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COLUNA
Por André Soltau | editora@tracosecapturas.com

O Homo Sapiens trabalha e se diverte

Somos preparados para o trabalho! Sabemos nos divertir?

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Foto: Wilson Junior/Jornal Metas

Duas expressões de origem latina ocupam minhas palavras na semana: Homo Faber e Homo Ludens.  Enquanto o primeiro demonstra o instinto humano de fazer coisas, o segundo é o de desfrutar das coisas. Ou seja, trabalhar e o divertir-se.

Em uma semana de feriado exatamente pelo Dia do Trabalhador quero conversar não sobre condições de trabalho - o que já seria um assunto muito tenso - mas sobre as condições de diversão. Sim, diversão. Somos tão focados desde pequenos em profissões que estamos demonstrando dia após dia, ano após ano que sabemos pouco o que fazer com nossos dias de lazer.  Lembram: “ o que vai ser quando crescer?” Poucas eram as respostas do tipo: “ser alegre”, “risonho” ou “um divertido adulto”. Pouco provável.

Somos sempre Faber e Ludens. Não ao mesmo tempo. Alguns profissionais dão conta de trabalhar divertindo-se. Mas são exceção. São uma minoria diante da quantidade de pessoas que enfrentam o relógio diariamente, tarefas chatas e repetitivas, chefes nervosos, locais de trabalho tensos e insalubres. 

Um dia escrevi nesse espaço sobre a história da frase : “Tempo é dinheiro”.  Somos irremediavelmente levados a crer que nosso tempo precisa estar ocupado com algo prático. E não vale caminhar descalço na grama molhada, olhar a chuva ou admirar as nuvens no sol e achar bichinhos, rir com o filho de tolices cotidianas. Ganho. Lucro. Conquistas, sucesso financeiro. Tempo é dinheiro? 

Ser Faber exige disciplina e produtividade. Qualidade total. Os resultados devem - necessariamente - acontecer da melhor forma possível. Rankings exigem posturas que não deixam espaço para a distração com um pássaro, o barulho de chuva ou a criança que ri na janela. Deve estar atento a todos os fatos que estejam em uma única tarefa resultando em lucro, venda, reconhecimento. Executar o maior número possível de tarefas em um menor tempo deve estar nessa lista também.

Ser Ludens é relaxar, usar seu tempo para a natural improdutividade. Andar com roupas leves, descalço ou o parceiro chinelinho. É preciso ser receptivo com o que a vida oferece. Observar o mundo como ele se apresenta. Olhar o visual novo de um amigo, parar para ver a lua que surge ou admirar o pôr-do-sol.  Relaxar. Usar o tempo deixando o tempo passar, essa é a regra. Espontaneidade.  Contar piadas, rir à toa, cantar degustando cada minuto são qualidades necessárias. 

Sabem que surgiu primeiro? Basta que observemos o comportamento de uma criança. Ela brinca primeiro. Exercita sua voz, seu corpo, procura, estica mãos, exprime-se. Pouco a pouco é levada - pela conversinha mole de adultos - a acreditar que precisa de uma agenda cheia de tarefas para “ser alguém na vida. “E lá vem a aula de inglês, a natação, a escola, o judô, tarefa de casa, palestras.... isso para famílias que podem pagar, claro. Às famílias com poder aquisitivo menor resta o mundo do trabalho infantil. Imediatamente ensinamos a criança a noção de qualidade, sucesso, ganho, deveres. 

Quem veio primeiro na história humana? O Ludens, sem dúvida. Aprendemos brincando. Depois que a Modernidade nos incutiu valores sociais de progresso, racionalidade e lucros. 

Perguntei acima: Sabemos nos divertir? 

Do excesso de trabalho, decorrem hoje doenças crônicas. Dores de cabeça de diversos tipos que podem ser depressivas à síndromes como Burnout (distúrbio psíquico que pode levar à depressão devido a um estado de esgotamento mental e físico) ou o extremo do Karochi (suicídio por excesso de trabalho). 

Dores lombares ou musculares, tendinites, rinites são mais comuns e entram naquelas doenças que acostumamos, naturalizamos e vivemos com ela. Naturalizamos tudo, acostumamos com tudo, inclusive dores. Humanos adaptam-se, inclusive ao que lhe não lhe faz bem. 

Quem chegou até aqui na leitura, deve estar com a sensação de que o cronista tem como propósito destruir o mundo do trabalho e erguer um mundo de diversões. Ou ficar pensando que o cronista quer que, obrigatoriamente, trabalho e diversão são antagônicos ou paralelos. Não podem andar juntos. 

Vou terminar com uma palavra então: apaixone-se. Trabalhar esperando a permissão do relógio para que suma dali é um sinal muito vermelho. Não há opção? Tenho visto histórias de vida que provam ao contrário. Sempre há. Profissionais que dão uma guinada em suas vidas simplesmente porque não eram felizes.  Afinal, somos forçados pelo mundo e valores de mercado a escolher uma profissão com 17 - 18 anos. Quem sabe exatamente o que deseja com essa idade? Então... mudar os rumos deve ser permitido. 

Dicas? Sempre existem. Mas quero compartilhar três conjunto de  perguntas que sempre me faço sobre o que ou onde estou. Se serve ao leitor, ótimo. Se não, use o jornal para embrulhar outras coisas. Lá vai:

- Gosto do que estou fazendo? É agradável e o tempo anda veloz?

- Faço bem o que estou me comprometendo em fazer? É uma aptidão?

- Crio? O que faço permite que eu crie?

Quero encerrar com Van Gogh que, gênio na pintura, vendeu um quadro quando vivo. Mas deixou cores, traços e pinturas dignas de um mestre.

Sua profissão não é aquilo que traz para casa o seu salário. Sua profissão é aquilo que foi colocado na Terra para você fazer com tal paixão e tal intensidade que se torna chamamento espiritual.

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