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Caetano canta mais alto

20 Julho 2018 16:59:00

O título da crônica não quer definir o tom nada à la Orlando Silva da voz, na realidade, um fiozinho de voz, parecida com a do seu ídolo-mor, o também baiano João Gilberto. Estou na metade do livro Verdade Tropical, de Caetano Veloso (Companhia das Letras, 1997, 524 páginas).

Quando se pensa nele, irrompe o cantor-compositor pós-bossa-nova. Nem se pensa na possibilidade de lê-lo em livro. Apaixonou-se pela escrita quando do seu exílio em Londres, forçado pelo regime militar, mandava artigos para o Pasquim. Melhor tivesse parado ali suas incursões na literatura.

Se foi amargoso digerir a autobiografia de Rita Lee, não se mostrou menor a impaciência de avançar na escrita de Caetano. Ficasse, pensamos, na música e tão somente. Ele estende uma linha cronológica a partir da infância e adolescência em Santo Amaro da Purificação, e, embora se concentrando no período que vai até meados da década de 70, chega até o momento em que terminou de escrever este livro, em julho de 97.

De um extremo ao outro os temas se multiplicam: as relações familiares; a ditadura; o exílio em Londres; leituras decisivas e preferências literárias; o sexo, a experiência com as drogas; Gil, Bethânia e Gal Costa; João Gilberto e a bossa nova; rock´n´roll e samba; Chico Buarque; Glauber Rocha; Cinema Novo e amor ao cinema; projetos estéticos das décadas de 60 e 70; os festivais e os programas de auditório, a velha Record; o teatro de Zé Celso Martinez e o de Augusto Boal; o diálogo com os concretistas; a contracultura de Zé Agripino, Beatles e Mutantes; Rio, São Paulo e Salvador etc.

O que vale na obra: a influência nos jovens de seu tempo mais nas atrizes italianas e francesas (Silvana Mangano e Brigitte Bardot) do que nos ídolos norte-americanos (Marilyn Monroe e Elvis Presley); o crescimento primeiro de sua irmã, Maria Bethânia, na carreira-solo, sem se envolver com a bossa nova, o tropicalismo ou a Jovem Guarda. Ela preferia gravar sambas e boleros da velha guarda: Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues e outros nessa linha.

Mas o que faz brilhar os olhos de seus fãs são as canções. Destaca-se Tropicália: "Sobre a cabeça os aviões / Sob os meus pés os caminhões / Aponta contra os chapadões meu nariz / Eu organizo o movimento / Eu oriento o Carnaval / Eu inauguro o monumento no planalto central do país."

"A canção longa, depois de passar pela imagem de uma "criança sorridente, feia e morta", que "estende a mão" de sobre os joelhos do "monumento", por uma "piscina com água azul de Amaralina" e pelos "cinco mil alto-falantes" que emitem  acórdãos dissonantes" chega a uma sequência desconcertante, como "Viva a bossa-sa-sa / Viva a palhoça-ça-ça-ça /Viva Maria iá-iá / Viva a Bahia iá-iá, "Viva Iracema ma-ma / Viva Ipanema, ma-ma-ma". E termina com o grito de Roberto Carlos: "que tudo o mais vá pro inferno" com um "Viva a Banda da-da / Carmen Miranda da-da-da-da!"

Pois é, "sem lenço nem documento, caminhamos contra o vento".


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