| ASSINE | ANUNCIE
| | | |
WhatsApp Image 2019-08-22 at 22.00.59.jpeg
COLUNA
Por André Soltau | editora@tracosecapturas.com

Notas sobre a falência da realidade

02
Foto: Divulgação

 

“Para tornar a realidade suportável,  todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras”. Marcel Proust

 

 

“É preciso ser um realista para descobrir a realidade.  É preciso ser um  romântico para criá-la”. Fernando Pessoa

 

 

 

A humanidade desaparecerá: Bem feito! A camada de ozônio está mostrando que faz falta. Aquecimento global é sentido ano após ano. Desmatamos em proporções inimagináveis. Não sabemos o que fazer com o lixo que a sociedade de consumo produz. Transformamos a realidade com tecnologias que - deveriam - aproximar a humanidade ao invés de afastar-nos. Daqui alguns anos seremos mais de 8 bilhões.

Até 2050 teremos próximo de 12 bilhões de pessoas que precisam comer, beber e viver em condições básicas de vida. Se mantivermos a desigualdade, quantos darão conta de continuar aqui? Enquanto alguns consomem em média 700 litros de água/dia outros povos do planeta consomem 30 litros/pessoa.  E , em se tratando de água, 1/5 do planeta não tem acesso à agua potável. 

Enquanto alguns denunciam os problemas resultantes de uma sociedade de consumo, outros provocam “aquecimento” do movimento econômico utilizando diversas mídias para convencer-nos de que só assim estaremos todos bem. Enquanto populações do planeta lutam contra escravidão, trabalho infantil ou prostituição de crianças outros distribuem cartões de crédito na porta de suas casas. Enquanto muitos procuram alimentos para a vida manter-se, outros sofrem de obesidade mórbida. 

Sou pessimista? Talvez. 

Ouvimos, sentimos e vemos dia após dia a realidade do planeta impedir a qualidade de vida mínima - leia-se água, alimento, moradia, paz... - os comerciais prometem a felicidade se comprarmos a nova versão do celular lançado na semana.

Sou pessimista? Sim. Mas não me deixo tomar por falsas promessas de felicidade contidas em um produto qualquer. Confio, talvez, em coisas que estão um tanto fora de moda. 

De todos os fluxos da vida, guardo cores, cheiros e afagos. Conheço cada quintal ou laranja colhida no pé. Sou adepto de memórias lentas muito mais do que movimentos. Adoro lentidões que permitem meu demorar-se nas coisas sem um relógio mandando no ato. 

Quero as coisas simples e difíceis muito mais do que teorias ou esnobismos. Sou humanamente possível muito além do céu ou do inferno. Pulso em delirantes formas sem a necessária coerência do mundo das razões. Quero a vida e não a ficção. 

Ficção? Sim a realidade nos é criada cotidianamente com novelas, reality shows ou publicidade. A realidade nos mostra a virtualidade de um corpo perfeito e provoca desejos de posse. Provoca a vaidade quando o humano convenceu-se de que um carro é mais importante do que ruas para pedestres. 

Sou romântico? Talvez. 

Crianças aparecem em anúncios, mulheres sensuais vendem de tudo. O produto agrega valor social e não de bem viver. Provocam uma vida imaginária quando desejamos o corpo, a roupa, a vida, os sonhos, o cabelo os produtos de novelas.  Diriam alguma pensadores do assunto que estamos imersos na cultura da vaidade: mostrar-se aos outros (sou o que mostro em redes sociais); temos medo de não sermos percebidos (usamos, divulgamos, fotografamos para que outros admirem) e, portanto, queremos o juízo de outros; 

Lembrando que a origem da palavra vaidade vem de vazio. Muito cheios de esnobismos e arrogâncias, nós - humanos ainda - escondemos o vazio em roupa, consumos, shoppings e prepotências. Muita prepotência.

Sou romântico? Não. O espetáculo da realidade é para encher os olhos. Sou o que mostro. Sou o que consumo. Deixo uma selfie e mostro felicidade. 

Consumimos para não morrer de doenças contemporâneas. Medos, fobias, remédios, agressividades, dores, abandonos. 

Consumimos para acreditarmos que a vida está no produto que conquisto. 

Quero a vida e não a ficção.  E, assim, sou um irrecuperável louco e romântico. Ainda bem.

 

Imagens




JORNAL METAS | GASPAR, BLUMENAU SC

(47) 3332 1620 |




JORNAL METAS - Rua São José, 253, Sala 302, Centro Empresarial Atitude - (47) 3332 1620

| | | |