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SÍMBOLO

Uma história de união e fé no pico do Bateias

Moradores se uniram, há quase 30 anos, para instalar uma cruz no alto morro que também guarda um mistério


Fotos da época mostram a cruz erguida em concreto pelos moradores / Foto: Arquivo pessoal/

No topo do pico do Bateias, a cerca de 700 metros do nível do mar, uma enorme cruz chama a atenção. O símbolo religioso dos Cristãos, com cerca de 6 metros de altura, é objeto de uma bela história de fé que os moradores mais antigos do Bateias, Barracão e Óleo Grande conhecem bem. E já faz tempo que a primeira cruz foi colocada no alto do morro: há mais de 80 anos. E quem conta bem essa história são dois populares moradores da região: Moacyr Barbieri, o Coca, e Ademar Horn. "O Tavinho (Otávio) Pereira era muito religioso, foi ele quem começou com a ideia de colocar uma cruz lá em cima", relembra Moacyr, hoje com 89 anos. Ao longo do anos, as cruzes foram sendo substituídas porque a madeira apodrecia. "A gente ganhava as madeiras plainadas de uma serralheria do centro de Gaspar e carregava até o pico onde juntávamos as partes com parafusos", revela seu Ademar, hoje com 56 anos, e ainda um assíduo frequentador do pico da Bateias. Moacyr e Ademar relatam que nos primeiros 40 anos, a cruz foi substituída três ou quatro vezes até que os moradores decidiram fazê-la de concreto. "A última cruz de madeira foi arrancada por um raio no final dos anos 1980", relembra Moacyr. Nos anos de 1990, a atual cruz foi instalada no morro. Sete pessoas trabalharam na confecção do símbolo numa "Sexta-Feira Santa". A ideia de fazer a cruz de concreto foi do morador Celso Luchini, que morreu de maneira trágica semanas depois da inauguração. O filho, Marciano Luchini, relembra que o pai era muito religioso. "Pra ele não tinha tempo ruim, se alguém vinha com alguma ideia ou algo para fazer às 4h da manhã, ele não hesitava em ajudar. Era um homem de palavra, muito ligado a fé", elogia.

Ademar recorda que o amigo Celso foi atrás do material necessário para construir a nova cruz. "Ele conseguiu em doação praticamente tudo, lembro, por exemplo, que a Vidraçaria Cristal, de Brusque, doou boa parte dos materias". O próximo passou foi reunir pessoas para fazer a cruz e carregar os materiais até o morro, o que não foi tão difícil porque a comunidade resolveu se engajar ao projeto religioso. Segundo Ademar, mais de 20 pessoas participaram da romaria até o alto do morro para executar a empreitada. Um caminhão fez o transporte até uma parte do trecho, dali em diante as pessoas seguiram a pé com os materiais por mais de três quilômetros de subida. "Foram mais de duas horas de caminhada até o pico", diz Moacyr, que foi um dos voluntários.

De acordo com ele, o concreto levou quase um mês para firmar, mas enfim no primeiro dia de maio de 1993 cerca de 100 pessoas, entre párocos, empresários e comunidade em geral, se reuniram em frente à cruz para a cerimônia oficial de inauguração. Um belo momento de fé do povo do Bateias, Barracão e Óleo Grande.

O mistério

Mas, a história da cruz do pico da Bateias não para por aí. Há um detalhe "sobrenatural" que envolve o acontecimento. No dia da inauguração, uma garrafa foi enterrada junto à base da cruz contendo o nome de todas as pessoas que participaram da empreitada. Uma homenagem merecida a quem se doou ao trabalho religioso e voluntário, porém, coincidências até hoje inexplicáveis perturbaram os moradores naqueles dias. No mês seguinte, o líder da campanha por um nova cruz, Celso Luchini, faleceu em um acidente de trânsito. Alguns dias depois deste fato, outra pessoa, que teve seu nome colocado na garrafa, também morreu. Assustados, os moradores decidiram ir até o pico da Bateias para desenterrar a garrafa, que poderia conter alguma "maldição". Marciano, filho de Luchini, participou do ato de resgate da garrafa. "Talvez, enterrar em frente da cruz tenha sido um erro, por isso nós enterramos a garrafa em outro local e não ocorreu mais nada de ruim", acredita.

Ademar costuma realizar caminhadas até o pico do Bateias, assim como Marciano Luchini. Outros moradores também mantém a tradição de subir o morro e rezar em frente da cruz. Marciano, hoje com 44 anos, também guarda boas recordações da infância, quando ele e os colegas brincavam no morro. "A gente se pendurava nos cipós, fazia balanços, era uma brincadeira saudável. Eu lembro que chamava de 'Bico da Bateia', aliás, muitas crianças daquele época assim chamva o pico da Bateias", diverte-se.

Ademar vê potencial turístico no lugar. Quando pode, ele sobe até o alto do morro para apreciar a bela paisagem do Vale e apreciar o símbolo religioso. "Eu até chamei algumas crianças do colégio [Luiz Franzói] para subir comigo até o pico", recorda. De acordo com Ademar, em dias claros é possível enxergar dois prédios mais altos que estão sendo erguidos em Balneário [Camboriú], no litoral. O pico da Bateias, para ele, merece mais destaque. "Seria bom atrair para cá o turismo ecológico", finaliza o morador.


Ademar quer que o local se transforme em ponto turístico / Foto: Daniel Schatttschneider/




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