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COLUNA
Por André Soltau | editora@tracosecapturas.com

Ruídos e silêncios

Enquanto o luto mundial é pelos franceses assassinados, milhares perecem nas mãos do grupo extremista Boko Haram, na Nigéria

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Foto: Divulgação

Para perguntas sérias confio em respostas acompanhadas de palavras responsáveis. África e terrorismo são assuntos recorrentes nas rodas de conversas e, atualmente, andam provocando algumas perguntas sisudas entre nós. 

Muitas dessas conversas causam espanto quando situam tudo no “mesmo saco”.  Ou seja, lá temos pobreza, ausência de democracia, progresso, ciência e outras imagens representativas do que seja ideal para nós ocidentais. Volto ao tema tão batido - e nem por isso menos polêmico - depois do atentado na revista francesa Charlie Hebdo. Enquanto o planeta levantava bandeiras de luto pela morte de 12 pessoas na França, o grupo Boko Haram provocava a morte de milhares de pessoas na Nigéria.
 
Lembrei durante a semana do atentado às WTC em Nova Iorque quando grupos armados mataram mais pessoas na África do que nas torres gêmeas.  
Exatamente por que atitudes ocidentais não consideram massacres na África? Eis uma pergunta muito séria. Números assustadores do continente deixam um rastro de respostas nem tão responsáveis com tudo isso. Um continente com histórico de exploração, escravidão e guerras sangrentas, provocadas por grandes potências mundiais em busca de metais, diamantes e petróleo.
 
Africanos denunciam que não estão perdendo o presente. Estão perdendo o futuro quando a grande maioria de mortos pela Aids, ebola, ataques terroristas e fome é de crianças e jovens. Quando chegam aos meus pensamentos possíveis respostas com palavras de responsabilidade pelos rumos do planeta não compactuo com a retórica de governos ocidentais que falam em futuro apregoando mais hospitais, escolas ou mega projetos na economia. São necessários? Sem dúvida. Mas quero pensar em atitudes menores - e nem por isso menos importantes. Podemos ter todos os bens materiais, mas sem atitudes responsáveis não há futuro.
 
Somos ruidosos quando sentimos os pilares ocidentais balançarem. Somos silenciosos quando mortes acontecem em outros cantos do planeta e não afetam a “liberdade de imprensa” ou “democracia” ou “equilíbrio econômico”. 
Atitudes. Sim, no plural. 
 
Quando as redes sociais ferviam com a frase em francês Je suis Charlie, nigerianos pediam ajuda à comunidade internacional no combate ao Boko Haram depois de centenas de pessoas terem sido assassinadas na cidade de Baga, nordeste do país. 
Atitudes que combatam fantasmas em nós. Como vivemos o século XXI com atitudes medievais? Concordamos com Cruzadas contra o terror e provocamos ele em nossas casas? Somos as vítimas, os outros sempre culpados em suas estranhas culturas. Recentemente ouvi uma frase na fila do supermercado. Um pai mostrou ao filho um produto vindo da Indonésia e disse: “De lá não compramos nada. Estão matando brasileiros.” referindo-se ao cidadão brasileiro acusado de tráfico naquele país. Como pensa essa família sobre o traficante do morro vizinho? Defendem a pena de morte para o favelado?
 
Sempre é bom lembrarmos para refrescar atitudes responsáveis. O que é terror?  Ou melhor quais os tipos de terror? E sobre quais mantemos silêncio ou provocamos ruídos? Aqui importam dois tipos:
 
- Terrorismo de estado é quando pratica-se ataques oficializados pela mídia e, muitas vezes, com apoio da população. Países invadem outros com argumentos parciais. Exemplos são muitos. Lembro das ações norte-americanas no Oriente Médio (Irã, Iraque, Afeganistão) justificadas por nosso silêncio enquanto torturas, saques, estupros e crimes de guerras eram denunciados por grupos de ajuda internacional.
 
-Terrorismo de grupos radicais acontecem com fins religiosos ortodoxos, nacionalistas ou raciais. Provocam mortes de civis e atacam locais sem preocupação de quem será o alvo. Incluímos aqui grupos conhecidos como Al Qaeda e Boko Haram. 
Entre o ruído e o silêncio, eu fico com uma pequena dose de responsabilidade sobre o que faço - ou não - sobre o assunto. Passividade é mais assustador do que bombas. Atitude está no dia a dia de ruas, padarias, filas de bancos ou diante da televisão no conforto de casa. Sou exatamente o que faço - ou não. 
Afinal? Em qual programa de televisão você vive? Realidade pede respostas responsáveis. Silêncio devora sonhos.

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