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COVID-19

Gasparenses pelo mundo em tempo de coronavírus

Eles relatam as medidas adotadas pelos governos e o que mudou nas cidades onde vivem

Essa reportagem pode ser lida,resumidamente, em nossa edição impressa desta quarta-feira,dia 25

Diante da pandemia de Coronavírus, a preocupação não é apenas com quem está próximo. Muitos gasparenses vivem hoje no exterior. Em todos os continentes existem pessoas que saíram de Gaspar em busca do sonho de uma vida melhor em um país mais desenvolvido. Familiares, aqui no Brasil, buscam notícias e as conversas online têm ajudado a tranquilizar as famílias. Na Europa, hoje o epicentro da pandemia, existem gasparenses morando em praticamente todos os países. A reportagem do Jornal Metas entrou em contato com alguns deles e colheu depoimentos emocionantes, como o de Janete Darós, 54 anos, que há 25 anos vive em Milão, na Itália, região da Lombardia, onde foram registrados, até agora, o maior número óbitos causados pelo COVID-19 em todo o mundo.


Em isolamento social há um mês, ela, o marido italiano Savèrio Ventrice, que trabalha como eletricista, e o filho Alessandro, de 14 anos, não sabem quando vão poder retomar a vida normal. O governo italiano já adiou por diversas vezes o fim da quarentena. A última notícia, segundo ela, é que o isolamento vai continuar, no mínimo, até 18 de abril, mas não existe nada decidido. "Vai depender dos casos estabilizarem, o número de mortes tem se mantido nos mesmos patamares há alguns dias, mas o número de doentes segue aumentando", explica.

Até lá, a família precisa permanecer reclusa e uma única pessoa é autorizada a sair de casa. Janete pode sair uma vez por semana, antes precisa preencher um formulário online, descrevendo exatamente em quais lugares vai. Munida deste documento e com a sua identificação, ela vai à farmácia e supermercado, hoje os únicos estabelecimentos que permanecem funcionando em Milão, uma cidade de 1,4 milhão de habitantes. Se for pega em outro local recebe multa. Nas ruas as pessoas pouco se falam e mantém distância uma das outras. "Todos estão obedecendo às determinações", afirma Janete. O filho tem aulas online por uma hora todos os dias. A televisão, computador, ginástica, jogo de cartas e livros têm sido os passatempos da família. As pessoas estão proibidas de irem aos hospitais. O primeiro contato é pelos números de emergência. "Se o quadro clínico se agrava, os médicos vêm até à residência, jamais deve-se ir ao hospital, pois existe o risco muito grande de você estar com um outro tipo de gripe e acabar pegando o Covid-19. Uma pessoa contaminada pode passar o vírus para até cinco outras", explica Janete. Na opinião dela, a Itália chegou a essa situação porque as autoridades não tomaram as medidas necessárias de prevenção, como fechar as fronteiras das cidades. "Suspenderam primeiro as aulas, mas os estudantes universitários retornaram para as suas cidades, muitos deles já infectados com o COVID-19, o que de fato acabou por espalhar o vírus para outras cidades", observa Janete.

Felizmente, ela não perdeu amigos e familiares do seu marido, mas há muitas pessoas sofrendo nos hospitais de Milão e cidades vizinhas. Nas ruas, conta Janete, o silêncio é apenas quebrado pelo latido dos cães ou o som das sirenes das ambulâncias. Quando a situação se agravou, a primeira coisa que ela fez foi ligar para a sua família em Gaspar e relatar tudo o que estava acontecendo. "Alertei todo mundo que eu pude aí no Brasil, pedi para se prevenirem", revela. Janete diz que gostaria de também estar perto dos seus familiares e amigos no Brasil, e manda um recado para os brasileiros: "se vocês gostam das pessoas que estão à sua volta precisam ficar em casa, é uma questão de amor próprio e a quem você ama". No rosto dos italianos, a gasparense percebe uma angústia para que tudo acabe logo. "É muito triste, pois vão morrer mais pessoas, por isso é preciso cada um pensar o que de fato quer para si, seus familiares e amigos. Eu não sei exatamente o que os brasileiros querem neste momento, mas nós, aqui na Itália, queremos as nossas vidas de volta", finaliza emocionada.


