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O professor no fio da vertigem

?O ódio velado sobre esse ou aquele denuncia a negação da diferença e a negação da participação naquilo que ?teoricamente? chamamos de democracia?.

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Foto: Divulgação

Já dizia o velho mestre Guimarães Rosa que Viver é um rasgar-se e remendar-se. Parafraseando o mestre nordestino, creio que a escrita é um eterno rasgar-se. E assim dito, amigo leitor, não vou escapar de remendar-me após esse rasgo feito hoje. Sou professor já alguns anos. Acompanhei - via redes sociais - os comentários após eleições.

Coletei aqueles que me chamaram atenção - não pelo que dizem apenas - por vir de professores que conheço no cotidiano de minha profissão. E, só uma palavra, resume meu sentimento: susto! E o digo por quais motivos. Óbvio que não quero, não vou e nunca farei julgamento de escolhas partidárias. Quero uma conversa breve sobre xenofobia, racismo, ódio e preconceito. E, sobretudo, emitido por aqueles que - supostamente - educam para uma sociedade justa e democrática afinal.

Um dos primeiros que me provocou à essa escrita: “Infelizmente no Brasil quem decide as ELEIÇÕES não é quem lê o jornal, mas quem limpa o r... com ele!!!! - se sentindo envergonhada”. E seguiram outros: “Nordestinos mortos da fome depois sai do seu estado que é uma m... e vem p sul arrumar uma vida melhor. filhos da p.... Se vota assim  é porque lá está bom então cacalhada fiquem por lá com seus bolsas tudo. Mas não estraguem o futuro do pais”. Ou “Estamos de cabeça erguida mas cansados de sustentar e pagar a conta dos malandros nordestinos e um resto de povinho sem cultura que está espalhado pelo resto do pais”.
 
 A eleição acabou, mas a intolerância parece perpetuar-se. Poderia enumerar muitos outros. A rede social tem suas vantagens sobre a vida real. Emitir opinião é fácil, menos arriscado. Se a tensão aumentar, basta desconectar, bloquear sem desculpas ou culpas. Resultado em um curto prazo? Cada dia alimentamos menos confiança com aqueles que estão ao nosso lado. Nosso conceito de democracia permite o distanciamento de nossas vidas. Distantes a ponto de não precisarmos nos sujar com as escolhas. Esse distanciamento permite atos tiranos em uma democracia higienizada que apregoa uma pretensa civilidade como objetivo final. 
 
Elegemos para meses depois não lembrarmos exatamente de quem foi o candidato votado. O parlamento - teoricamente - representa as diferenças do país. Aqui entre os eleitores, a diferença é apenas objetivo em projetos educacionais e pedagógicos.  Somos diferentes! Ótimo! A diferença deve vir antes de qualquer ato de escolha e não como algo que “devemos” ter como produto final. Mas como vermos a diferença em uma cultura marcada pela hierarquia social?  Política não é só a luta pelo poder.
 
Política é feita por atos cotidianos, escolhas morais e/ou éticas desenhando um tempo determinado e um espaço específico. As nossas maneiras de ver, sentir, ser no mundo são feitas de escolhas políticas que estão em gestos visíveis (como os depoimentos acima) ou em atos velados ou comentários maldosos nas salas de professores. O ódio velado sobre esse ou aquele denuncia a negação da diferença e a negação da participação naquilo que “teoricamente” chamamos de democracia.  Os comentários pretensiosos se auto denominam defensores da participação.  Há poder neles. Há escolha política na frase. 
 
Separar o sul? Culpa desse ou daquele! Democracia - nos termos tão propagados em manuais e livros didáticos - afirma a participação daquele que não tem o exercício de poder pela ausência de nomes nobres, dinheiro ou acesso à conhecimentos privilegiados. Não estaria carregado de democracia que priva alguns e valoriza outros os depoimentos daqueles professores que defendem atrocidades étnicas?
 
Quantos anos observamos grupos políticos que governam por alternância e alimentam monstruosidades sociais? Governos que mudam nomes e sobrenomes permanecem em estados com grandes índices de pobreza? Não estariam confiscando a democracia, colonizando as mídias formadoras de opinião sustentados por grandes potências financeiras? E nós professores? Confiamos nessa concepção democrática à ponto de excluir alguns, condenar outros para reafirmarmos nossa concepção? Democracia não é feita de empresas ou atos insanos em pensamentos excludentes. É feita em atos diários, palavras cotidianas, escolhas constantes em salas de aulas, reuniões e leituras.  É uma construção cultural não um ato do momento atual.
 
Se pensamentos xenófobos, racistas ou preconceituosos circulam é por que aqueles atos velados -  já falados anteriormente - vivem em redes sociais porque a desconexão da virtualidade permite que ele ainda sobreviva. Pensamentos excludentes confinados nas redes sociais só confirma que a vida real continua sendo um terreno fértil em palavras vazias, em cartões emocionados que continuam sendo entregues em reuniões e apregoando respeito nas mensagens bonitas ou evasivas sejam as frases que desconsideram as políticas de inclusão nas escolas.
 
A democracia só existe no encontro de percepções e sentimentos diferentes, de culturas distintas seja ela haitiana, nordestina ou catarinense. Afirmo as diferenças não como objetivo e sim com princípio de qualquer ação educativa. Só podemos nos autoproclamarmos democráticos quando aceitarmos as diferenças.
 
Remendar-se! Será parte de meus próximos dias. Refaço hoje os caminhos do poeta moçambicano Mia Couto: “Preciso ser um outro para ser eu mesmo /  Existo onde me desconheço aguardando pelo meu passado ansiando a esperança do futuro  / No mundo que combato morro / No mundo por que luto nasço. Que teu/meu voto permitam um sobrevoo onde nossa cultura vive. Sem vertigens.”

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