km do Centro da cidade. O desalojamento das famílias da área que será inundada pelo enchimento da barragem em período de chuvas fortes também preocupa a comunidade. 

O próprio poder público é contra. Em reunião, no início deste ano, a prefeita Nair Goulart disse que é preciso resolver o problema das enxurradas e não de barragens. O secretário de Estado da Defesa Civil, Milton Hobus, esteve em Pouso Redondo para tentar convencer a população das vantagens das obras. Ele assumiu o compromisso de efetuar estudos para a construção de apenas uma barragem nas imediações do entroncamento dos rios na localidade de Lageado. Hobus explicou ainda que as barragens serão construídas em concreto e somente a parte de contenção será de barro, mesmo assim o impasse continua. Os moradores de Agrolândia, onde também está prevista a construção de duas barragens, também não querem as obras.

“As pessoas convenceram a comunidade a ser contra. Fizeram terror, deixaram os moradores com medo, porém, ainda queremos convencê-los de que as barragens serão boas para a região. Não há como o Estado fazer uma obra com a comunidade sendo contrária a ela. Os projetos ficarão prontos, agora se vai ter obras ainda não sabemos”, afirma Hobus. Os recursos que estavam destinados para as quatro barragens, assim como para a construção de uma pequena barragem em Braço do Trombudo, mas que foi cancelada por causa do baixo custo-benefício, serão, de acordo com o secretário, realocados para a ampliação da capacidade da barragem de Ituporanga e investidos em melhorias no rio Itajaí-Açu, de Rio do Sul até Apiúna (Salto Pilão). “A intenção é aumentar a velocidade do rio e diminuir a cota de enchente na cidade”, justifica Hobus. 


Investimentos
- Radar Meteorológico de Lontras – Em operação desde junho de 2015;         
- Ampliação da capacidade das barragens de Taió, de 83 milhões de m³ para 99 milhões de m³; e da de Ituporanga, de 93 milhões de m³ para 110 milhões de m³ – Obras em execução.  
- Melhoramento de comportas no rio Itajaí-Mirim, em Itajaí (drenagem, alargamento, desapropriações e instalação de duas comportas) – Projeto concluído, aguardando licenciamento. 
- Construção de três pequenas barragens nos rios Taió e Perimbó, no Alto Vale – Projeto concluído, aguardando licenciamento.
- Construção de uma barragem de médio porte no rio Itajaí-Mirim, em Botuverá – Projeto concluído, aguardando licenciamento. A barragem ficará em uma área dentro do Parque Nacional Serra do Itajaí e, nos próximos dias, a Defesa Civil irá se reunir com representantes do Instituto Chico Mendes, responsável pelo local, para discutir o assunto. 
- Implantação do sistema de monitoramento de alerta e alarme do Centro de Gestão de Desastres, com mapeamento de áreas de risco, operação do radar e manuais operativos da Defesa Civil – Projeto concluído, aguardando licenciamento. 
- Melhoramento Fluvial do Itajaí do Oeste e no Vale – Em estudo. 


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