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Sou o que mostro

03 Fevereiro 2015 15:07:00

Espelho, espelho meu! Haja ego para tantas fotos

Mona Selfie
Foto: Divulgação

Um dos comportamentos mais curiosos da sociedade de consumo é o autorretrato. O verão bombou com muitos paus de selfie circulando nas mãos de turistas. São tantos que estão sendo proibidos em eventos de grande público. Viram armas em conflitos.

Selfie é algo recente. Pois já é passado. Temos Helfie, Belfie, Drelfie, Pelfie, Welfie e Farm selfie. Ufa. Espelho, espelho meu! Haja ego para tantas fotos
O renomado dicionário Oxford lançou um desafio no ano que passou e o resultado é surpreendente. Em apenas sete dias foram 21.766 fotos postadas na página. Eleita pelo renomado colecionador de verbetes, a palavra do ano.
 
Fotografamos comidas, comportamentos, nossos passeios e festas desde que a fotografia foi inventada. Mas auto fotografar-se? Também. Autorretratos existem desde que as primeiras imagens foram feitas nas cavernas, com pintores em várias fases da história da arte, com fotógrafos. Humanos representam-se com o que está mais à mão: carvão, tintas, nitrato de prata, luzes, grafite.
 
O que diferencia esse hábito de hoje em tempos de fotografia digital? Com celulares e máquinas pequenas aconteceu uma considerável popularização da fotografia já experimentada pela humanidade (em menores proporções é claro ) com as primeiras máquinas portáteis que datam do final do século XIX. 
 
Afinal, qual a diferença dessa profusão de autoimagens hoje? A prática é um modo de banalizarmos o espelho. O culto à nossa imagem. Ao individualismo exagerado. Não deixo de lembrar da história de Narciso. Morreu afogado depois de admirar sua própria imagem por horas.  Há um fio tênue que separa uma equilibrada autoestima da dependência de sua autoimagem. Narcisismo mata!
 
Por trás da imagem não deveria estar um humano? É exatamente isso que o selfie captura?
 
Sou o que consumo?  Sou o que mostro? Sou o que penso? Sou o que sinto? 
No começo desse texto coloquei palavras ainda não tão comuns quanto Selfie.  Fotografia da bunda! Fotografia dos cabelos! Coleção de selfies! Fotografia abraçado em animais de sítio como porco, cavalo, vacas! Novas ondas de autorretratos. Haja loucura para tanto ego.
 
Quando pensadores - em meados do século XX - falavam no perigo em promovermos nossa própria imagem, confiantes de que isso garantiria nossa existência, foram muitas as vozes que o trataram como malucos adeptos de alguma teoria da conspiração. Pois bem. O futuro - daqueles pensadores - está aqui. Somos nós que o estamos vivendo e fazendo. Pergunto em moralismos se não corremos o risco de viver máscaras ao invés de sermos humanamente possíveis? Vivo feliz no facebook e que o mundo real exploda. 
 
Na sociedade “photoshopada” vale o biquinho na hora da foto, o rosto modificado, os cenários alterados, pose no espelho do banheiro de balada e o faz-de-conta que acontece. Sensual sem ser vulgar e músculos à mostra deixam todos bem na foto. Claro que alimenta outros comportamentos. Nova onda? O Sexting, ou seja, envio de imagens sensuais de pessoas usando celulares ou em redes sociais.
Disse um dia, Caetano Veloso, que de perto ninguém é normal. A vida é deliciosa porque há imperfeições, cicatrizes, rugas e todos tem lugar ao sol. Afirmo a diferença e desconfio do modelo. Sou tentado à imperfeições e não deixo de gostar de alguém por ter cabelos em pé ou mãos gordas. Nada é tão agradável aos olhos e imagens comerciais desejam o lucro. A vida pede coragem para assumirmos que somos humanamente imperfeitos. Deliciosa é a capacidade humana de olhar para o outro sem julgamentos soberbos. 
 
A senha para essa compreensão? Deixo Adriana Calcanhoto responder em sua bela poesia:
 
“O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos”.
Não gosto

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