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CASO JAGUAR

Um ano depois famílias ainda se recuperam do trauma

Enquanto aguardam por justiça, familiares e amigos das cinco jovens envolvidas no acidente voltam a se manifestar, neste domingo (23)

Kássia Dalamgro - jornalismo2@jornalmetas.com.br


Foto: Arquivo Jornal Metas/

No dia 23 de fevereiro de 2019, cinco jovens amigas tiveram suas vidas interrompidas ou transformadas após se envolverem em um grave acidente de trânsito na BR-470, em Gaspar. A colisão entre o Fiat Palio em que elas viajavam e um veículo Jaguar aconteceu por volta das 6h, no Km 42 da rodovia, e matou Suelen Hedler, 21 anos, e Amanda Grabner Zimmermann, de 18. No carro estavam ainda a motorista, Thainara Schwartz, de 22 anos; Maria Eduarda Kramer, 25 anos; e Thayná Carolina Círiaco, de 21 anos. Elas sobreviveram ao acidente mas até hoje carregam o trauma e tentam seguir em frente depois daquela fatídica manhã de fevereiro.

O "caso Jaguar", como ficou conhecido, causou comoção e revolta não somente na região, mas em todo Estado. A grande repercussão deve-se ao fato de que o motorista do veículo de luxo dirigia sob efeito de álcool - Evânio Prestini, 32 anos, foi submetido ao teste do bafômetro, que apontou 0,72 miligrama de álcool por litro de ar expelido. O Jaguar trafegava no sentido Blumenau - Gaspar e o Fiat Palio no sentido contrário. Em um certo momento, os dois veículos se cruzaram na rodovia e colidiram frontalmente, após Evanio invadir a pista contrária.

Neste domingo (23), exatamente um ano após o acidente, familiares e amigos das jovens estarão, mais uma vez, reunidos para pedir justiça. A mobilização está marcada para às 10h e será realizada em frente ao Fórum da Comarca de Blumenau, no bairro da Velha. "Faremos um ato pacífico, igual aos outros já realizados. Nossa intenção é estar em frente à casa da Justiça. Estas meninas não serão somente mais uma estatística, lutaremos até o fim", emociona-se Elizabete Grabner, tia e madrinha de Amanda. Ela se mostra esperançosa para o fim do processo. "Acredito na justiça e é por este motivo que continuamos esta luta diária. A justiça, para mim, seria primeiramente o réu assumir o erro dele. Depois ser julgado e condenado, conforme o entendimento da nossa justiça terrena, porque a de Deus ele não escapará". Elizabete, assim como a família e amigos da jovem Amanda, ainda sofrem muito com a perda. "Parece um pesadelo. É como se a qualquer momento ela fosse aparecer e nos dizer que está tudo bem", afirma. A madrinha da jovem lamenta a indiferença por parte de Evanio e sua família. "Até hoje não recebemos nenhum tipo de manifestação solidária por parte dele ou de seus familiares. Empatia zero, humildade zero, respeito zero", lamenta.

A irmã de Suelen, Silvana Hedler Silveira, diz que o sofrimento da família aumenta a cada dia. "Não tenho palavras para descrever a saudade que ela nos traz. Cada data, cada detalhe, cada conversa... ela está em tudo. Por muitas vezes tentamos nos distrair colocando um sorriso no rosto, mas por dentro é só tristeza", emociona-se. A família estará na manifestação neste domingo. "Esperamos por justiça e não vamos desistir até que ele pague por isso. Nada vai trazer elas de volta, mas isto é o mínimo que esperamos", desabafa.

Vídeos

O acidente repercutiu em todo Estado não só pela brutalidade e inconsequência do motorista do Jaguar, mas por conta de um vídeo, que circulou na internet ainda no dia da tragédia, mostrando Evanio dirigindo o Jaguar em zigue-zague na BR-470. A gravação foi feita pela esposa do motorista de um veículo que acompanhou, por um período, o Jaguar na rodovia. Silvio Bambinetti, que é morador de Ibirama, também telefonou para a Polícia Rodoviária Federal - áudio também gravado - avisando da condução perigosa do motorista do Jaguar. O vídeo foi feito por volta das 5h40min, entre as cidades de Ascurra e Indaial - cerca de 40 minutos antes do acidente fatal. Em nota oficial, a PRF admitiu, na época, ter recebido dois telefonemas denunciando a conduta do motorista do Jaguar. A instituição lamentou a tragédia que tirou a vida das duas jovens e abriu investigação para apurar o procedimento dos policiais de plantão. O inquérito ainda não foi concluído. Dias depois, também começou a circular na internet um vídeo de Evanio horas antes do acidente, bebendo com amigos em uma pizzaria, em Rio do Sul.

Liberdade  

Logo após o acidente, Evanio foi preso em flagrante; no dia seguinte, teve a prisão convertida para preventiva e levado para o Presídio Regional de Blumenau. Na época, os advogados de Evanio pediram a revogação da prisão, que foi negada pela Comarca de Gaspar. A defesa, então, entrou com o pedido de uma liminar de habeas corpus no Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), que também foi negado. Quase duas semanas depois, no julgamento do Colegiado, os desembargadores decidiram por manter Evanio no Presídio Regional de Blumenau. Os advogados recorreram então ao Superior Tribunal de Justiça que, no dia 24 de julho, ou seja, cinco meses após a prisão, concedeu liberdade provisória ao réu. Evanio aguarda agora o Júri Popular - ainda sem data. Ele será julgado por dois homicídios e três tentativas de homicídio. Se condenado, a soma das penas podem ultrapassar a 30 anos.


