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HISTÓRIA

A vida de João Bendini

Ele foi um dos maiores donos de terras na localidade do Óleo Grande


Nivaldo (E) e Cláudio trabalharam duro nas suas terras nas da família Bendini, no Óleo Grande / Foto: Alexandre Melo - Jornal Metas/

"Terra ninguém rouba e não pega fogo". A frase é de um personagem que ajudou a desbravar a distante localidade do Óleo Grande. Quem morou ou ainda mora por lá conheceu ou já ouviu falar de João Bendini. Por gostar de comprar terras ele chegou a possuir uma área de 2,5 milhões de metros quadrados - próximo à capela Santa Catarina de Alexandria. Neste verdadeiro latifúndio, seu João viveu e trabalhou duro por cerca de 70 anos. Construiu família - sete filhos - com Inês Bendini, que nasceu com sobrenome Benassi, outra família tradicional da localidade.

Nas terras de João Bendini plantou-se a árvore popularmente conhecida como Pau de Óleo, que, em função do seu imenso tamanho, deu nome à localidade. Quando seu João comprou as terras, a árvore já havia virado lenha, mas, orgulhoso, ele gostava de contar que a gigantesca Pau de Óleo havia se originado em suas terras. Seu João era filho de imigrante italianos - o pai chegou ao Brasil com sete anos - e, por isso, manteve desde jovem a tradição da religiosidade. Já casado e com sete filhos, ele colocava a família na carroceria do caminhão e seguia para a missa dominical na Igreja Nossa Senhora do Rosário, no bairro Barracão.

Coincidência ou não, seu João morreu em 5 de abril de 1996, uma Sexta-Feira Santa. Sentiu-se mal durante a missa da Paixão de Cristo na Igreja Matriz São Pedro Apóstolo. O coração já andava fraco e batia com a ajuda de um marco-passo. Cinco dias antes, na mesma igreja paroquial, seu João havia celebrado seus 80 anos de vida ao lado de dona Inês, dos sete filhos, netos e bisnetos. "Ele praticamente morreu nos meus braços", relembra o filho João Nivaldo Bendini, de 67 anos. Nesta época, seu João já havia dividido as terras entre os filhos e morava com dona Inês em uma casa no Gaspar Grande.

Nivaldo conta que seu pai era afilhado de outro ilustre morador do Óleo Grande: Amádio Beduschi, que hoje dá nome à estrada geral da localidade. Estrada essa que ele e seus irmãos muitas vezes percorreram a pé e de pés descalços para ir até a escola do Barracão. "Nós caminhávamos cinco quilômetros", conta outro filho, Cláudio Bendini, o Deco, de 63 anos. Os dois irmãos dividem hoje um apartamento no bairro Sete de Setembro. Nivaldo é servidor público aposentado e Cláudio trabalha, há muitos anos, com o transporte de areia e brita.

O pai só permitiu que os filhos frequentassem a escola o tempo necessário para aprenderem a ler e a escrever. Nivaldo estudou quatro anos na escola do Barracão, enquanto Cláudio dois anos na escola do Barracão e outros três na do Óleo Grande. "Não dava tempo de estudar, nossa vida era só trabalhar. As terras eram muito extensas e naquela época não havia tanto maquinário, o serviço era quase todo manual", recorda Nivaldo. Os tempos dos Bendini no Óleo Grande ficaram para trás. As terras foram divididas entre os filhos, que continuaram na agricultura, mas aos poucos foram se desfazendo ds propriedades e cada um seguiu o seu caminho na cidade. "Ninguém mais queria trabalhar na agricultura, é uma vida dura. Nós fomos um dos poucos filhos de agricultores do Óleo Grande que não trabalhou nas fábricas têxteis, quando as empresas começaram a recrutar mão de obra", revela Cláudio. Os cinco filhos homens optaram em continuar ajudando o pai a plantar e colher mandioca e cana de açúcar, matérias-primas básicas para a fabricação de diversos produtos artesanais como farinha, cuscuz. melado, açúcar mascavo, cachaça. O engenho de farinha era movido a roda d' água.

Cláudio só deixou a lavoura aos 33 anos de idade, mas não se arrepende deste tempo. "A vida na agricultura foi um aprendizado, mas chega uma hora que não dá mais, é muito sofrida", admite o ex-agricultor, que tem orgulho de dizer que nunca trabalhou de empregado. "Fui sempre dono do meu negócio". Cláudio diz que não conheceu pessoa de mais caráter que o seu pai e levou para a sua vida um dos ensinamentos dele: "meu pai dizia que o homem tem que trabalhar e ganhar dinheiro todo o dia". E foi assim que Cláudio deixou o campo para se tornar dono de uma empresa de transportes de areia e brita. Hoje, ele tem o seu caminhão e sai para trabalhar depois que o sol já apareceu e retorna antes do anoitecer. "Não é uma vida fácil porque a gente enfrenta o trânsito, mas nem se compara com a de agricultor". Já Nivaldo tem o sonho de terminar o prédio que começou a construir em 2001, na Rua Sete de Setembro. A ideia é juntar a renda de aposentado com a do aluguel dos apartamentos e das salas comerciais. "Vou devagar, mas um dia eu chego lá", brinca.

A Segunda Guerra 

Nivaldo e Cláudio e seus outros irmãos não eram nascidos quando o pai vestiu o uniforme da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e foi lutar na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Seu João era solteiro e tinha 24 anos - ele somente se casaria com Inês nove anos depois. Seu irmão também foi convocado, mas como só podia ir um filho de cada família, João acabou sendo o escolhido e embarcou numa viagem de 17 dias de navio até a Europa.

Nivaldo conta que, na época, uma criança foi batizada de João a pedido do avô. "Ela era irmã do meu pai e meu avô pediu que ela colocasse o nome de João Gabriel Bendini porque ele achava que meu pai não voltaria vivo da guerra", revela.

Mas, o pracinha João Bendini lutou bravamente e voltou com sete marcas de tiros de raspão no uniforme. Segundo Cláudio, era comum as pessoas visitarem a família e pedir para que seu João relatasse fatos dos dois anos que lutou na Segunda Guerra. "Meu pai nunca teve trauma ou problema psicológico para falar da guerra. A única sequela foi uma pequena perda da audição", conta Cláudio. João, porém, não teve o merecido reconhecimento do governo brasileiro. Somente muitos anos depois conseguiu receber do Exércio Brasileiro uma pensão como ex-pracinha, mas nada comparado ao grande serviço prestado à nação.


João Bendini e a esposa Inês / Arquivo pessoal/

Nivaldo conta que um tio também se chama João porque seu avó, na época que o pai foi para a Guerra, pediu que a irmã, que estava grávida, batizasse o filho de João. "Ele achava que meu pai não voltaria vivo da guerra", revela.

Mas, seu João Bendini lutou bravamente e voltou com sete marcas de tiros de raspão no uniforme. Segundo Cláudio, era comum as pessoas visitarem a família e pedir para que seu João relatasse fatos dos dois anos que lutou na Segunda Guerra Mundial. "Meu pai nunca teve trauma ou problema psicológico para falar da guerra. Na verdade, a única sequela foi a perda de um pouco da audição". Seu João, porém, não teve o merecido reconhecimento do governo brasileiro. Somente muitos anos depois conseguiu receber do Exércio Brasileiro uma pensão como ex-combatente, mas nada compara


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