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COLUNA
Por André Soltau | editora@tracosecapturas.com

Do pó ao pó

A crise de água afeta o sudeste brasileiro e vira pauta nas rodas de debates do país inteiro. Quantos anos o nordeste brasileiro carece de atenção pelo mesmo problema e só é lembrado em promessas eleitoreiras?

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Foto: Divulgação

E a quaresma começa de ressaca. Quarta-feira de cinzas é um dia especial para as comunidades cristãs. É quando os ramos abençoados serão queimados na missa questionando os fiéis: “Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás”. Deixei esse pensamento tomar os dias de Carnaval e levei as ideias para outros terrenos do pensamento. Do pó ao pó. Lembrei de impérios que sucumbiram por falta de água. Por quase dois mil anos, o Império Maia foi soberano na América Central com um complexa cultura composta por modernas técnicas de agricultura, uma rica arquitetura que incluía pirâmides, além da única forma de escrita desenvolvida na América pré-colombiana e sistemas de esgoto nem imaginados pela Europa do Século XVIII. Como sucumbiu? Depois de uma longa seca, a fome, doenças e guerras por alimentos. Do pó ao pó.

Não foi e nem será o único. A crise de água afeta o sudeste brasileiro e vira pauta nas rodas de debates do país inteiro. Quantos anos o nordeste brasileiro carece de atenção pelo mesmo problema e só é lembrado em promessas eleitoreiras? Agora a região que abraça parte da grande mídia detentora de discursos impositivos sobre tantos temas sofre por um copo de água. Do pó ao pó.

Vida e morte no sertão. A quem interessa? 
A água do país é assim dividida:
72% da água doce é utilizada pelo agronegócio.
22% da água consumida serve às indústrias.
E apenas 6% serve à vida humana e chega às casas para uso doméstico.
Só o agronegócio usou, em 2013, a absurda quantidade de 200 trilhões de água para criação de gado de corte, grãos para exportação e uso excessivo de agrotóxicos em nascentes. 
 
Enquanto isso, a mídia nacional diz que o problema é o teu banho? Tiremos um tanto de pó de cima de discursos defensores de uma elite efêmera e descomprometida com o bem estar geral. 
 
Do pó ao pó. Tantos impérios vão à terra depois de arrogantes atos. Após as eleições, escrevi aqui meu medo com comentários racistas e arrogantes que culpavam nordestinos das decisões eleitorais.  O que tem a ver com a longa seca vivida por aquela região? Ficou um saldo de mortos com as sucessivas secas, de um lado, e o imobilismo das autoridades públicas e da sociedade, de outro.  E os brasileiros ouvindo a mídia oferecer bonitas histórias em novelas enfadonhas, BBBs infinitos e jornais que informam violências cotidianas.  
 
Mas agora é o sudeste? E agora, Geraldo?
Não faço - e nunca farei um discurso provocativo - apologia à raivas ou à violência contra qualquer uma das regiões do país. Provoco, sim, alguns pensamentos sobre alguns cenários que abrem muitos outros problemas tais como o discurso parcial da imprensa nacional, os efeitos das intervenções governamentais que arrecadam dinheiro e nunca chegam às soluções, de movimentos sociais que denunciam abusos e eleições via voto cabresto, o descaso com um universo cultural riquíssimo e reconhecido como parte desse país, e a ( não ) ação das igreja que usa da miséria para agregar fiéis e contribuintes de dízimos, sem falarmos de partidos políticos que se fizeram em cima de promessas nunca realizadas. 
 
Do pó ao pó. Agora a vida segue com intensidades e novo viés. A região-problema ensina modos de viver com carência de água. Pergunto eu em últimas palavras: A religiosidade nordestina irá afetar também o restante do país com (denunciado) comportamento passivo ou organização revoltante à la Antônio Conselheiro? Irá o caldeirão criativo do nordestino afetar o nariz empinado do sul com suas cores e invenções? Ritmos e festas alegres? 
 
Permitam-me escrever sobre esse híbrido encontro provocado pela falta de água. Que o pó da Cantareira seja o novo pó levantado pela dança do maracatu nas ruas de alguma cidade do sul. Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás!!

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