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DEZ ANOS DEPOIS

Eles vivenciaram essa história

O trabalho incansável das equipes de resgate


Luis Fernando Santos Carlos, major da Reserva da Brigada Militar do Rio Grande do Sul (RS), na época coordenador da Defesa Civil daquele estado, foi enviado a Gaspar para organizar os trabalhos. A primeira medida foi montar um Posto de Comando na prefeitura, otimizando os esforços. "Um dos destaques foi a solidariedade do povo brasileiro. Teve um momento em que foi preciso até solicitar a parada das doações", lembra. Mas muitos também foram os desafios. O major recorda a dificuldade em remover muitas pessoas das áreas de risco, que insistiam em permanecer no local, bem como administrar o recolhimento dos resíduos domésticos, que começavam a se amontoar pelas ruas. "Tivemos que lidar, ainda, durante os salvamentos, com o risco de possíveis novos deslizamentos. Para isso nos apoiou o professor Luiz Antônio Bressani, realizando as avaliações necessárias para elaboração do plano de atuação e resgate. Em resumo, foram dias de muitas atividades e trabalhos e que nos deixaram como lição que não devemos relaxar na preparação dos órgãos de prevenção, resposta e reconstrução, porque os eventos acontecem e necessitamos de muita preparação dos órgãos e da comunidade para reduzir o impacto desses sobre a população".



Mesmo com a casa embaixo da água, Luis Carlos Hostins, do Jeep Clube Gaspar, não deixou de ajudar a comunidade. Acompanhado de outros integrantes do clube, ele foi até o quartel do Corpo de Bombeiros de Gaspar e se colocou à disposição para os trabalhos. "Os bombeiros estavam com pouco efetivo e, além disso, não tinham os veículos 4 x 4. Passamos a ajudá-los e, por orientação do comando, só agíamos acompanhados de pelo menos um bombeiro. Uma das primeiras ações foi no Sertão Verde, quando ajudamos a resgatar alguns corpos. Levamos as ferramentas necessárias para os bombeiros e depois transportamos os corpos para identificação. Terminado o trabalho nesta localidade, seguimos para o Belchior, levando até o bairro comida, água, remédios e outros mantimentos", relembra. O jipeiro, que ficou auxiliando nos trabalhos durante quase um mês, também ajudou a retirar pessoas de uma área de risco. "Era um sábado à noite, uma semana depois da tragédia, e chovia muito. Estávamos no Belchior e fomos informados que atrás do Clube de Caça e Tiro algumas pessoas corriam perigo. Lembro que mesmo com muitas casas já caindo, elas permaneciam ali. Ajudamos a levá-las para o abrigo, havia muitas crianças. Fiquei muito chocado com tudo o que eu vi naquela noite e pedi a Deus para que nos protegesse a fim de conseguirmos retirar todos com segurança e assim aconteceu. Eu vi muita coisa durante aqueles dias mas, felizmente, consegui ter forças para ir até o fim. Nunca mais gostaria de presenciar algo assim tão triste, tão chocante", emociona-se o jipeiro.



Na época da tragédia, o prefeito de Gaspar era Adilson Luis Schmitt. Ele lembra que vinha chovendo há três meses e, nos dias 21, 22 e 23 de novembro choveu 630 milímetros - algo previsto para um período de seis meses. "Tivemos uma mistura de enxurradas, enchentes, deslizamentos, escorregamentos e soterramento, que resultaram em 20 mortes. Todos os 21 bairros de Gaspar foram atingidos e contabilizamos mais de 10 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas. Foi um caos, eu confesso. Ficamos atônitos e meio perdidos nos primeiros dias e faltavam somente 40 dias para encerrar nosso mandato. Mas, com a solidariedade do povo, a união de esforços, doações que chegaram em grandes quantidades e dedicação de todos os anônimos conseguimos colocar a cidade em segurança novamente, atendendo a todas as solicitações e emergências. Tudo isso só foi possível com a participação dos voluntários, órgãos estaduais e federais, servidores públicos, clubes de serviços e entidades, sem esquecer da classe empresarial", diz. O ex-prefeito, porém, lembra que muitos são os desafios pela frente e muitos deles nem sequer foram planejados. "Precisamos da carta de cheias, cotas de enchentes e, acima de tudo, continuar equipando a Defesa Civil com profissionais qualificados e com equipamentos modernos e necessários. Agradeço a todos que colaboraram com a cidade naqueles dias intermináveis e que até hoje estão envolvidos com o município", finaliza.