Grande presença de chineses


No Canadá, onde reside a gasparense Schirley Dalmagro, 36 anos, o primeiro caso de COVID-19 foi confirmado no dia 25 de janeiro, em Ontário. Entretanto, já se falava do vírus no país desde quando começaram a surgir os primeiros casos na China. "Como temos uma comunidade chinesa grande no Canadá e fortes relações econômicas com a China, desde que o governo chinês relatou os primeiros casos, os canais de comunicação começaram a divulgar diariamente informações a respeito", relata.

Porém, a gerente financeira de uma empresa de E-Commerce, que mora em Vancouver desde 2014, afirma que no início as informações eram divulgadas como um alerta pelo que estava acontecendo na China e em alguns outros países e, até então, nenhuma mudança drástica aconteceu na rotina dos moradores. Tudo começou a mudar quando o número de casos aumentou e os primeiros com transmissão comunitária foram registrados. "Hoje, a maioria das empresas, com exceção de serviços não essenciais, já adotaram a política de home office e o governo anunciou medidas de isolamento. A circulação foi restringida, os serviços não essenciais foram paralisados e orientou-se para o isolamento social, principalmente para quem retorna de viagens. Saídas para caminhadas e exercícios estão autorizados apenas em lugares abertos e não em grupo", conta. Schirley

A gasparense conta que nos primeiros dias houve pânico. "Começaram a aparecer nas mídias sociais histórias de pessoas brigando por papel higiênico em supermercados ou comprando grandes volumes de produtos essenciais (álcool gel, produtos enlatados e coisas do tipo), deixando as prateleiras vazias". A situação, segundo ela, só se estabilizou depois que o governo garantiu que supermercados e farmácias continuariam abertos. "Mas ainda faltam alguns produtos", revela.

Questionada se sente medo, Schirley afirma que a maior preocupação é em relação ao impacto econômico que a pandemia causará mundialmente, afetando a vida de todas as pessoas a longo prazo.

Em relação às fronteiras, ela conta que o governo canadense inicialmente proibiu a entrada de não residentes ou cidadãos vindos do mundo inteiro, com exceção dos Estados Unidos. Dois dias após esta decisão, as fronteiras com os EUA (terrestres, marítimas e aeroportos) também foram fechadas.


Desabastecimento na Alemanha


A jornalista Júlia Schafer Dourado, 28 anos, reside há pouco mais de um ano em Berlim, na Alemanha. Ela conta que começou a se falar do coronavírus no país em janeiro, mas que o primeiro caso só foi registrado dois meses depois. "Falavam que a doença não chegaria até aqui. Porém, agora já temos mais de 20 mil casos, sendo pouco mais de mil só em Berlim".

As medidas para evitar a proliferação do vírus, conta Júlia, foram adotadas aos poucos. "Primeiro, o governo orientou as pessoas, pediu para que fossemos conscientes em relação ao problema e imediatamente iniciou o tratamento dos pacientes graves. Mas, na última semana, teve início o isolamento social, com a orientação de se trabalhar de casa e não sair, caso não tenha necessidade. Podemos ir ao supermercado, a farmácia e praticar exercícios ao ar livre, desde que seja sozinho", diz.

Nesta semana, o governo da Alemanha endureceu as restrições e passou a proibir qualquer evento ou encontro entre duas pessoas ou mais. "A ordem é ficar em casa", afirma Júlia.

Assim como em outros países, quando os casos começaram a aumentar na Alemanha, não houve pânico, mas as pessoas passaram a estocar produtos e comida. "Falta produtos nos mercados menores. Precisamos ir mais longe para encontrar certas coisas e, mesmo assim, às vezes não tem. Quem trabalha o dia inteiro e só consegue ir ao supermercado à noite não consegue mais encontrar papel higiênico, macarrão, molho de tomate e pão".


Quarenta na maior cidade norte-americana


A gasparense Silvia Verga, 46 anos, reside em Nova Iorque desde 1998. O estado concentra quase metade dos casos de COVID-19 no país, que hoje ultrapassam 20 mil. O número de casos mais que dobrou na última semana e acendeu o alerta máximo. A Time Square, por onde transitam cerca de 37 milhões de pessoas anualmente, hoje está vazia. A fronteira com o México está parcialmente fechada e, assim como em outros países, a ordem agora é ficar em casa. Silvia diz que as escolas foram fechadas no dia 13 de março e, desde então, os alunos frequentam aulas virtuais. "As pessoas foram convocadas a permanecerem em suas residências, saindo apenas se for realmente necessário. Até as consultas médicas estão sendo feitas pela internet", afirma.

