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Projeto vai resgatar a história do povo negro em Gaspar

Com incentivo da Lei Aldir Blanc, Movimento Afro Raízes vai revisitar a participação do negro na sociedade gasparense

Alexandre Melo

FOTOS DIVULGAÇÃO

Rodas de conversa, organizada pelo Movimento Afro Raízes, discutem a situação do negro na sociedade  

"Existe uma história do povo negro sem o Brasil, mas não existe uma história do Brasil sem o povo negro". A frase é do fotógrafo mineiro Januário Garcia, e serve à história de muitas cidades colonizadas predominantemente por brancos, como Gaspar. De acordo com o último censo do IBGE, de 2010, 2,7% da população de Santa Catarina se auto declarou negra. Em Gaspar, a presença do negro é também bastante reduzida, mas nem por isso este povo deixou de ter importância na formação da sociedade, desde a época da ocupação da Freguesia, em meados do século XIX. Todavia, a história o ignorou ou, no mínimo, pouco discutiu a sua relevância. Pois chegou a hora de tirar essa história de trás da cortina e responder a algumas perguntas sobre a participação do negro na formação da sociedade gasparense: Quem somos? E de onde viemos? A busca por estas e outras respostas é o ponto de partida de um trabalho inédito no município - "O Negro na História de Gaspar" -, recentemente contemplado com recursos financeiros da Lei Aldir Blanc de incentivo à cultura no Brasil e que já está em andamento. A proposta, segundo a professora de Artes, Ângela Maria Rosa Custódio, é resgatar da história do povo negro gasparense que vive na cidade há mais de 50 anos e, consequentemente, tentar conhecer mais sobre a origem desta presença. Para isso, o Movimento Afro Raízes do Vale, que tem na professora uma das integrantes, iniciou as visitas e entrevistas com as famílias negras de oito bairros do município. À frente desta primeira coleta de informações estão as professoras e historiadoras Marilda Spengler e Débora Fernandes, além de outros pesquisadores e integrantes voluntários do Afro Raízes do Vale.

"Com este recorte específico conseguiremos saber onde as famílias negras se instalaram ao chegarem a Gaspar", explica Ângela. Porém, para atingir o objetivo completo, a professora diz ser necessária a ajuda de todos. "Já visitamos algumas famílias e precisamos dos contatos das demais que se encaixam no perfil se o representante mais idoso já for falecido outra pessoa da família poderá representá-lo", argumenta. De acordo com o cronograma, as entrevistas encerram no próximo dia 26 de janeiro. "Pedimos que entrem em contato pelo Whatsapp (47) 99637-3653", reforça Ângela.


Ângela está à frente do projeto que busca resgatar a história do negro em Gaspar



O projeto

Com o mapeamento geográfico, iconográfico e documental da história do povo negro gasparense, o Movimento Afro Raízes do Vale espera reunir um vasto material para divulgação, exposição e acervo do município. O projeto contempla a visita a famílias negras aos bairros São Pedro, Santa Terezinha, Gasparinho, Figueira, Bela Vista, Centro, Sete de Setembro e Coloninha. "Queremos mensurar a quantidade de pessoas que compõem essas famílias, saber suas origens e resgatar suas histórias por meio de acervo bibliográfico, documental das próprias famílias, registros iconográficos e entrevistas", afirma a professora.


Movimento Afro Raízes surgiu, em Gaspar, em 2016 

Ângela não tem dúvida de que a história do povo negro vem sendo deturpada no decorrer dos séculos na cultura, religião e estética. "Torna-se necessário revisitar a história e mostrar a relevante contribuição deste povo na formação da identidade nacional. Os negros acabam desconhecendo suas origens e aceitando a anulação da sua história", observa. Segundo ela, o acervo bibliográfico e documental de Gaspar é muito pequeno quando se refere à presença do povo negro na formação da sociedade. E quando existe alguma referência histórica, Ângela diz que isto ocorre de maneira pejorativa. "Os negros não têm sobrenome, aparecem como propriedade de grandes proprietários de terra e descritos como escravos, que serviam apenas como mão de obra. As histórias destas pessoas foram simplesmente anuladas", argumenta Ângela.

A urgência deste resgate, reforça a professora, se dá principalmente pelas memórias das pessoas mais velhas que acabam partindo e levando consigo uma bagagem imensurável de informações, contada por quem vivenciou cada momento. "A verdadeira história precisa ser contada pelos sujeitos que as vivenciaram, ser documentada, precisamos que o povo negro fale por si só e assim teremos o outro lado da moeda, a versão oculta", defende a professora. O acervo gerado pelo projeto, lembra Ângela, será muito útil para o arquivo histórico do município e do grupo Afro Raízes do Vale, contribuído para a ampliação e diversidade cultural de Gaspar.

O material pesquisado também será apresentado à mídia local e publicado nas redes sociais. O período previsto para a primeira exposição é o da semana de aniversário do município, em 18 de março. Posteriormente vão ocorrer exposições itinerantes nas escolas de Gaspar. A manutenção desse cronograma ainda dependerá da situação da pandemia no município.





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