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Um Cadáver que nos sorri

31 Março 2015 16:20:00

Macacos
Foto: Divulgação

Usamos palavras que ninguém ousa questionar se ainda existem de fato. Aos governos autoproclamados socialistas questiona-se a manutenção do governo passado de pais a filhos, de irmãos a irmãos. Aos capitalistas, a democracia representativa está muito doente quando os eleitos dizem e fazem o que querem (ou são pagos) para o fazer, há algo de doentio, afinal, são representantes de quem os elege. 

É uma discussão difícil exatamente quando o país demonstra descontentamentos em distintos níveis. Da panela que vira protesto às manifestações de rua regada pela intolerância e agressões. Das defesas duvidosas que vão às ruas ficaram alguns medos sobre o dito. 

Nas últimas duas décadas, o Brasil revisitou seu comodismo. Gritou!

As profundas mudanças tecnológicas trouxeram possibilidades de conexões inimagináveis e, com elas, articulações e movimentos com diversas reinvindicações. Crises de pensamentos, grandes narrativas e ideias políticas sofrem seu revés. Questionamos tudo: da compra mal sucedida às diretrizes políticas de um país. Da opinião de um cronista às ações isoladas de um professor em sala de aula. Do ato corrupto de um político ao ato insano de uma mãe. 

A rede social Whatsapp  mobiliza e, claro, espalha boatos. Somos provocados a tomar posturas e/ou reproduzi-las sem a profundidade necessária as vezes.

Observo aqueles que - mesmo sem ler o texto - compartilham em redes sociais temáticas duvidosas, usam de frases de efeito pensando sem levar adiante uma conversa, usam expressões curtas ou interjeições para emitir opiniões sobre assuntos sérios. Assim como consumimos e descartamos objetos estamos adotando, utilizando e descartando ideias e conhecimentos com a mesma facilidade. Palavras em uso sem a necessária percepção do que dizemos.

Dentre as palavras que não ousamos criticar abertamente está a democracia e o sistema político tão familiar a todos. O grande argumento a favor do voto livre não é que ele garanta os direitos, mas que, pelo menos teoricamente, capacite o povo a se livrar de governos impopulares. Gostaria de fazer algumas observações sobre o tema:

- Começo com a observação de Winston Churchill: “A democracia é a pior forma de governo exceto todas as outras que foram experimentadas de tempos em tempos”.  As manifestações levaram para a rua famílias inteiras e não tiveram quebra-quebra. Ótimo.  Mas levaram filhos para pedir a ditadura? Isso deveria ser crime contra a lei máxima do país. Ou estou enganado?

- O que leva às ruas palavras de ordem contra corrupção? Quem é a favor da corrupção? Ser contra a corrupção é - no mínimo - ético e digno. Sempre é bom lembrar que tantos - dentre esse que ai está - se elegeram falando em combate aos corruptos e que muitos dos que levantam a mão contra ela também aceitam a corrupção diária do troco recebido errado, furar filas ou burlar o estacionamento para deficientes. Ahh! A corrupção nossa de cada dia.

- Há uma soberania de que pouco se fala também. Giorgio Agamben, filósofo contemporâneo afirmou recentemente que Deus é o dinheiro. O mercado financeiro manda. Diferenciemos governo de poder. Quem governa não tem poder. Bancos, megaempresas o tem. Com serviços básicos sendo privatizados, quem define as leis? Ora ora... vamos pensar um pouquinho: o governo tende a depender de mecanismos econômicos privados para tomar posições.

- E não posso deixar de lembrar algumas (no mínimo) curiosidades nos vários movimentos populares: achei uma foto em algum lugar do Brasil com um grupo levantando uma faixa e nela escrita: “ Governo desgraçado. Minha família não pode ter empregada por ter que pagar direitos trabalhistas.”  O que??

Vi um cartaz que dizia: pela volta do voto impresso. Como? Quero a volta do vinil ou dos programas de rádio nos domingos. Papo retrô esse. 

Palavras de ordem falam em “Intervenção Militar” ao lado de outra que fala da “força do povo nas ruas”.  O que mesmo há em comum entre as duas frases?

Ahh. E ainda a tempo. Lembram do Levy Fidelis? Aquele candidato que foi motivo de piadas nas eleições? Agora é comentarista político na Globo News. 

Qual é mesmo a força do voto?  Há um clima de apartidarismo em movimentos de ruas e nas redes sociais. Será?  Agronegócio defendendo militarismo e fundamentalistas religiosos defendendo ideias que ferem a Constituição. 

Sim. Acordemos do berço esplêndido. Ó pátria amada, idolatrada salve salve!!!

Ou a democracia será um cadáver a nos sorrir.

*O título relembra Oliviero Toscani em seu livro: A Publicidade é um Cadáver que nos sorri. Publicado em 1996 no Brasil.

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