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Desejos profanos

11 Novembro 2014 18:44:43

?Carros grandes, roupas com marcas reconhecidas identificam aquele vencedor que se destaca.? 

outdoor
Foto: Divulgação

“Eu te darei o céu meu bem ... e o meu amor também”... Cantava o velho rei no país tupiniquim. De quantas promessas é feito o nosso dia? Quero compartilhar, com você leitor, alguns pensamentos que têm povoado meus dias sobre o arquétipo de felicidade. Felicidade nunca está no presente. Procuramos por ela no que passou: “Naquele tempo que era bom....”  ou no futuro: “ Faço hoje para ser feliz amanhã”. No presente nunca. Mas, me parece provável pensar que alguns setores da vida acharam a chave para que seu/meu/nosso presente seja inundado de felicidade com uma condição: comprem!

Bastou eu consultar o verbete “lucro” para descobrir que sua origem etimológica remete a palavras como “ganho”, “vantagem”. E curioso, também originou a palavra “logro” ou “lograr”. Entre vantagens e mentiras, de qual lucro falo? Sim alguém ganha muito com a venda de modelos do que é ser feliz e outros - sempre - perdem.
 
Em breve caminhada pela cidade, sem a costumeira pressa cotidiana, encontrei a felicidade em outdoors, cartazes e vídeos projetados em grandes telões fixados em cruzamentos. Vi a realidade oferecida à todos. “More aqui e traga a felicidade para seu lar”, “Beba a felicidade”, “Compre a chave da felicidade”, “Entre para encontrar a felicidade”.  Os óculos sociais que me oferecem no comercial de rua prometem os céus.
Tenho visto o consumo ser naturalizado como algo inerente do ser humano.
 
Associado à identidade. Não vejo tanto a afirmativa “gosto de comprar” e sim defesas,
comportamento e escolhas vinculam imediatamente o humano como um consumidor.
Dentre tantos nomes que os teóricos dão, prefiro aquele que denomina a Cultura da Vaidade. Produtos, marcas e imagens recorrem à ela para que o símbolo de felicidade e sucesso seja alcançado. Vaidade aproxima-se da aparência e precisa do olhar do outro para que exista. A vaidade não sobrevive se passar despercebida. Portanto, um vaidoso precisa do julgamento do outro para se alimentar.
 
Em outras palavras, o que consumimos escapou ao controle daquilo que considero humano. O produto transcende àquele que o criou. Seja produtos materiais, ideológicos ou símbolos de fé. Compramos carro, livros, roupas, sapatos, ideias, modos de ser e sentir ou produtos que oferecem proteção divina. Vaidosos humanos que ostentam posses e profanam seus sentidos. Eu preciso ser melhor do que o outro. Eis a fórmula do sucesso.
 
Claro, leitores, que pousam dúvidas nas palavras que deixo aqui. Continuo me provocando com o tema e pergunto-me: qual o tipo de pessoa que é admirada na cultura contemporânea? Qual indivíduo é um vencedor hoje?  Carros grandes, roupas com marcas reconhecidas identificam aquele vencedor que se destaca? 
 
Sintomas, sim, de que a minha cultura anda um tanto doente. E eu já não me sinto muito bem. Sou coagido a ser íntimo de uma roupa que não conheço ou de uma bebida que não gosto. Torno-me (sem o desejar) Voyeur da personalidade famosa oferecendo na intimidade de sua casa um creme que resolve os problemas advindos da idade. Sou um Chaplin preso nas engrenagens da máquina no filme Tempos Modernos. Adoeço por falta de presente. Parece que só vejo o passado com saudosismo e o futuro com ansiedade. 
 
Será que o resultado maior do consumo e da vaidade não seria apenas o propalado conforto e sim um modo de existirmos aos olhos dos outros?  Encontrei uma frase intrigante em redes sociais e me fez voltar os olhos para o tema de hoje. Dizia “ninguém é tão feio quanto a foto de sua identidade e nem tão bonito quanto a foto no perfil do Facebook.”  Compro a chave da felicidade presente alimentando vaidades.
Aquele óculos social do qual já comentei oferece a imagem da felicidade como um produto que está ao alcance e simbolicamente disponível. Depende de um ato meu para que eu tenha posse. Meu dinheiro de plástico pode fazê-la existir, materializar-se, alimentar minha vaidade particular.
 
Comprar significa agregar valor social, é uma maneira de alimentar a cultura da vaidade, é um modo de ser visto socialmente. Lembrei daquela propaganda de carro quando a criança pede ao pai que para na esquina da escola porque tem vergonha do carro da família. O sorriso e a felicidade voltam ao rosto infantil quando o carro do pai é trocado pelo modelo em oferta. O produto precede a felicidade. 
Vaidade tem na sua origem etimológica o sentido de vazio. Vaidade é um dos sete pecados capitais. Ahhh desejos...sempre profanos.

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