"MINHA MOTIVAÇÃO DESDE AQUELA DIA FOI PENSAR NA SUELEN E NA AMANDA. PENSAR QUE AS DUAS MERECEM QUE NÓS LUTEMOS POR JUSTIÇA."

Foto: Divulgação/

Thainara Schwartz, 22 anos, era quem conduzia o veículo Fiat Palio onde estavam as cinco amigas. Elas voltavam de uma festa no litoral onde, para a segurança de todas, Thainara não bebeu. A jovem foi submetida ao teste do bafômetro logo após o acidente, que confirmou que ela não havia ingerido bebida alcoólica. A redação do Jornal Metas conversou com Thainara, que falou sobre oq ue está fazendo para superar o trauma do acidente e da perda das amigas.

Jornal Metas: Como você se sente hoje, um ano depois do trágico acidente?

Thainara Schwartz: Na verdade, sinto como se o acidente tivesse acontecido ontem. Para mim, um ano ou 10 anos não vão ser nunca suficientes para superar o que aconteceu. Foi um choque irreparável na minha vida, uma parte de mim foi levada junto com minhas amigas naquele dia. 

JM: O que mudou em sua vida depois do 23 de fevereiro de 2019?

Thainara: O acidente mudou completamente a minha vida, parece que na verdade a vida que eu tinha antes se foi e abriu espaço para uma vida menos completa. Existe a Thainara de antes do acidente, uma Thainara completa, cheia de expectativas, totalmente cheia de paz interior e positividade que não existe mais. Ela deu lugar para uma Thainara mais presa ao chão, mais fria, e aquela Thainara de antes não volta mais.

JM: Você já conseguiu superar o trauma do acidente? Precisou ou ainda precisa de ajuda de profissionais?

Thainara: Superar, como eu disse, é difícil pois o trauma foi grande demais. Precisei e ainda preciso de ajuda profissional para conseguir seguir em frente, mas como minha família e eu não temos muita condição financeira fica difícil ter um acompanhamento sempre.

JM: Mas você não recebeu nenhum auxílio da família de Evanio?

Thainara: Não recebi e não recebo nenhum auxílio nem dá família e nem do próprio Evanio. Na verdade, nenhum simples consolo ou pedido de desculpas que era o mínimo que podiam ter feito, não o fizeram. O que me deixa mais triste é saber que nem se quer a própria família dele veio atrás de nós para pedir desculpas.

JM: Você espera por justiça. Mas qual seria de fato a justiça para você?

Thainara: A maior justiça para mim seria o próprio Evânio assumir o seu erro e sentir o peso de carregar duas mortes em suas costas. Não sinto raiva e nem rancor do próprio, só gostaria realmente que ele assumisse a culpa. Quero que o júri popular seja marcado logo, para podermos virarmos esta página.

JM: Você vai estar na manifestação deste domingo?

Thainara: Não posso dar certeza de que estarei lá, é complicado, vai ser um dia muito difícil para mim.

JM: Como fazer para seguir em frente?

Thainara: Minha motivação desde aquele dia foi pensar na Suelen e na Amanda. Pensar que as duas merecem que nós lutemos r por justiça. A memória das duas sempre estará no meu coração, isso me dá vontade de cada vez mais lutar por elas e seguir em frente. Tenho certeza que nenhuma das duas iria querer que eu parasse minha vida completamente. Minha força vem delas.

JM: Você ainda tem contato com a Maria Eduarda e Thainá?

Thainara: Mantemos contato sim, mas não comentamos sobre o acidente porque é muito doloroso para todas nós.


CRONOLOGIA

23/02/2019 - Às 5h20min, Sílvio Bambinetti liga para a PRF e informa que o Jaguar estava fazendo zique-zague na BR-470, em Ascurra. O veículo, porém, não foi interceptado pelos policiais.

23/02/2019 - Às 6h20min acontece a colisão entre o veículo Jaguar e o Fiat Palio, no Km 42 da BR-470, em Gaspar. Suelen Hedler morre no local. Evanio Prestini é submetido ao teste do bafômetro e preso em flagrante.

23/02/2019 - Horas depois, é confirmada a morte de Amanda Grabner, que havia sido levada ao hospital, em Blumenau.

24/02/2019 - Evanio tem a prisão em flagrante convertida para prisão preventiva. Ele segue recluso no Presídio Regional de Blumenau.

06/05/2019 - Familiares e amigos das jovens fazem manifestação pacífica em frente ao Fórum da Comarca de Gaspar, no mesmo horário em que foi realizada a primeira audiência de instrução de Evânio.

06/06/2019 - A juíza Camila Murara Nicoletti anuncia sua decisão: Evanio vai a Júri Popular, denunciado por dois homicídios e três tentativas de homicídio.

29/07/2019 - Na terceira instância, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) expede liminar que concede liberdade provisória a Evanio, que deixa o presídio no mesmo dia. 

27/11/2019 - Juíza Camila Murara Nicoletti indefere o pedido da defesa para que Evanio passasse as férias de fim de ano em Balneário Camboriú, com a família.


As cinco amigas horas antes do acidente: Da esquerda para direita: Thayná, Maria Eduarda, Suelen, Amanda e Thainara / Foto: Divulgação/





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