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COLUNA
Por André Soltau | editora@tracosecapturas.com

Li essa notícia noutra notícia

- Pai, para que serve um jornal velho?
- Para enrolar peixes.
- E o jornal de hoje?
- Para enrolar a gente.

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Revendo tirinhas de Edgar Vasquez - um cartunista gaúcho - encontrei esse diálogo do pai com o filho. Claro, voltei os olhos para manchetes de jornais muito antigas e pimba! Lá estava a charada: Já li isso um outro dia. 

Ministros acusados, deputados presos, governantes usam de retóricas para explicar o inexplicável, rombos, mortes violentas, aumento de violência, críticas ao governo do momento e por ai vai.O que está em jogo não é o dito e sim o que deixam de dizer. Olho para cá, me irrito, surpreendo-me, bravejo, opino sobre repetições constantes sem tempo para olhar com calma sobre o que realmente move a vida, remexe meus dias, altera minha vida. E a humanidade segue!

Esse nervosismo saltitante do jornalismo me deixa inquieto. Sou um cronista que usa do jornal para conversar - paradoxal isso - e acompanha, dia após dia a imprensa ocupar-se de factoides deslocando o leitor para temas pouco profundos. Como cronista preciso ter aquela loucura mansa de quem olha com a calma necessária para temas pouco corriqueiros. Pois bem, olhei para jornais velhos e vi notícias repetidas. Voltei quatro décadas em manchetes dos jornais no país estimulado pela charge de Vasquez e lá estão os discursos que repetem-se. Dirão muitos: claro o país é corrupto! Não há criação! Somos uma cópia! Discordo. 

Mas e o crescimento do conservadorismo entre jovens? Comércio de fé? Consumo de tudo, inclusive humanos? Percebemos que a onda conservadora apaga outras ondas nem tão visíveis? Por que não falamos em êxitos? Ou em regiões remotas que educam em sintonia com a ética? Ou em processos criativos que expandem-se pelo país? Ou buscamos outros modos de participarmos socialmente sem a enfadonha eleição? 

Qual o meu tempo com você leitor? Com certeza para os assíduos amigos da leitura alguns minutos entre o café matinal ou em algum momento de espera no médico, na loja ou no salão de beleza. Preciso de intensidade no título e de incisivas palavras no começo. Fisgado o leitor, preciso ser rápido.  Meu discurso é passageiro, a repetição de um assunto não é. Faz escola, educa, constrói imaginários sobre tudo, ensina gerações novas, compromete o que virá.
Em nossa sociedade existem discursos que são ditos e ficam intactos. São muitos deles ortodoxos em suas áreas - religiosos, políticos, sexistas. Tem o estatuto de verdade. Alguns repetem-se até a exaustão e ganham o estatuto pela repetição. Roubaram nossa decente capacidade em escolhas. Ou isto ou aquilo. E, claro, não é de hoje.

Desabafo de um cronista no espaço de hoje. Vivemos a “naturalização” de verdades. As notícias atuam por repetições dizendo o que devemos reter, pensar, lembrar. Usam de uma linguagem pouco informativa ou comunicativa. Usam de palavras de ordem. Como já disse: educam para escolhas nem tão éticas. 

Do desabafo intenso prefiro finalizar com Fernando Pessoa:

“Se tudo o que há é mentira. É mentira tudo o que há.
De nada nada se tira, A nada nada se dá.
Se tanto faz que eu suponha. Uma coisa ou não com fé,
Suponho-a se ela é risonha, Se não é, suponho que é.
Que o grande jeito da vida É pôr a vida com jeito.
Fana a rosa não colhida. Como a rosa posta ao peito.
Mais vale é o mais valer, Que o resto ortigas o cobrem
E só se cumpra o dever Para que as palavras sobrem.”




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