Os restaurantes estão fechados para o público, oferecendo apenas os serviços de entrega. "Levamos a comida para casa, evitando o máximo de contato possível entre uma pessoa e outra. Nos supermercados não há falta de comida e nem de produtos, mas existe controle. É formada uma fila do lado de fora do estabelecimento, para evitar aglomerações. Além disso, só podemos comprar uma quantidade limitada de alimentos e mantimentos", revela.

Duas semanas atrás, Silvia conta que o pânico era grande entre as pessoas. "Agora a fase do medo já está mais amena, sendo substituída pela incerteza. Entramos na fase do que vai ser daqui para frente? Não sabemos quando e por quanto tempo ainda teremos que enfrentar essa situação, mas vamos superar", conclui Sílvia.


Em Portugal, idosos insistem em ir para as ruas


Uma população de 10 milhões de habitantes, boa parte dela com mais de 60 anos. Portugal apresenta números inferiores do coronavírus em relação a outros países da Europa, mas as preocupações são grandes, principalmente com os mais idosos.

Enquanto esse texto é escrito, Portugal registra mais de 2 mil casos. A curva de crescimento do número de casos por dia continua a assustar, apesar de haver uma expectativa mais otimista em relação de quando o país vai sair da pandemia.

O jornalista blumenauense, mas filho de gasparenses, Giovanni Ramos, que já trabalhou no Jornal Metas e mora desde 2016 na cidade de Covilhã, em Portugal, diz que a expectativa otimista deve-se muito ao comportamento da população. "O decreto de Emergência do governo foi publicado na última quinta-feira (19), mas desde o dia 12 de março o país já vive em quarentena. Universidades, boates, escolas, tudo fechou antes do decreto. A população em geral respondeu ao pedido para ficar em casa e deixou as cidades desertas antes mesmo de a situação tornar-se crítica", conta Ramos.

No início, segundo ele, a própria população pegou no pé dos mais jovens, que aproveitaram o fim das aulas presenciais para irem à praia, bares, festas. "Mas, há uma semana a preocupação inverteu-se: os jovens estão em casa e os mais idosos, acostumados com uma rotina de cafés, são os que mais resistem às medidas de quarentena, mesmo estando nos grupos de risco".


Escolas fechadas e população em isolamento na capital inglesa


Em Londres, na Inglaterra, onde reside a ilhotense Raquel Corsani os primeiros casos de COVID-19 surgiram em meados de fevereiro, quando todas as pessoas vindas da China eram colocadas em quarentena. Fora isso, a vida seguia normal no Reino Unido. "Foi somente no dia 13 de março que o Primeiro Ministro aconselhou as pessoas a não frequentarem bares, cinemas e restaurantes. Uma pequena quantidade de pessoas começou, então, a evitar lugares com muita gente", recorda Raquel que tem fortes ligações com Gaspar. Sua mãe, Rosália Corsani, foi por muitos anos professora da escola Mário Pederneiras, no bairro Lagoa.

Mas, nos supermercados, a grande procura pelos produtos revelou o pânico. "Começou a faltar produtos de limpeza, gel e papel toalha. Agora já falta tudo. A maioria dos supermercados está vazio faz uma semana. Não há carne, verduras, frutas, enlatados e arroz. Até mesmo bebida alcoólica, chocolate e salgadinhos não há mais nas prateleiras", revela.

Raquel conta que no dia 18 de março as escolas foram fechadas e, nesta semana, o governo se pronunciou novamente, pedindo que as pessoas permaneçam em casa. "Ainda podemos sair para caminhar ou andar de bicicleta, por exemplo, mas é necessário fazer isso sozinho, mantendo dois metros de distância das outras pessoas".

A ilhotense, dona de uma creche particular, teve que suspender as atividades, seguindo a ordem do governo. "Estou com medo, pois conheço pessoas que pegaram o vírus, mas felizmente, estão se recuperando. Elas dizem que é muito pior que uma gripe e que o povo realmente deveria se isolar. Acredito que as autoridades daqui demoraram demais para tomar atitudes de isolamento, somente escolas foram fechadas", conta. Segundo Raquel, estima-se mais de 50 mil infectados no Reino Unido. Raquel também demonstra preocupação em relação ao atendimento aos pacientes. "Alguns hospitais já não tem leitos de UTI e os que tem não tem respiradores suficientes. Acredito que no momento o povo em geral está mais preocupado financeiramente, até chegarmos na mesma situação que a Itália", lamenta a empresária.

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