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COLUNA
Por Antonio Gavazzoni | contatogavazzoni@gmail.com

A culpa é nossa

06 Julho 2018 13:34:00


Não fui eu. A culpa não é minha. Eles que começaram. Quando cheguei já estava assim. Não tenho nada a ver com isso. Essas expressões que ouvimos - e usamos, vamos admitir - desde pequenos mostram muito da nossa personalidade como brasileiros e da característica de pouca ou nenhuma autorresponsabilização pelos problemas que nos afetam. Temos sempre uma "entidade" a culpar. Tem frase mais célebre no Brasil que "a culpa é do governo"?

Claro que tem muito problema causado por quem tem o poder de mudar as coisas e não o faz; por quem tem oportunidade de trabalhar pela coletividade e só o faz em benefício próprio. Mas nós, que colocamos essas pessoas nessas posições, também temos culpa no cartório sim. Desde o momento em que escondemos um pequeno delito ou estimulamos nosso filho a fazê-lo estamos fugindo da responsabilidade. Foi falta, mas o juiz não viu. A moça do caixa deu o troco a mais, mas não notou. É proibido estacionar, mas são só cinco minutinhos. Não faz mal a ninguém quando ninguém está vendo. A não ser quando o delito nos atinge.

Aí é feio, é censurável, ficamos de dedo em riste prontos para apontar os culpados. E eles sempre existem. Se tem alagamento, a culpa é do prefeito, não do morador que jogou lixo na rua. Se a arrecadação é insuficiente, a culpa é dos impostos, não do sonegador. Se meu filho briga na escola, a culpa é do colega - ou dos pais dele, que não sabem educar. Isso tudo é transferir responsabilidades.

Pouco vemos quem bata no peito e diga: a culpa também é minha, eu assumo e vou trabalhar para transformar a situação. Provavelmente viveríamos num país melhor se fôssemos mais assim. Porque, ao se tornar culturalmente aceito, esse comportamento do "não é bem assim, podemos dar um jeitinho" acabou ganhando dimensões bem maiores. Hoje somos um dos campeões mundiais em corrupção. Fomos aceitando um favorecimento aqui, uma compra direcionada ali, jogando a culpa ora no político, ora no empresário, ora no modelo de estado. A Lava-Jato está aí para mostrar o sistema que acabou se criando.

Ainda assim, relutamos em assumir nossa parcela de responsabilidade. Experimente iniciar uma discussão sobre algum problema estrutural. A tendência natural é mais apontar os causadores do que unir esforços para a solução. O executivo joga para o legislativo, que joga para o judiciário. O efetivo aponta para o comissionado. O pai culpa o professor. O católico para o evangélico. O gerente culpa o diretor. O vice não sabia o que fazia o governador. E não se chega a solução alguma.

Eu e você, que está aqui lendo esse texto, temos participação em tudo o que afeta a coletividade. Se votamos em quem rouba, mas faz, somos coniventes com o roubo. Se votamos sem informação sobre o candidato, seremos corresponsáveis por seus erros de gestão. Se não participamos do conselho comunitário, não temos como reclamar da insegurança no bairro. Compramos um animal de raça, mas não queremos ver vira-latas na rua. Reclamamos da poluição? A culpa é nossa, se não reciclamos nosso próprio lixo. Precisamos assumir que somos parte do todo. Essa transferência de responsabilidade generalizada tem transformado muitas coisas para pior. Só o fato de não agirmos para transformar uma situação errada já nos torna responsáveis em parte por ela. Assumir problemas é um enorme acerto. E o primeiro passo para resolvê-los.



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