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Beira do mar: Canto Grande

Na edição de junho de 1983, no jornal Campus, criado pelos alunos da Furb, publiquei este texto -No pontal da solidão -, que naturalmente abordará o mesmo assunto na próxima coluna: 

"Andei pensando anos atrás em escrever um romance. Depois, para alegria geral, desisti. Um motivo menor: apareceu um filme nacional com o título escolhido para o meu não realizado intento. O decisivo: não contribuir para a inflação existente: a de escritores catarinenses. Restrinjo-me assim a contribuições jornalísticas.

O pano de fundo da falida narrativa seriam as minhas praias prediletas., de inesquecíveis férias. Zimbros, Canto Grande e Mariscal dão as mãos, cercando um pontal de terra, um verdadeiro istmo.

Passei a desfrutá-las há dezessete anos, portanto sem sinais de civilização. Nada de luz elétrica, neca de água encanada, nenhum restaurante. E sem a presença de políticos populares.

Hoje, já possui um ponto de encontro obrigatório, o Quiosque, do Maneca., comparável em apresentação e qualidade da cozinha, aos melhores dos grandes centros. Poderosos supermercados (o Eliane, a qual a proprietária Solange acresceu um hotel e uma excelente casa de pasto; discotecas, Casan e Celesc (telefone não os há) e uma das mais belas vivendas, a do Renato Viana com uma carranca do barcos do rio São Francisco na varanda. Depois, vendeu-a ao Leonel Pavan.

E foi lá, na qualidade de pioneiro, uma espécie de candango litorâneo, que ouvi algumas joias de primor no cultivo da língua portuguesa.

Curioso em conhecer as variedades de camarão (conhecia bem o sete-barbas), assustei-me ao ouvir o pescador apontar uma nova espécie: o cracunda. Ao observar o aspecto físico do bichinho, depreendi tratar-se de corcunda.

Outra cena: na praia, o garoto berrava a sua mercadoria, anunciando Camarão do Egito. Mergulhei os olhos no cesto para descobrir no balaio camarões legítimos, os pistolões dos mares nativos. Uma pura lição de metaplasmos para um professor de português.

Conhecedor apenas do baiacu de pedra, pequeno e irritante por roubar as iscas constantemente, fisguei com a carretilha um dos grandes, exímio cortador de anzol e linha.

Perguntei a um pescador de lá se podia-se comer, já que o pequeno ninguém consome. Entendi que "Fazi mali pra pele". Devolvido o peixe ao mar, veio a nova revelação: era comestível sim, só que precisava retirá o féli " (fel).

Voltando ao pontal da solidão, que engloba mais praias dos que as citadas, quem quiser isolar-se mais, numa atitude são e feliz, deve deslocar-se poucos metros depois da praia da Conceição. Conhecerá então as cabanas do Zezé Neves, na praia da Tainha que, um e outro, chama de praia do Júlio".

Instalado lá, qualquer mortal desabafará:

- Ainda existe paraíso terral no conturbado mundo de hoje: Zimbros Bay.'

A transcrição da crônica terminou.

Mas alguma novidade ainda vem por aí:

Não se fala mais em Canto Grande. O município virou Bombinhas, a praia que se acha possuidora da água mais limpa do planeta. Deve por isso achar decente cobrar pedágio para se entrar. Maré baixa.


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