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PARECE PEGADINHA

Cliente pega o produto e deixa o dinheiro no trailer do Dr. Honesto

Na BR-470, em Rodeio, não tem atendente nem caixa, o cliente pega, paga e exercita a honestidade

Alexandre Melo/jornalismo3@jornalmetas.com.br


Placa avisa que não tem atendente no comércio do Dr. Honesto, em Rodeio / Foto: Ironilson Voss/

Em se tratando de Brasil, a cena é surreal. Um comércio sem atendente. O cliente pega o produto e deposita o dinheiro numa caixinha. O trailer, instalado, no final do ano passado, entre os quilômetros 84 e 85 da rodovia BR-470 (sentido Oeste), no município de Rodeio, no Alto Vale, recebeu o sugestivo nome de Dr. Honesto. Água, refrigerante, pipoca, conservas e o carro-chefe, o pão caseiro, estão lá à disposição de qualquer cliente e a preços acessíveis. O pão, por exemplo, custa R$ 5,00.

O pegue e pague Dr. Honesto tem uma finalidade social: manter os trabalhos da Comunidade Terapêutica Desafio Jovem Vida Nova, uma entidade sem fins lucrativos criada pelo paulista Renato Lagatta, 58 anos, e sua esposa Caroline. A ONG fica na área em frente ao trailer. A ideia do Pegue e Pague surgiu porque a Vida Nova não tem condições de pagar uma pessoa para cuidar do local.

Renato viu na internet que na Europa este modelo de comércio é comum nas áreas rurais, onde os agricultores deixam os produtos à venda em frente das suas propriedades. "Eu vendia os produtos de porta em porta, mas o custo com combustível ficou alto e não estava mais compensando financeiramente, daí eu resolvi reformar esse trailer e criar o Dr. Honesto". Renato só não esperava que o pegue e pague fosse virar atração na região. "Muita gente para só para tirar fotografias", observa.

Em média, o Dr. Honesto vende 20 pães por dia, praticamente toda a produção, além de outros produtos. A ONG só não fabrica mais pães porque lhe faltam fornos. Com a Covid-19, Renato transferiu a padaria para a sua residência. "A minha esposa acorda todos os dias às 5 horas pra fazer os pães", revela.

O sucesso do pegue e pague levou Renato a reformar um sucateado Fiat Fiorino e abrir o Dr. Honesto II. "Como o movimento aumentou bastante, eu instalei mais um ponto de venda do outro lado da rodovia para que as pessoas não precisem se arriscar na travessia", justifica. Assim, quem vai em direção ao Oeste compra no trailer, quem viaja para o litoral adquire os produtos na Fiorino.

Segundo Renato, a clientela forte são os caminhoneiros. "Eu já fui caminheiro, e pode escrever aí: é o profissional mais honesto que existe". Ele conta que um caminhoneiro, de passagem, pegou produtos e deixou um bilhete. "Sou caminhoneiro e estou indo para Agrolândia, estava com fome e peguei alguns produtos, pago na volta com o dinheiro do frete". E, de fato, o caminheiro retornou e pagou.

Renato admite que, algumas vezes, a conta não fecha no final do dia, pois alguns produtos são levados sem pagamento, principalmente pelos andarilhos. Para ele, isso não importa. "Se alguém pega um produto e não paga é porque estava com fome, então não tem problema porque ajudamos a matar a fome dessa pessoa". Em quase seis meses de funcionamento, uma única vez levaram o caixinha do dinheiro, o que para Renato é prova de que o Dr. Honesto deu certo. Aliás, ele nunca pensou que a sua ideia pudesse fracassar. "Eu sou um otimista por natureza, acredito muito no ser humano e na sua honestidade. Tudo o que eu planejo é sempre com o pensamento positivo e em Deus", acentua.


Sucesso acabou levando a instalação do Dr. Honesto II / Foto: Ironilson Voss/


Voluntariado 

E foi com essa positividade que ele, um ex-empresário do ramo de combustíveis, com distribuidoras em vários estados do Brasil, e a esposa Carolina decidiram criar, há 13 anos, a Comunidade Terapêutica Vida Nova. O terreno, com cerca de 20 mil m², era para instalar um posto de combustíveis, mas acabou virando a sede da Ong que tem alojamento para 18 pessoas em situação de rua. Renato e a esposa vivem 24 horas para o Centro, que tem despesa mensal de R$ 12 mil. "Não ganhamos nada para fazer isso, mas nos faz muito bem", emociona-se.

O casal também não tem ajuda do poder público, mantém o Centro com doações de comerciantes, amigos e da venda dos produtos do Dr. Honesto. Ele conta que as pessoas chegam na Vida Nova em estado lastimável, muitas delas drogadas e embriagadas. "A gente acolhe, oferece banho, roupas limpas, alimentação e permite a permanência por um período desde que obedeçam as regras". O Centro tem autorização de funcionamento da Secretaria Municipal de Saúde de Rodeio, sendo fiscalizado pelo Conselho Municipal de Saúde. Renato faz questão de dizer que a casa não tem bandeira religiosa. "A nossa bandeira é a de Deus", acrescenta.

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