O major Alcione Fragas, que na época comandava o Corpo de Bombeiros de Gaspar, relembra os trabalhos realizados. O efetivo era de 14 bombeiros, mas inicialmente eles atenderam a comunidade com uma equipe de 10 socorristas, pois alguns deles não conseguiram chegar ao quartel. "Nossas viaturas estavam preparadas para a rotina normal, ou seja, atendimento de acidentes, traumas e incêndios. Jamais para uma catástrofe daquela proporção. Com o apoio de empresários, conseguimos camionetes traçadas e formamos equipes de resgate para os casos mais graves. Tivemos um deslizamento no Sertão Verde e uma senhora foi retirada dos escombros com muitas fraturas. Lembro que nosso hospital estava fechado. Ao tentar levar a senhora para o hospital de Brusque, nossa segunda ambulância foi atingida por um deslizamento de terra na Rodovia Ivo Silveira. Nos cinco primeiros dias, consegui dormir por 45 minutos", relata. Até hoje, o major sente os efeitos da tragédia. "Várias situações me marcaram e deixaram sequelas. Hoje, tenho aversão a toque de celular e telefone, em razão dos inúmeros chamados em curtíssimo espaço de tempo. O sofrimento das pessoas que perderam seus bens e familiares, as expressões que vi, jamais sairão da minha mente. Em muitos momentos, nos sentíamos incapazes diante da desgraça. Falando da Instituição Corpo de Bombeiros Militar de SC, posso afirmar que evoluímos, principalmente em relação às estruturas, equipamentos, viaturas e capacitação técnica para atender aquele tipo de evento que, a época, para nós foi novidade". 



Além de prestar apoio à comunidade, a Polícia Civil de Gaspar também teve que correr contra o tempo para salvar documentos e bens materiais que estavam na delegacia. Na noite de sábado, dia 22 de novembro, a equipe, coordenada pelo delegado Paulo Koerich, foi até o local para remover os materiais do térreo para o andar superior. Paralelamente, pediram apoio operacional ao estado. Como a sede da delegacia ficou alagada, os trabalhos foram centralizados no quartel da Polícia Militar, no bairro Sete de Setembro. "Na época, estavam lotados na Comarca 18 policiais civis, mas assim que as estradas foram sendo liberadas, recebemos a ajuda dos alunos que estavam frequentando a Acadepol. Chegamos a ter mais de 50 policiais atuando em difersas frentes, alguns deles em Ilhota. Os trabalhos ocorreram de forma ininterrupta e durante 30 dias o descanso era relegado a segundo plano. Muitas vezes, apenas três ou quatro horas de sono é o que tínhamos para repor as energias", afirma o delegado. A Polícia Civil de SC disponibilizou um helicóptero que ficou baseado em Gaspar e foi utilizado no resgate de pessoas e socorro médico, além do transporte de medicamentos e alimentos. "Ao ver aquelas cenas, a primeira sensação que tive foi de espanto e medo. No entando, a razão precisou prevalecer e conseguimos manter o foco na missão", relembra. Porém, em alguma vezes, confessa o delegado, não foi possível conter a emoção. "Teve um dia que deixamos um dos tripulantes do helicóptero no Morro do Cachorro, para que uma família pudesse ser socorrida. Mas uma nova tormenta caiu e não foi possível retornarmos ao local para buscá-lo. Anoiteceu e, para a surpresa de todos, ele chegou ao quartel. Ao vermos o tripulante, fomos dominados pelas lágrimas". 

O comandante da Polícia Militar de Gaspar era o major Adair Alexandre Pimentel. Ele residia no bairro Gasparinho e, para chegar ao quartel, precisou sair de casa a pé, já que a rua Frei Solano - a principal via do bairro - já estava parcialmente alagada. A partir da noite daquele sábado (22), os trabalhos não pararam mais. "Tínhamos que isolar os pontos de riscos, guarnecer os abrigos que estavam sendo abertos e proteger também as casas que estavam em áreas alagadas. Nos reunimos na sede da PM e definimos juntos qual seria a melhor forma de trabalharmos. Aos poucos, fomos recebendo reforços e chegamos a ter a colaboração de 120 policiais militares que vieram para a região ajudar no policiamento não só de Gaspar, mas também de Ilhota", recorda. O major explica que foi adotada a escala 24h por 24h. "Foram dias muito difíceis, mas a tropa nunca reclamou. Certamente esta foi, até agora, a mais complexa missão da minha carreira. Vi a fragilidade da vida humana, mas também pude testemunhar a solidariedade em muitos momentos", relembra o policial.





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