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Há uma vida na próxima esquina

09 Dezembro 2014 18:43:00

?Éramos humanamente possíveis com falhas, alegrias, fofocas?

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Foto: Divulgação

Ouço dizer que o mundo está cada vez menor. E a gente olha para o umbigo. Estou tão próximo de notícias do outro lado do Atlântico que me sinto íntimo de alguns povos, solidário com outros e opino sobre etnias africanas como se o problema realmente fosse entre vizinhos. E sou cego ao ribeirão de meu bairro cheio de entulhos. Tem sim um tanto de verdade esse papo todo. Mas conheço pessoas que moram no Vale do Itajaí e nem sequer conhecem o mar ali pertinho em Navegantes. Sem falarmos das distâncias sentimentais que não estão nada bem em um mundo que agride grupos étnicos, homossexuais e fala impropérios de nordestinos. Olhamos o mundo que pintam para a gente.

Houve um tempo em que a carta chegava pela manhã. Esperávamos notícias distantes ansiosos e apreensivos. Conhecíamos a necessidade das distâncias e os reencontros eram tomados de emoções e lembranças boas.  Percebíamos que o outro era diferente - mesmo que familiar - e admirávamos isso.  Incorporávamos um pouco do parente que estava de partida dias depois. Éramos humanamente possíveis com falhas, alegrias, fofocas e dávamos grandes sentidos aos encontros. Hummmm!! Saudoso tempo! Que tempo?

Digam que o cronista de hoje é louco apaixonado e saudosista. Não é verdade. Vivemos hoje a condição do novo. Conhecemos muito mais do que nossa região olhando para problemas do mundo como nossos. Temos acesso a tantas informações em um dia que nossos avós nem imaginavam isso tudo em uma vida.  Os valores velhos perduram enquanto o novo já dá os primeiros passos. 
 
O caos da travessia de um tempo à outro está em tudo o que vivemos. Somos contemporâneos de um processo de mudanças culturais e de nossa civilização. Bom? Ruim? Sei lá. Mas é movimento. E cultura só se faz com ele. É nômade nossa cultura. Somos a soma de tempos com sentidos distintos. Eu sou o que sensivelmente percebo.
 
Agora...
Quando Sartre disse que “ o inferno são os outros” me deparei com pensamentos violentamente nervosos. Afinal, se não fossem os outros a vida seria fácil.
É?
Olhamos para o outro lado do mundo. Sabemos que tem água em Marte. Detalhamos um crime acontecido em um remoto país da Ásia. Conhecemos a intimidade da Rainha no velho país europeu. Nos encantamos com o sorriso do primeiro filho de um casal de atores hollywoodianos. Mas evitamos de olhar para alguns detalhes significativos aos humanos que teimamos em ser. Voltei o pensamento para alguns indicadores quando pensava na frase de Sartre. Quase 1 bilhão e meio de pessoas vivem na mais profunda pobreza contentando-se com R$ 3,00 reais diários de renda.
 
No planeta temos aproximadamente 1 bilhão de pessoas que não sabem ler e nem escrever;
1/3 da população mundial não tem água potável em abundância. E logo seremos afetados no planeta inteiro.
Mais de 100 milhões de pessoas não tem um teto.
Sabe o que significa ter de caminhar mais de 1,5 km todos os dias, apenas para  buscar água?
 Todos os anos, morrem onze milhões de crianças, a maioria das quais com menos de cinco anos; 
Quatro em cada dez pessoas no mundo carecem de acesso a uma simples latrina.
E mais de seis milhões morrem devido a causas que consideramos erradicada do planeta como a malária, a diarreia e a pneumonia.
 
No mundo inteiro, 114 milhões de crianças não recebem instrução sequer ao nível básico e 584 milhões de mulheres são analfabetas.
 
Poderíamos elencar vários outros indicadores e fontes do Banco Mundial. Organização Mundial da Saúde, Organização das Nações Unidas ou Médicos sem fronteiras nos deixariam com vergonha diante do que pensamos ou deixamos de fazer. Enquanto isso vejo frases tolas contra nordestino. Alegre povo que tem deixado legados que vão de grandes literatos como Guimarães Rosa à educadores reconhecidos pela genialidade como Paulo Freire.  Pessoas arredias com haitianos que fogem de terremoto, deixam memórias e enfrentam aqui o preconceito. Sou impaciente com madames que reclamam de bicicletas e acham chique passear com elas na Europa.
 
Sou impaciente com discursos. Tenho um medo atávico daqueles que alimentam contas bancárias sem a sensível arte de ser humano com um cão abandonado no meio fio. E Natal chegando! Só agora lembro que preciso doar algo à alguém. Em festa fica a cidade quando os sinos batem, a missa clama e a humanidade cala ante a misera televisão que insiste em contar que um novo BBB irá começar. Viva o Bial! Éca!!!

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