| ASSINE | ANUNCIE
| | | |

Dez por dez

Ah! Eternas dúvidas e esquecimentos! Adquiri o livro em brochura Os dez mandamentos (Círculo do livro, em 1994, 348 páginas). Paguei no sebo 5 cruzeiros ou seriam já reais? Posso tê-lo ganho naquela cestinha que a Biblioteca Pública mantém no balcão, doando obras e revistas, consideradas por ela velhas, inúteis, daquelas que gostariam do brasileiríssimo verbo "apinchar" ou "pinchar" fora. Direto para a lata de lixo. Vindo a minha estante no ano de 1994, faço sua releitura pela terceira vez, de lá para cá. A ideia foi convidar 10 escritores, mais ou menos famosos, a escrever, a partir dos dez mandamentos divinos, pequenas histórias (na realidade, contos), com conotações que lembrassem os ditames divinos. 

Dos autores escolhidos só desconhecia Moacir C. Lopes. De Campos de Carvalho só tinha lido críticas desfavoráveis nos jornais cariocas e paulistas. Mas foi justamente dele a autoria do texto que mais me comoveu.

A Carlos Heitor Cony (que não deveria ter morrido nunca) coube o Amar a Deus sobre todas as Coisas, que ele intitulou de Sobre todas as coisas.

Orígenes Lessa: Não tomar seu santo me em vão, batizado por ele como Jeová de Souza.

Marques Rebelo se incumbiu de Guardar domingos e festas, batizado como Conto à la mode.

Com o título mais extenso - Honrar pai e mãe - José Condé escreveu O velho Norberto Cavalcanti, Também conhecido por Velho Nô- Que morou em Caruaru, Pernambuco , em 1927.

Jorge Amado, com Não matar - As mortes e o Triunfo de Rosalinda começa xingando:

"História escrita sob encomenda e sem inspiração, sem pés nem cabeça digna dos tempos de viver como vivemos, institucionalizados e redimidos do pecado universal, tentativa frustrada de estabelecer a escola do realismo-anárquico, dedicada pelo autor, com admiração e amizade, a romancista Campos de Carvalho, jovem mestre da literatura brasileira.)"

Não pecar contra a castidade - com o título Espantalho Hábitado de Pássaros, como já disse acima foi o que mais me comoveu.

Senti engulhos, nojo e asco com Não Furtar - de O Navio Morto - assinado por Moacir C. Lopes. Todo mundo morrendo, com agora com o bem-dito Corona.

A única mulher, presente no elenco, Helena Silveira, dá o seu recado em A Terra Cobre Nada (Não levantar Falso Testemunho.)

Não desejar a mulher do próximo com o título de Xangô - é de Guilherme Figueiredo. Escritor com um único senão: ser irmão do general (os presidentes anteriores eram todos marechais) João Baptista de Figueiredo. Felizmente, último presidente, morto e sepulto o golpe militar de 1964.

E João Antônio discorre sobre Paulinho Perna Torta em Não cobiçar as coisas alheias.

Interessante notar que alguns personagens - a maioria gente burra, analfabeta, pobre, e bota mais males nisso - citam, por vezes, expressões latinas. Por exemplo: "Um deles, regenerado, de beberrão a bom cristão, escolhera uma frase que era o seu lema, a sua missão: Deus super omnia. Deus acima de tudo."


VEJA MAIS DA COLUNA