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À beira do mar: Piçarras

Meu pai comprou uma casa em Piçarras, que faz pouco tempo virou balneário. Balneário de Piçarras. Nunca entendi o porquê de casas grandes de antigamente, de dois andares (não era o nosso caso) não possuírem banheiro no segundo andar. Tinha-se que descer escadaria pra chegar nele. Lá também era assim. Para de instalar na "casinha" descia-se um morro, cheio de capim. Com um problema maior: o susto que se levava já que lagartos enormes se abrigavam na patente. 

Para se chegar ao centro, andava-se uns três quilômetros. Até chegar à praça com igreja bonita, hotéis e comércio variado. O rio de Piçarras quase alcançava o centro. Era um mangue só. Mas a ganância do homem aterrou tudo. E o mar se vingou. Jogou tanta água na praia que de metros em metros foram construídos pisos de cimento armado. Para diminuir o impacto de ondas violentas.

Quem sai de Itajaí em direção a Joinville, usa a estrada asfaltada e por atalhos alcança a praia. Antes de Piçarras, passa-se por Itajuba. E depois vem Barra Velha. No centro, linda lagoa enfeita a paisagem. Em sua saída para o mar, quilômetros depois, a pesca do robalo é farta e generosa.

Anos mais tarde, em Barra Velha, resolvi tirar um número do meu jornal mensal, o Entrevista. Falei com o prefeito, que além de bancar a edição, forneceu-me um serviço de gravador. Assistindo a um desfile de uma escola de samba de Itajaí, ouvi uma cabrocha soprar para outra:

- Imagina quem está aí? O Fausto Rocha. O moço, de radialista em Joinville, mandou-se para o Rio de Janeiro para fazer cinema, teatro e televisão. Se não ficou muito conhecido, marcou presença. Localizei-o e o convidei para uma entrevista. Foi feita num sacadão de um restaurante entre a praia e a lagoa, gravador ligado e o alto - falante irradiou o papo por todo o ambiente. Simpático, consegui dele tiradas engraçadíssimas.

Na Praia Alegre, ligada a Piçarras por uma ponte, vi numa banca um exemplar do Diário do Litoral, o popular Diarinho. Comprei-o por uma matéria de capa, anunciando o lançamento de um livro, Da Olivetti à Internet, editado pela Unisul. Reuniu um grupo de jornalistas-escritores narrando suas reações com a mudança de máquina de escrever pelo computador. No meio das "feras" constava o meu nome.

Cabeçudas mereceu umas temporada na casa do dr. Sálvio Cunha, juiz de direito em Indaial e primo de meu pai.

Passado o regime militar, criaram-se as legendas da Arena e MDB.

Nunca me esqueci do episódio:

Os itajaienses, gozadores pela própria natureza, lotaram ônibus com eleitores pobres para fazer piquenique na praia.

É claro, mais do que natural, que os moradores do local, ricos e abastados, não quiseram contato com os farofeiros.

Quarentena de fim de semana forçada em Cabeçudas; seus moradores e turistas entocaram-se em suas residências.



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