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COLUNA
Pe. Fernando Steffens | fernando.ssteffens@gmail.com

Vinte versículos depois

Padre Fernando Steffens

Para onde teus passos estão te levando? Já parou para pensar a respeito? Quando digo passos, uso como metáfora para escolhas, decisões, liberdades, vantagens tentadoras, horas extras, mentiras disfarçadas, assuntos deixados sob o tapete e tantos outros similares. Em meio a agitação da cidade, engole-nos, sem nos darmos conta, os inúmeros caminhos que se apresentam sem reclamarem discernimento. E aqui está o equívoco traidor. A maré nos leva, os atalhos se tornam rotina, as opções se amontoam fáceis, e daqui a pouco, não sabemos para onde estamos indo. Ou achamos que o caminho é este, quando, na verdade, não é. Eles estavam indo para distante de Jerusalém...(Lc 24, 13).

Assim inicia o autor sagrado a saga de dois discípulos atordoados, desiludidos, decepcionados, sem esperança, com sensação de terem sido iludidos por um tal Jesus, caminham cabisbaixos, passos lentos, olhos tristes, na contramão do caminho certo. Mais parecem estar perambulando pelas ruas de São Paulo, de Nova York, de Hong Kong ou de Tóquio, em pleno século XXI, como se vê por elas a humanidade andar.

A conversa é demorada, as justificativas se fazem muitas, os olhos e o coração teimam em permanecer obscuros. Sequer reconhecem quem é aquele que caminha, que dialoga, que se interessa, que ouve, que explica, que finge ir mais adiante. Não se trata apenas de uma jornada diária, findada ao entardecer e que recolhe em seu cesto as migalhas de um dia difícil. Eles somos todos nós em nossos passos descompassados e trôpegos, quando tomam a direção contrária da vida, a direção oposta à cruz por achar que outro caminho é possível, é menos distante e talvez seja mais doce. Ledo engano.

Mas há um ponto de tangência, há uma curva apontando outro Norte, há um convite aguardando oportunidade: fica conosco. O dom da liberdade e a resposta da fé trafegam outra vez na mesma direção e reorientam a bússola do destino. O próprio andarilho, que agora já não está mais sem abrigo, sorri disfarçadamente sabendo que o mistério celebrado em sua memória está prestes a se fazer pão. Ele mesmo, desconhecido até então, aquecerá o interior e tudo em volta será iluminado pela mesma luz que de Jerusalém ainda brilha. E vinte versículos depois (Lc 24, 33), retornam pelo mesmo caminho, imediatamente, pois o amor tem pressa, para anunciar a Páscoa, depois de têla experimentado.

O que mais impressiona é a delicadeza do disfarce. Deus não tem medo de fazer-se de desentendido quando é preciso resgatar uma vida. Ele que já se havia feito homem, feito pecado, feito cordeiro, faz-se também forasteiro. Deus vem de longe para buscar quem está distante. Da cruz seu olhar alcança mais além, e ao avistar, põe-se a caminho, sem descansar, até que vinte versículos depois, nada tenha sido em vão.