| ASSINE | ANUNCIE
| | | |
Rara beleza

A estiagem vista pelas lentes de Luiz Schramm

O fotógrafo gasparense percorreu o leito do Itajaí-Açu de Gaspar a Rio do Sul

Alexandre Melo - jornal@jornalmetas.com.br


Foto: Luiz Eduardo Schramm/

A chuva que começou a cair tímida já na madrugada de sexta-feira (22) trouxe um pouco de alento para boa parte das regiões do Estado, mas ainda não será suficiente para amenizar a seca que castiga Santa Catarina há quatro meses. Essa é a previsão dos meteorolgistas (leia matéria na página ao lado).

Se o clima causa apreensão e todos torcem para que a chuva caia em maiores volumes, por outro lado, a estiagem revelou paisagens atípicas ao longo do leito do Itajaí-Açu e de seus afluentes e que vem chamando atenção pela rara beleza. E não são poucas as pessoas que nos últimos meses tem literalmente passeado por sobre os sedimentos e vegetação normalmente encobertos pelas águas escuras e caldalosas do "velho" rio.

O fotógrafo gasparense, Luiz Eduardo Schramm, de 64 anos, não perdeu tempo. No domingo (17), ele muniu-se de sua câmera fotográfica e viajou pela Bacia do Itajaí-Açu de Gaspar a Rio do Sul, captando detalhes que a estiagem fez "brotar" aos olhos dos mais atentos. Ele considera a seca de 2020 severa. "Lembro de uma parecida na década de 1960, quando formou-se um banco de areia onde era possível atravessar o rio". Ainda criança, Luiz, que é neto do primeiro prefeito de Gaspar, Leopoldo Schramm, conta que servia-se do Itajaí-Açu para banhos diários, juntamente com os pais e irmãos. No velho rio, ele foi também, muitas vezes, buscar água de balde, pois não havia necessidade de tratamento. "A água era límpida para consumo", acrescenta. Neste vai-e-vem, Luiz acabou se tornando um admirador e observador atento da Bacia Hidrográfica do Itajaí, a maior de Santa Catarina, incluindo os efeitos das marés que provocam as enchentes. A fotografia o ajudou a arquivar a memória de tudo o que viu nos mais diferentes momentos do rio. O acervo é vasto e rico em detalhes.

Luiz quis compartilhar com os gasparenses, por meio do Jornal Metas, as imagens da atual estiagem. Ele lembra que a seca é também um fenômeno histórico, que raras vezes será visto, por isso a importância do registro fotográfico do momento. Em Gaspar, a estiagem fez reaparecer os pilares da ponte Hercílio Deeke que sucumbiram nas enchentes de 1983 e 1984. A Usina do Salto e a Ponte dos Arcos, em Blumenau também revelam um cenárito exuberante, assim como o famoso restaurante Tapyoca, banhado pelo Rio Benedito, em Timbó. Mais fotos selecionadas estão na reportagem digital, que você confere, com exclusividade, em nosso site www.jornalmetas.com.br. Bom passeio! 

Falta de umidade e chuvas mal distribuídas agravam o problema

Mas, afinal, qual o motivo da estiagem? O professor de Física, coordenador do Centro de Operação do Sistema de Alerta (CEOPS) da Furb e doutor em Meteorologia, Dirceu Luiz Severo, diz que trata-se de um perído de estiagem generalizado, desde o extremo Sul do Rio Grande do Sul até o Oeste do Paraná. Ele lembra que nos últimos dois anos, os volumes de chuva estão abaixo da média histórica em toda a Região Sul. "Em 2018, por exemplo, já tivemos 200 milímetros abaixo da média, no ano passado foram 60mm a a menos".

Ele chama atenção para a irregularidade das chuvas. "Em algumas regiões chove acima da média e em outras abaixo". O professor Severo explica que nunca se tem um índice dentro do esperado, sempre ocorre oscilação, porém, nos últimos quatro meses o baixo volume de chuvas está mais rigoroso. A causa, de acordo com o especialista, aparentemente, não está associada aos dois fenômenos climáticos mais conhecidos: El Niño e La Niña. "Não está havendo nenhuma oscilação climática no oceano, que é a causa destes dois fenômenos, ou seja, estamos num período neutro".

O problema maior, segundo ele, é que as frentes frias que trazem as chuva tem chegado com fraca intensidade. Além disso, é preciso que haja umidade no ar. "Aqui pra nossa região, essa umidade deve vir da Amazônia, e quando isso não ocorre as chuvas são mais fracas", observa.

Sobre a chuva que chegou ao Estado neste final de semana, o meteorologista não dá muita esperança. "Olhando pelo radar, essa frente fria vai provocar muito mais chuva no Oeste do Estado; do Planalto Serrano para o Litoral ela vai se apresentar novamente muito fraca, ou seja, sem a umidade do ar necessária. A princípio é mais uma frente fria que vai provocar chuva mal distribuída", prevê Severo.

Por isso, a previsão da meteorologia é que já a partir de domingo o tempo volte a ficar firme no Vale do Itajaí, com períodos até de sol. Portanto, de acordo com Severo, não se trata nem de volumes elevados de chuva neste momento, mas de uma melhor distribuição. "As chuvas em grande intensidade e mal distribuídas não resolvem o problema da estiagem porque a água fica só na superfície, logo escorre e vai embora. Agora, se for uma chuva mais contínua dá tempo do solo absorver, encharcar e alimentar os lençóis freáticos, elevando o nível dos rios", argumenta.

Em Gaspar o cenário é um pouco diferente em relação a maioria dos municípios do Vale que hoje sofrem com a escassez de água. Por estar mais próximo da foz do Itajaí, a maré que vem do oceano atua como uma espécie de represa. "Embora o período seja de estiagem, a água está descendo, não saberia dizer em qual volume, mas ela chega até a foz de maneira contínua e o efeito da maré é mais significativo. Para se ter ideia, em Blumenau, a maré faz o nível do rio oscilar em mais de um metro. Gaspar também sofre esse efeito, ou seja, o mar segura e empurra a água doce de volta. "É também por isso que Ilhota vem enfrentando o problema da salinidade da água", finaliza Severo.


"A seca é também um fenômeno histórico, que raras vezes será visto, por isso a importância do registro fotográfico do momento."

Luiz Eduardo Schramm, Fotógrafo

Imagens

LEIA TAMBÉM

JORNAL METAS | GASPAR, BLUMENAU SC

(47) 3332 1620 |




JORNAL METAS - Rua São José, 253, Sala 302, Centro Empresarial Atitude - (47) 3332 1620

| | | |