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COLUNA
Pe. Fernando Steffens | fernando.ssteffens@gmail.com

Carta penitencial

Gostava de cantar A flor mimosa:

"Nas pétulas de ouro

que esta flor ostenta..."

Pétula, a palavra errada,

agulha no coração,

uma certa vergonha,

culpa por lhe ter dito:

é pétala, pai, é pétala.

Ah! Pois venho cantando errado a vida inteira.

Que vale essa lembrança?

Cinquenta anos já e a agulha tornada faca,

sua lâmina ainda vibra.

É excruciante o amor,

mas por nada no mundo trocarei sua pena.

(A sempre-viva)

Simplesmente não pude não vir escrever. E o que direi é, de certa forma, a antecipação da dor, da minha dor pelas correções tão rotas feitas ao meu pai, à minha mãe, a um idoso qualquer que tenha me irritado em suas repetições tortas. E, depois que eles partirem, também comigo se fará excruciante o amor. Em minha oração desta manhã caiu-me nas mãos este poema, do livro Miserere, da Adélia Prado, presente de um amigo, e me fez repensar tanta coisa. 

Cinquenta anos que ainda nem vivi, mas experimentados antecipadamente por meio da alma de uma mulher que respira poesia e, por isso, alcança a profundidade e a intensidade escondidas em nossos próprios erros.

Talvez seja preciso rele-lo várias vezes até alcançar cada palavra e cada sentimento que atrás delas se escondem, tal como é preciso fazer silêncio para  ouvir o que o coração tem para nos dizer em suas recordações. Há muita coisa empoeirada aqui dentro - isso em cada um. Coisas que somente a muito custo se enxerga, se vê, se experimenta novamente. Que maravilha de Deus o país das memórias. Fazendo fronteira com o país das lágrimas nos proporcionam ambos passeios e paisagens originais. Ainda mais encantador o universo da poesia, que capta flagrantes n'alma, invisíveis de outro modo. 

Estranho porque que sempre há algo que nos irrita nos mais velhos que nós, particularmente, nos pais. Uma mania, um gosto, um trocadilho, o costume que já havia desde antes da nossa existência, uma piada sem graça, a insistência em quererem nos governar, mesmo depois de grandes... E quanta falta nos fará esses incômodos depois que só restar nós, os incomodados. Quem se dá conta disto a tempo? Que fazer para evitar presságio tão infeliz? Como a poesia de Adélia vem em nosso socorro? Que correções vale a pena serem feitas ao próximo? A que degustes nos furtamos quando não saboreamos a poética presente na ingenuidade quase tosca, na mesmice irritante, no desconforto das escutas repetidas, fotografias que nos causarão vazios, cinquenta anos mais tarde.

Perdoe-nos, perdoe-me, vós que sois mais velhos e que tanto repúdio interno me fazes sentir - por minha culpa, minha tão grande culpa. Perdão por eu não ser capaz de suportar, com a paciência que mereces, tua própria presença e alguns de teus jeitos por mim considerados culpados. Peço tua anistia hoje, sabendo que terei que concede-la a alguém um dia. Em que sou eu diferente de ti? Que arrogância é esta que depõe contra mim quando nem consigo me dar conta do quanto, desde já, também me torno insuportável a alguns.

Os versos nus e atrevidos de Adélia, experimentados em sua carne, revelaram que "pétulas de ouro" valem mais do que rosas de marfim. Tais "pétulas" é corolário poético, é filigrana de sabedoria, é símbolo da simplicidade, é deflagração da caridade que ainda me falta. 

Pe. Fernando Steffens