| ASSINE | ANUNCIE
| | | |
TOP_Conversacoes.png
TOPCEL_ColunaConversacoes.png

A flecha atirada, a palavra dita

14 Abril 2015 17:47:00

03
Foto: Divulgação

Temos medo de páginas em branco. Hoje são telas brancas. Medo de começar com a palavra errada. Medo de não dar conta do que começamos. Medo de dizer tolices sem sentidos ou de provocar reações que não são nossos desejos. Medos. Palavras ditas não voltam. 

Sim, escrevo crônicas, livros e textos acadêmicos. Mas ainda assusto com o branco desértico de palavras que ainda não chegam para povoar a mente. Quando me autocensuro (como nessa semana antes desse texto ) ou quando temas repetitivos insistem em pulsar ali onde o escritor não deseja mais mexer fica muito maior o receio. 
 
Novos protestos, novas repetições, gestos semelhantes ou comportamentos repetitivos que insistem em levar humanos ao mundo de Alice no país das maravilhas... tantos temas que repetem sua sinfonia em uma nota musical só. Canso! E a palavra fica em suspenso esperando um pingo de ousadia, uma quase loucura.
Por exemplo, semana passada vi pela mídia, um deputado acusar outro de heterofobia dentro de um avião. O mesmo deputado que acusa mulheres, ameaça estuprar outra, agride homossexuais e esbraveja contra minorias. É um tema procedente? Poderia ser quando o senhor deputado angaria milhares de votos. Não falaria de tuas grosseiras palavras ou atos moralistas, afinal são tão antiquadas. Me preocuparia em pensar sobre seus eleitores. Quem vota em um cara que acusa minorias e ameaça com violência?
 
Poderia voltar ao tema das manifestações pelo país. Olharia agora para os seus participantes, desejos. Ousaria rir das opiniões colhidas por uma revista mensal em pleno protesto ao inquirir os envolvidos no protesto sobre a terceirização de serviços que foi aprovada na última semana em meio a discussões no congresso nacional. Querem mudar o país, mas falam atrocidades e culpam (claro ) o governo pelas terceirizações por não assumir seu compromisso com o povo. Ai ai ai!! Sabem o que dizem, senhor!
 
Poderia começar falando hoje de Eduardo Galeano que morreu na última segunda feira e em seu Livro dos Abraços que, em suas andanças pelo mundo, provoca o leitor a olhar para os pequenos momentos porque são exatamente eles que sacodem a vida e fazem o que há de humano em nós pulsar. Vá espírito de luz. Galeano meu ensinou a arte de olhar o mundo com mansidão.
 
Escolheria talvez um tema picante. Um filme já visto por muitos. Um hábito consumista acumulando lixo nas ruas. Ou modos de educar filhos. Confianças entre casais. Tipos de famílias. Outros modos de viver a sexualidade, violência que não perdoa cidades pequenas, destruições ambientais provocado por grandes empresas na região que não ouvem críticas porque alimentam famílias e sustentam governos municipais...
Não faltam assuntos. Eles são muitos e são apimentados. Não se trata de ausência de ideias. O que penso hoje com você são modos de conversarmos. Esse espaço chama-se CONVERSAÇÕES. E uma conversa pede ao menos dois. Aqui cronista. Ai leitor. Diga! Provoque-me. 
 
Tantos temas, tantos pensamentos provocados. Tantas palavras a serem escritas. E o leitor? Escrever é jogar flecha. Palavras ditas não voltam. Cadê o leitor?
Escrever é um ato ousado. Meu tempo aqui no espaço desse jornal é o tempo presente. Porém...a fina ironia, a critica as vezes acirradas ou garimpando em temas subjetivos procuro não esmagar as palavras com meias palavras, entrelinhas, subterfúgios. Procuro assumir o compromisso, pois sinto que escrever é preciso mesmo que pareça tudo já ser escrito. Escrever mexe com minha alma. A palavra ganha significado em meus pensamentos. Inquieto, mas não acomodado. 
Penso em cada texto como provocador de conclusões, irritações, alegrias ou construções. Leitor precisa - deve - grita - fala - critica o que lê. É permitido o devaneio. Minha narrativa poderia se multiplicar em metáforas individuais. 
 
Lembrei que minha mãe ouvia novelas em rádio. Chorava compulsivamente aos finais abraçada ao aparelho que descrevia histórias melosas em radionovelas.  Imaginava com ela os cenários, tamanhos, roupas e cabelos dos personagens. Ria e chorava. Esperava a noite para ouvir palavras que me conduziam para outros mundos. Esse é o sonho de todo o escritor - creio eu - levar modos do leitor criar novos mundos. 
A escrita aproxima-se do professor. Não controla o que seus alunos farão com o dito em sala de aula. Não controlam os efeitos de suas aulas nas famílias. Dizem e defendem pontos de vista sem saber para onde irão suas palavras. 
 
Escrever reclama sofrimentos. Finalizado um texto não acabam ali dúvidas, incertezas. Quem poderia dizer? O leitor e sua - muito particular - leitura. Repousa calmo aqui o silêncio e outros mundos. A palavra impressa aqui no jornal, sela o silêncio. Do lado de lá - penso eu cronista - o que dirão? Farão? Ou não lerão?
Qual é a palavra para o silêncio da crônica? 
Flecha atirada. Palavra dita. 
Sem voltas! Vá!

Imagens


JORNAL METAS | GASPAR, BLUMENAU SC

(47) 3332 1620 |




JORNAL METAS - Rua São José, 253, Sala 302, Centro Empresarial Atitude - (47) 3332 1620

| | | |