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NA LINHA DE FRENTE

A missão de preservar vidas

O reconhecimento aos profissionais da saúde que se entregam ao trabalho de cuidar dos doentes


A alta da UTI da idosa Soeli Timóteo, na quinta-feira (23), foi motivo de muita comemoração no Nossa Senhora do Perpétuo Socorro / Foto: Dimas Freitas/Assessoria HNSPS/

Com o crescimento da curva do novo coronavírus no Vale do Itajaí, aumenta também o peso da responsabilidade dos profissionais que estão na linha de frente dos hospitais. Diariamente, eles precisam controlar o lado emocional para transmitir tranquilidade aos familiares dos pacientes internados. O vai e vem de pessoas com sintomas da doença nos corredores dos hospitais e centros de triagem só aumenta, provocando também uma sensação de insegurança.

A vida dos profissionais da saúde também é preciosa, e muitos pertencem a grupos de risco. Estresse físico e mental e risco de contágio viraram rotinas. No Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Gaspar, a equipe tem se desdobrado em plantões para atender a crescente demanda, pois não são apenas os pacientes com o novo coronavírus que precisam de atendimento. As outras doenças continuam levando muitas pessoas ao hospital. O esforço para vencer um inimigo invisível, com alto poder de contágio, tem provocado muitas baixas no quadro de colaboradores. Parte da equipe de médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem precisou se afastar por ter sido contaminada pelo coronavírus. Desde o começo da pandemia até agora, 33 colaboradores do hospital de Gaspar foram infectados pela COVID-19. Parte destes profissionais já não tem mais a doença ativa e voltou ao "batente". "Além de todo o nosso esforço para salvar vidas, ainda precisamos preservar a saúde dos nossos funcionários", afirma o diretor Administrativo do Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Cláudio Marmentini. Ele diz que, no momento, existem equipamentos de segurança para todos os funcionários, porém, o poder de contágio do vírus é muito elevado, e nas últimas semanas muitos dos funcionários acabaram se contaminando.

O estresse físico e mental, que já é uma rotina para quem trabalha dentro de um hospital, aumentou significativamente diante das perdas de vidas que se tem a cada dia por conta da pandemia. Os dez novos leitos de UTI transformaram a rotina no hospital. Ali estão pacientes que lutam pela vida, uma linha tênue que os separam do momento que pode ser o derradeiro. Médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem lutam a cada instante para que esse momento nunca chegue. Por isso, a recuperação de um paciente é sempre muito festejada pela equipe, como aconteceu essa semana com a paciente Soeli Batista Timóteo, 64 anos, que saiu da UTI aplaudida por toda a equipe. "Estes profissionais, que são a linha de frente neste combate, estão se doando totalmente, enfrentando o risco de contaminação, a distância da família e muitas outras situações que acontecem dentro do hospital de Gaspar para salvar vidas", acentua Marmentini. Porém, ele diz que fica claro que a luta somente será vencida se todos colaborarem. "Essa luta não é apenas dos profissionais da saúde, é de todos nós", acrescenta.

Ele admite que o reconhecimento do esforço dos profissionais da saúde é importante, mas o mais fundamental é que toda a sociedade cumpra o seu papel no combate à pandemia. "Precisamos que as pessoas compreendam que não adianta apenas aplaudir, precisamos que elas sigam as orientações de saúde, que evitem sair de casa sem necessidade, que usem máscara e higienizem as mãos, e principalmente, que não façam festas ou aglomerações para que possamos diminuir a taxa de contaminação e diminuir a demanda de atendimentos que hoje chega à quase 100% da força de trabalho do hospital".

Enfermeira há 15 anos, Luciane Padovan Spaitel nunca imaginou viver um momento tão delicado como este. Ela, que integra a equipe de enfermagem do Hospital de Gaspar, confessa que trabalhar diante da pandemia da COVID-19 traz instabilidade emocional e insegurança. Para conseguir seguir em frente e desempenhar sua função integralmente, ela diz confiar nos Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs). "Enquanto profissional da área da saúde, tenho consciência e sei da minha responsabilidade em prestar assistência aos pacientes que precisam de cuidados neste momento. Então, diariamente trabalho meu emocional com empatia", explica. A enfermeira também entende que a união entre os colaboradores é o que dá força para a equipe. "A angústia e a incerteza de um, muitas vezes é a mesma do outro. Então, tentamos nos apoiar um no outro nesse momento tão difícil", emociona-se.

Ela explica que, como medida de segurança, a rotina no hospital mudou significativamente após a pandemia. Todas as adaptações e protocolos visam conter a transmissão do vírus e, sendo assim, o uso de EPIs passou a ser obrigatório. Porém, o que mais preocupa a equipe é a conduta dos pacientes e seus acompanhantes. "Os pacientes chegam ao hospital com muitas dúvidas referentes à doença, e não adotam os hábitos necessários, como o uso contínuo da máscara e do álcool gel nas mãos", revela a enfermeira.

É difícil também para a equipe, conta Luciane, lidar com os óbitos, principalmente dos profissionais. "Ninguém está preparado para a morte. No entanto, quando escolhemos esta profissão, realizamos um juramento de fazer o possível para salvar as vidas que nos fossem confiadas", pondera. Por isso, cada paciente que consegue vencer a COVID-19 é motivo de grande alegria. "Quando um paciente se recupera da doença, fico muito emocionada e me sinto feliz. É a certeza de que nossa exposição diária ao risco é necessária para que momentos como esse possam se repetir", reforça.

