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Quantas cidades cabem no coração?

14 Outubro 2014 16:04:00

gaspar
Foto: Arquivo Jornal Metas

Debrucei pequenas memórias sobre a cidade e seus múltiplos ritmos. Ampliei olhares para suas ruas, seus cheiros, suas festas. Agucei ouvidos e captei seus sons cotidianos com a curiosidade típica de quem olha novamente para seus recantos após alguns anos sem ali estar.

 Nessa cidade de multivariadas faces circulando em suas praças e ruas, feiras e bares absorvi a mudança do verde das plantações ou de morros após as chuvas. Sorvi cores intensas em coloridas estações anuais. Envolvi-me com a terra e seus tons pastéis. Dessa mistura, fiquei lambuzado de lembranças e bons momentos que reverberam em imagens vindas da distância que o tempo teima em ampliar. Escorreram viscosas em minhas mãos como melado e deixaram cheiros, sabores e tonalidades tão minhas que achei melhor contar ao leitor mesmo correndo o risco de ser traído pela língua e também pela palavra.

Volto à amplitude da paisagem no bairro onde morei com seus vales pintados por tons esverdeados de plantações contornadas por córregos. Cresce o alimento ao sabor do tempo e na labuta da mão humana. Sou todo azul quando revejo o sol pousando no Açu que banha de rio a cidade dando um traço poético à paisagem. Respeitoso rio - quando bem tratado - dá vida ao lugar. Do destrato reage ocupando casas e levando memórias correnteza abaixo. Espraia-se em curvas sensuais pelo verde vale.

Contar histórias é uma arte. Os moradores de seus recantos sabem fazer com esmero entre um café e o cheiro do pão feito em casa. Todas as lembranças trazem mãos enrugadas, palavras suaves e narrativas de tragédias entrecruzadas por alegrias, rituais de passagem e fé.

Não sou observador de sobrenomes pomposos ou casarios suntuosos. Misturei as palavras com os curiosos casos do barbeiro na esquina ou de palavras rudes da colorida senhora carregando sacolas quando volta da feira. Das sombras! Ahh! Lembro da velha figueira envolvendo os passantes com seus galhos. Relembro do coreto - símbolo de outrora - ainda afirmando seus dias encravados na cidade que cresce. Relembrei do singelo banco que permitiu tantas vezes o meu descanso ao sol de inverno.

Conto - passo a passo - as escadarias da velha igreja matriz para ver dali você pequenina cidade em seus movimentos matinais e interioranos que teimosamente conta o tempo no relógio da matriz teimando em repetir as horas com paz e paciência.

Quando encontro seu ritmo escuto a cidade se fazendo com arte e esmero. Diante da severidade no discurso de nobres senhores da política local, prefiro ouvir àqueles que povoam suas ruas, seus interiores e circulam em estradas de chão batido em velhas tobatas carregando alegres crianças.

A história de hoje parte do presente. A cidade que mora em mim, não vive de mitos do passado romantizando sobrenomes que assumem proporções épicas.

Ouço claramente em minha memória, as palavras ditas em canchas de bocha, em pontos de ônibus habitados pelo trabalhador do primeiro turno ou pelo jovem cruzando a rua em seu skate. Também gosto de observar a velha senhora que prepara a cheirosa cuca e espera o encontro de família lhe dar aconchego.

Quero relembrar de seus habitantes curiosos pela palavra ou de amigos que tão belas imagens fazem de ti. De quantos versos será feita a tua memória pequena cidade? De quantas fotografias serão feitos os teus legados? Como será o tempo de hoje nas letras e signos desses cuidadosos registros de sua vida num porvir?

Não quero - de forma alguma - deixar que o tom emocionado de minha história me faça esquecer os limites e imposições de uma cultura que afirma uma única identidade como verdadeira. Deixamos, assim, de ver na alegria dos gestos, no colorido dos pensamentos ou em escolhas diversas daqueles que teimamos em chamar de diferentes. Afirmo as diferenças como parte do humano!

Confronto o mito de heróis fundadores para oferecer leveza aos meus olhos. Quero a permissão para ouvir seu cotidiano pequena cidade em dias quentes ou frios. Penso assim em dar algum sentido em atos humanos nos encontros efêmeros de suas esquinas povoadas de pequenas e significantes histórias.

Gaspar! Quantas cidades cabem no coração do cronista? Que teus olhos deem vida às minhas palavras.

Imagens


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