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Crônicas no tempo

03 Março 2015 17:29:00

"O cérebro que ouve músicas oxigena-se, move outros neurônios, lida com outros sentimentos em um mundo voltado para tantas mesquinharias.?

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Foto: Divulgação

Diga bem rápido: qual música marcou o encontro com um amor? Pensamos a música, pensamos com música, pensamos por meio da música. O ritmo música é a crônica de um tempo já vivido. Temos trilhas sonoras para fases de nossas vidas.

A Lei 11.769/2008 obriga o ensino musical nas escolas e, pouco a pouco, vai tomando forma na prática. Não que a música seja considerada uma nova disciplina musical, mas que mexa com ritmos e lide com o sentimento da comunidade. Ou seja, virou lei o que já sentimos em toda a nossa vida. Tão importante é a música que está em uma lei acima de outras expressões artísticas.
 
Ouvimos ritmos musicais não apenas pelo prazer individual. Ela lida com a formação humana mesmo. O cérebro que ouve músicas oxigena-se, move outros neurônios, lida com outros sentimentos em um mundo voltado para tantas mesquinharias. Em muitos povos antigos acreditava-se que a música desenvolvia outros valores éticos e comunitários. Alguns desses povos ainda têm na música seu ponto de congregações, reuniões, rituais de passagem.
 
Interpretar uma música não é, claro, falar sobre o profundo sentimento com que ela nos leva a visitar. Vivemos dois tempos quando escutamos músicas que nos lembram outro tempo. Sentimos cheiros, ouvimos palavras, rimos de tolices, recordamos situações. Vamos para momentos que fazem parte de nosso dia a dia em outros tempos.  A música permanece inesgotável, ainda em seus mais amplos significados.
Sim, caro leitor, o que fizemos com ela em nossa vida tão esnobe e autoproclamada civilizada, moderna, hi-tec? Para compreendermos a música é necessário reconhecermos nosso vínculo com sua matéria-prima: o som em diálogo com nossas origens culturais. Povos que não são herdeiros de culturas europeias, a música assume funções sociais importantes. Música agrega.
 
O que temos ouvido em nossas festas? Quais músicas utilizamos em apresentações escolares? Quais escolhemos para relembramos? Qual música será parte da memória de jovens no futuro? Cada verão tem um ritmo que some assim como apareceu, memórias efêmeras que nem conseguem tempo para afetar sentimentos e sim corpos que movem, músicas que vendem, comportamentos que se adquire, balanços que se imita, cantores que da fama hoje, são anônimos amanhã. O que estamos fazendo com o ritmo de nosso tempo? 
 
Seremos, em breve, um tempo sem crônicas? Sem ritmos que movem nossos sentimentos e memórias? Não sei dizer. Apenas observo boa parte da  música consumida está mais para uma loja de departamentos do que para os sentidos humanos. Ritmos que vendem mas não tocam nos sentidos humanos com a intensidade necessária para fruição e crescimento pessoal.
 
Perguntei em uma aula dia desses: quem lembra do ritmo que fez vocês requebrarem no verão passado? Nenhuma resposta em uma sala de 50 jovens estudantes de curso superior. Falei para eles de minha mãe que, em seus 90 anos, relembra e canta ritmos de sua juventude com emoções e lembranças de amores passados, festas e sentindo um outro tempo. Como funciona o cérebro com a música? Como nosso aparelho de audição move-se quando ouve ritmos de qualidade sonora? Quais os tons que atinge um cantor quando em atividade? Qual a diferença entre a duração sonora de uma ou outra música? A emissão do som é estudado em outras áreas: matemática, ciências ou língua portuguesa podem dialogar com música e sua poesia ou pauta. História pode contar outros tempos pela música e as angústias humanas. A tempo... não quero deixar o assunto sem um diálogo com o Brasil das últimas semanas de protestos e reivindicações. Nessa semana vi em protestos de brasileiros um cartaz onde se lia: “ Pela intervenção militar. O povo na rua tem força.”  Ri um tanto e procurei modos colocar as duas frases em diálogo. Imediatamente lembrei de uma música: O Bêbado e a Equilibrista. Música imortalizada na voz de Elis Regina: “Com tanta gente que partiu num rabo de foguete. Chora a nossa pátria-mãe gentil. Choram Marias e Clarices no solo do Brasil.”
 
Também não pude deixar de lembrar uma bonita metáfora sobre os anos de chumbo da ditadura com Caetano Veloso em Tropicália:
“Sobre a cabeça os aviões. Sob meus pés os caminhões. Aponta contra os chapadões meu nariz”
 
Música é conhecimento.  Ensina no que erramos, acertamos ou devemos repensar melhor. Se há dúvidas, escute novamente. 
Aproveita-a com prazer e num ritmo adequado ao seu tempo. Escolha seu ritmo!

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