Os cuidados da enfermeira no hospital estendem-se a sua casa. Casada e mãe de uma menina de oito anos, Luciane precisa adotar uma série de medidas para não colocar a família em risco. Ao chegar em casa, ela retira os calçados, as roupas e vai direto para o chuveiro. Somente depois é que acontece o contato com o marido e a filha. "No início isso foi muito difícil, pois o hábito era outro. Depois de um dia cansativo de trabalho fora de casa, a primeira coisa que você quer fazer quando chega em casa é ganhar um abraço e o carinho daqueles que você ama. Hoje, porém, a proteção deles se torna mais importante do que o desejo de abraçá-los", diz.

Testemunha dessa verdadeira guerra urbana contra o novo coronavírus, a enfermeira Luciane faz um apelo à comunidade: "Só saia de casa se for realmente necessário. Lave as mãos frequentemente e use máscara e álcool gel nas mãos".



"Quando um paciente se recupera da doença, fico emocionada e me sinto muito feliz. É a certeza de que nossa exposição diária ao risco é necessária para que momentos como esse se repitam".

Luciane Padovan Spaitelenfermeira do Hospital de Gaspar 


Quase 100 funcionários infectados e afastados do trabalho no Santa Isabel


Mario João fez aniversário na UTI e recebeu os parabéns dos filhos por vídeo chamada /

Nesta semana, a Associação dos Amigos do Hospital Santa Isabel (Amabel), de Blumenau, emitiu uma nota alertando para a crítica situação em que encontra-se a casa de saúde e ressaltou a importância da colaboração de todos no enfrentamento à pandemia. Até quinta-feira (23), 98 funcionários do hospital encontravam-se afastados, sendo 68 da enfermagem, 15 do setor de hotelaria e 9 do administrativo. Do corpo de médicos, seis testaram positivo para o novo coronavírus, sendo que um deles encontra-se internado na UTI. Os números foram revelados no mesmo ofício, que reivindica ainda que os municípios da região adotem medidas conjuntas. "Agora não se trata de escolher entre o controle da doença ou a manutenção da atividade econômica. Agora se trata de salvar vidas", diz a nota. Diante da situação, a associação pede que todos os municípios do Vale do Itajaí façam a sua parte, não somente Blumenau. Isso porque 18% dos pacientes que estão internados na UTI do HSI por cauda da COVID-19 são de outras cidades. "É certo que o HSI atenderá a todos que a ele recorrerem, sem distinguir de qual município procedem que, de forma responsável adotou as medidas recomendadas, ou não. Mas a sua capacidade de novos atendimentos está se exaurindo, perigosamente", alerta o documento.  

Comemoração  

Nem mesmo a árdua rotina de trabalho impede que a equipe do HSI faça surpresa aos pacientes. Na quarta-feira (22), data em que Mario João completou 86 anos, ele recebeu os parabéns por meio de uma ligação com vídeo. O paciente, que testou positivo para a COVID-19, está internado na UTI e, por isso, não pode receber visitas. Sendo assim, a Equipe Multidisciplinar da unidade fez uma ligação por vídeo para os filhos. De acordo com o hospital, essa é uma forma de tratar a saúde mental dos pacientes, que se agrava perante à doença e saudade da família. "Fizeram uma homenagem muito linda por videoconferência. Ficamos muito felizes por isso e queremos agradecer à toda a equipe", disse emocionada Maria Sueli, uma das filhas de João.


Saúde mental dos profissionais da saúde preocupa médico infectologista


A saúde física de quem está na linha de frente não é a única preocupação em tempos de pandemia. É preciso ter atenção redobrada com a saúde mental dos funcionário e profissionais de saúde, principalmente após finalizada a luta contra o novo coronavírus. O médico infectologista e diretor técnico do Hospital de Gaspar, Ricardo Freitas, chama a atenção para a Síndrome de Burnout. "A preocupação com a saúde mental destes profissionais é um componente bastante importante agora. Existe esta síndrome, que é quando a pessoa tem um excesso de carga de trabalho, excesso de preocupação e começa a apresentar os sintomas", ressalta. Entre eles está uma possível depressão, desânimo e a dessocialização. "A pessoa começa a querer ficar mais isolada, não confraternizar e, neste período de pandemia isso acaba piorando um pouco, inclusive nos relacionamentos intrafamiliares", pontua o médico infectologista.  

Pós-pandemia 

Freitas lembra que os profissionais de saúde estão lidando com muitas situações ao mesmo tempo. "Temos o excesso de trabalho, o medo da doença e o afastamento dos colegas pelo vírus, sobrecarregando quem fica na linha de frente. Esta é uma situação bastante preocupante e que estes profissionais estão enfrentando diariamente", diz. O médico diz que a maior preocupação é quando a situação começar a se normalizar. "Não sabemos como vai ser o pós-pandemia. Agora estamos no auge da guerra, as coisas estão acontecendo e não temos noção ainda de como vai ser quando a situação começar a voltar ao normal. Não sabemos como que estes profissionais vão ficar em relação a sua saúde mental", alerta.

-> A Síndrome de Burnot é um disturbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultante de situações de trabalho desgastante, que demandam muita competitividade ou responsabilidade. A principal causa é justamente o excesso de trabalho e pressão - justamente o que estão enfrentando os profissionais de saúde neste momento. 


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