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ARQUEOLOGIA

Pesquisadores fazem novas descobertas sobre o Sambaqui Ilhota 2

Um dos esqueletos pertenceu a uma mulher, com idade entre 20 e 30 anos


Sambaqui Ilhota 2 pode ser um dos mais antigos já localizados em Santa Catarina e, também, do Brasil

Quase um ano após a escavação do Sambaqui Ilhota 2, análises em laboratório levaram os pesquisadores a algumas revelações sobre o modo de vida das populações que viviam no Vale do Itajaí há quase 6 mil anos. A área do sítio arqueológico tem cerca de mil metros quadrados e fica localizada próxima à entrada do bairro Pedra de Amolar, distante 18,5km do litoral. A descoberta aconteceu em 2017, por ocasião das obras de duplicação da BR-470, porém, as escavações somente ocorreram em maio de 2018, depois de autorizadas pela IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O consórcio Sotepa/Ivaí, responsável pelas obras de duplicação da rodovia naquele trecho, contratou a empresa Espaço Arqueologia, de Tubarão, no sul do Estado, para o trabalho de coleta e levantamento do material encontrado. O estudo envolveu pesquisadores das áreas de biologia, história, arqueologia e afins. 

No sambaqui foram encontrados dois esqueletos humanos, um feminino, que foi alvo de estudos, e outro de sexo não identificado, além de ossos de peixes, fogueiras e conchas do mar. Os estudos indicam que, quando construído, o sambaqui estaria situado em uma pequena ilha estuarina, ambiente aquático de transição entre o rio e o mar. A ilhota teria sido um refúgio para eventos ritualísticos, contexto evidenciado pelas condições do sepultamento de um membro do grupo que viveu há aproximadamente 5.880 anos. Com a regressão do nível do mar, a região passou a fazer parte do continente como conhecemos hoje.

O esqueleto estudado pertenceu a um indivíduo do sexo feminino com idade entre 20 e 30 anos, cuja causa da morte é ainda desconhecida. A mulher foi sepultada em cova rasa, deitada de lado e com as pernas e braços parcialmente dobrados. Após análise dos ossos foi possível constatar que, no primeiro momento do ritual, pigmentos vermelhos de origem mineral ferroso, popularmente conhecido como ocre, foi pulverizado sobre o corpo. Após o tingimento foi construída uma grande fogueira ao lado da cova, onde foram consumidos muitos peixes, e seus ossos jogados ao fogo. Então, no último momento o corpo foi coberto por um monte com cerca de 50 cm de conchas.

O contexto encontrado está diretamente relacionado com o modo de vida praticado pela comunidade. Por meio da observação de microvestígios, especificamente fitólitos (resíduos de plantas), realizada pelo biólogo Alexandre Silva, foi possível esclarecer um pouco mais sobre os hábitos alimentares do grupo de pescadores-coletores. O pesquisador estimou a dieta do grupo por meio da análise de dois tipos distintos de vestígios: ossos de animais encontrados no entorno do sítio, e fitólitos, materiais extraídos dos tártaros encontrados na carga dentária da mulher.

A grande quantidade de ossos de peixes encontrados aponta para a base alimentar deste grupo, contendo espécies que são consumidas na região até os dias atuais, como Robalos, Bagres e Corvinas. Além de outros menos conhecidos como Miraguaias, Cangauá e Sardo-de-dente. A análise do material indica a pesca de pequenos peixes que viviam nas partes rasas da lagoa, cuja captura possivelmente teria sido feita com auxílio de plantas tóxicas que causam paralisia, possibilitando sua pesca em grandes quantidades. Essa técnica conhecida como "timbó" foi utilizada por diversos grupos no passado. Como complemento alimentar, consumiam moluscos, frutas variadas, taioba, inhame, ervas, grãos e rizomas (parte entre a raiz e o caule).

Segundo o biólogo e arqueólogo Thiago Torquato, "o licenciamento ambiental possibilita que a pesquisa arqueológica alcance locais que à primeira vista despertariam pouco interesse da comunidade acadêmica, mas acabam por trazer à tona importantes descobertas sobre o passado dos grupos humanos que ocuparam a região, muito antes da vinda dos europeus ao Brasil".

Em entrevista em setembro do ano passado, o arqueólogo e diretor da Espaço Arqueologia, Valdir Luiz Schwengber, afirmou que o objetivo do estudos em sambaquis - hoje são mais de 120 em todo o Estado - é contribuir para um maior entendimento em torno das dinâmicas de ocupação, o ambiente e as formas de vida e sobrevivência no nosso território há milhares de anos pelos grupos de pescadores, caçadores e coletores. O Vale do Itajaí, segundo ele, é a região do Estado com menor número de sambaquis. Daí porque a relevância do sítio arqueológico encontrado em Ilhota. Aliás, o segundo existente no município vizinho. O outro foi descoberto na década de 1970, porém, Schwengber não sabe precisar a sua localização. O sambaqui agora descoberto recebeu o nome de Sambaqui Ilhota 2 e pode ser considerado um dos mais antigos já encontrados no Estado e, talvez, no Brasil.



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