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O carroceiro alemão

Imagens de 1983. Conheci Arno Hermann Alberto Kanis, 68 anos. Entrevistei-o por sugestão do fotógrafo Ingo Penz. O depoimento só foi colhido com Ingo dando uma de intérprete, já que o colono praticamente só falava alemão.

Todos os dias, durante 37 anos, levava galões de leite, de sua propriedade, mais o que recolhia pelo caminho, até uma indústria de laticínios na rua principal de Pomerode. A velha carroça, marca tradicional na região, não sentia mais o peso de antigamente. Dos 5OO litros do precioso produto estavam em 1OO. A quinta carroça tinha tudo para ser a última. Dos 8 cavalos dos bons tempos, restavam dois. Plessa e Mico, os nomes. Se um deles falhar, admitia, ele pararia.

Barba por fazer, pés enlameados, Kanis contou-me sua rotina diária: "Levanto às 5 e saio às 6 e meia. De manhã, o pessoal só toma café preto. Às 9 e meia, é servido pão de trigo, caseiro, com linguiças, ovos e banana.."

Além do Früsthüch que foi descrito, ele almoçava a uma e meia, com um cardápio variado: carnes (ossada para fazer sopão), galinha, ganso e porco. À noite, confessava, dormia cedo, estimulado por uma dose de Schnapss (cachacinha).

Fumando um cachimbo rústico, usa um isqueiro de lata daqueles bem antigos, queixa-se da vida financeira:

- Ganho um salário-mínimo. É muito pouco pelo trabalho todo. As ferraduras dos cavalos são trocadas a cada mês.

Aposentado, trabalha ainda para sobreviver.

O mundo de Kanis resumia-se à região pomerana. Não quer, de modo algum, morar na cidade, E, na realidade, só conhece Jaraguá do Sul e Blumenau.

Nestes tempos modernos, tecnológicos, pensa-se que pessoas assim não têm mais vez. Ledo engano.

Na despedida, dispara: "Se sou feliz? Sim. É claro, evidente. Meu lugar é aqui."

Pommer Zeitung

No final de década de 1980, resolvi criar um jornal numa cidade da região que não possuísse um órgão de comunicação impresso. Achei incabível que uma cidade do porte de Pomerode - ativa, econômica e expressiva em termos de produção e projeção - não o tivesse.

Daí ter criado o Jornal de Pomerode, o "Pommer Zeitung - em alemão só para agradar o time germânico. Durou pouco. Existe inda hoje, com novos donos - colorido, insosso e com a semgracice de jornais bem do interior.

Curiosidade foi a reação do carroceiro alemão, o Kanis, ao receber um exemplar da dona do comércio de laticínios. Contou-me ela que ele não quis recebê-lo, pensando que teria que pagar a entrevista e o jornal.

Acabou aceitando. Exemplo de ingenuidade e simplicidade.



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