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Na beira do mar - Itapema (1)

Na década de 50, fui ver o mar pela primeira vez. A escolhida, Itapema, era um deserto só. Nem tinha casa para alugar. Papai, com seus amigos pescadores, conseguiu um rancho velho, caindo aos pedaços, no meio de um pasto. No exíguo espaço, juntou-se minha família a parentes de Blumenau e Rio de Janeiro. Tudo era improvisado, cama no chão, fogão a lenha e toda a cacada necessária: panelas e roupas.

A praia enorme, ondas leves, parecia não terminar nunca. Em direção ao Sul até chegar-se a Porto Belo tinha inda duas irmãs: Meia-Praia e Perequê. Peixe era o que não faltava.

Para não dizer que não tinha paisagem, abrigava uma pequena vila: uma casa comercial, dois andares, de tijolo (um supermercado de hoje); numa casinha, funcionavam os correios sob o comando de dona Picucha.

Fiquemos na casa velha. Como as goteiras fossem muitas, revestiu-se o teto com imensa lona. Claro, não podia dar outra. Encheu-se de água, virou-se e um pequeno dilúvio doméstico teve hora e vez.

Duas cenas de infância inesquecíveis: Uma tia solteirona, Sinhazinha, a nossa Sinhaca, acordou aos berros. Sobre sua cama caíra uma ratoeira com o bicho vivo ainda. Tia Maria, esposa do Augusto Thieme, acordou assustada com lambidas nos pés. A casa tinha alguns buracos à altura dos pés. Ela, no sono, deixou uma perna de fora. A vaca não quis outra. Carinho assim é outra coisa.

Depois do jantar, eu e minhas primas corríamos a uma servidão que tinha na rua central o Hotel Pio. Gritávamos? - Comida podre!-Comida podre! O pessoal do restaurante, pra lá de boas iguarias, nos perseguia. Em vão. Não havia iluminação elétrica. Atitude - a nossa - de criança pequena, totalmente irresponsável.

Ano seguinte, só meu pai, mãe e duas irmãs ocuparam a parte superior do Bar do seu Geninho. Como as pulgas pululassem no novo lar, mamãe banhou-o todo com creolina. Os protestos do proprietário tinham suas razões. As garrafas de bebidas apresentavam um cheirinho mais do que o normal.

Um galo inglês entra em cena. Como a patente ficasse nos seus domínios, o bicho se escondia atrás da casinha e ao ver sair algum freguês, perseguia-o a bicadas até o portão.

O seu Geninho entrou no folclore local. Toda vez que parava um ônibus, ele perguntava ao motorista: - Por acaso, não ficou um guarda-chuva? Normalmente, muitos são esquecidos. Ao ver o objeto, não hesitava:

É meu!

E assim, na maior, orgulhava-se de possuir a maior coleção de guarda-chuvas da região.

Anos depois, alugamos - somente a nossa família, uma casa de veraneio de uma senhora de Brusque. Acho que era uma Renaux.

A vantagem do novo lar era a proximidade com o rio Perequê. Na sua saída para o mar, colher robalos com camarão vivo constituía-se tarefa das mais fáceis e agradáveis.


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