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COLUNA
Por André Soltau | editora@tracosecapturas.com

Criancices

Ele chegava tocando gaita de boca, que ficava escondida no meio do bigode avantajado.

Pedro desconhecia a demora em um canto só. Transitava entre uma cidade e outra pelas estradas de chão. Dormia no campo aberto e tinha o céu como companhia. Carregava apenas um saco de juta com os pertences, no bolso da camisa surrada sua parceira de andanças: uma velha gaita de boca de onde saiam trilhas para lindas histórias.

Essa era rotina de Pedro, que se chamava o Flaco pelo modo franzino de seu corpo magro e baixinho, andando ligeiro arrastando suas poucas posses.

Nunca ia de um lugar ao outro sem levar novas histórias. Dali levava narrativas, de lá trazia outras, que só saiam da boca tão silenciosa quando dava um belo talagaço na garrafa de cachaça. Era preciso estar bêbado para animar histórias antigas, recontadas nos finais de tarde à sombra do grande árvore no quintal. O sol descia lento. Ficávamos ali sentados em troncos, no chão, subidos na árvore com olhos e ouvidos naquele novelista nômade.

Depois de uma longa pausa, a voz rouca surgia da boca miúda e nos levava em histórias contadas tantas vezes pelos pais. Mas que com ele não, em cada visita chegava com uma nova versão. Recriava personagens e cenários nunca vistos.

A Chapeuzinho Vermelho passeava beirando o mangue indo de um ponto à outro da praia do Atalaia. Atravessava a areia antes do próximo navio chegar. Era uma sensação familiar pensar que a Chapeuzinho saía das terras europeias e circulava por recantos que conhecíamos como a palma da mão. Recordo dele construindo as casas dos três porquinhos lá nos lados da praia Brava Praia e enfrentavam a fúria do lobo que morava lá no morro da Praia do Morcego. O lobo chegando em uma velha batera, cercado de cachorros. Na batera levava um puçá e junto uma calça limpa, caso precisasse depois de soprar tanto para derrubar a casa dos porquinhos. Ainda botava uma música de boi de mamão tocando na casa do Porquinho Prático, que dançava de mãos dadas com Heitor e Cícero, que era o violeiro.

Passava dias nessa rotina de contar as histórias ao seu modo e divertindo a gente, que encontrávamos a sensação de acolhimento, ao ver personagens tão ilustres dos livros, morando nos cantos também vistos por nós.Nunca estavam longe, e a familiaridade nos tornava personagens de suas novelas.

No dia seguinte após o encantamento das narrativas de Pedro, o sol de inverno iluminava o lençol branco no varal, dançando ao sabor do vento sul.

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Nós humanos precisamos viajar com a imaginação para entender que é ela que governa a vida.

Fica a dica:

O filme Onde vivem os monstros (Spike Jonze, EUA, 2009). 



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