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Como era antes do ano 2020 a.c.

Como cronista e jornalista não sou muito apegado à ficção. Para contar uma historinha, sempre tenho como base de informação e inspiração uma fonte amiga e confiável e, claro, um pouco de invencionice. 

O a.c. do título minúsculo não tem nada a ver com o A.C. bíblico e consumado. Vou falar desse ano fatídico, o passado. O a.c. significa antes do corona.

Esquecerei, de propósito, os acontecidos depois da doença fatídica e horrível, o tal batizado de corona vírus. Que o diabo o tenha afastado de nós, pobres e sofridos viventes.

Antes de 2020, vigorando o isolamento total e obrigatório, o cenário do passar dos dias era um tanto quanto diferente.

Vejamos:

Domingo é o primeiro dia da semana, embora muitos não se toquem nesse detalhe. Afinal, é na segunda que se começa a viver o trabalho, suarento, nojento ou, por felicidade dos contemplados, prenhes de prazer.

Só se deve fazer, se possível, o que nos apraz. É certo e cai redondo: atuar nas áreas e ofícios que só nos causam prazer. Do contrário, é penoso efetuá-lo com a dedicação que nos exigem.

Como eram os domingos de antigamente ("antigamente era assim" foi o nome de programas radiofônicos, eivados de canções do tempo da onça e bota velhice nisso). O rádio nesse setor nos impregnava de velhas canções, embora que superiores em qualidade e sentimentos dos roquiandróis que insistem em sobreviver.

Novidades em canções, depois da bossa nova e do que rotularam de MPB (Música Popular Brasileira) só soam a um mau gosto total, amplo e irrestrito, expressão calcada por um ex-presidente militar de pouca ou quase nenhuma memória de saudade. Figueiredo, concordam?

No domingo, as opções eram: pela manhã, a missa obrigatória aos devotados fieis, incluindo as beatas-carolas, solteironas virgens, possivelmente mal-amadas. Depois, o avanço às confeitarias, onde se iniciavam namoros noivados e casamentos. E os bailes, então? Eram as soirées (mania de imitar estrangeirice). Hoje, a mocidade acertadamente criou as baladas.

Os mais espertos dispensavam tudo isso e corriam para as beiras dos rios ou em canoas a pescar, desse ou não desse resultado. No nosso rio Itajaí, intocável como pura virgem, sem plásticos e outras imundícies, era abrigo de peixes lá do distante mar de Itajaí. Certa feita, numa canoa, nas proximidades do Clube Alvorada, fisguei um peixe branco. Meu pai garantiu que era do mar. Um marimbá, talvez?

E até siri meu puçá aprisionou. Claro, água salobra como efeito da maré alta. Um aluno de Gaspar, num curso de oratória, contou que o pai tinha uma padaria (provavelmente a Vanzuita). Numa noite o deixou a cuidar dos pães no forno. Ele adormeceu. O produto estava torrado literalmente. O que fez? Jogou tudo no rio e fez nova fornada.

Amanheceu, olhou o Itajaí Açu e, de cara no chão, viu aquela enorme quantidade de pães boiando. Era a maré alta que fez retornar a Gaspar o que deveria ser engolido pelo mar em Itajaí.



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